Super-Homem, Capitão América, Mulher Maravilha e Homem Aranha. O que esses super-heróis possuem em comum? Todos são criações norte-americanas que vestem as cores da bandeira do seu país e se tornaram mundialmente conhecidos.
E por que, no Brasil, não temos uma referência forte como esta? O verde-amarelo, que já inspirou músicos e poetas de tempos passados, não pulsa - nem nunca pulsou - como uma identidade verdadeiramente brasileira. Como regra geral, as cores da bandeira nacional, símbolo cujo dia se comemora hoje, são abraçadas apenas a cada quatro anos, em época de Copa do Mundo, quando os brasileiros são tomados por um sentimento coletivo que se dissipa pouco depois de o campeão do torneio ser conhecido.
A distância entre o estandarte maior do País e sua população é tamanha que são poucos os que conhecem o verdadeiro significado de suas cores e seu desenho. Ao contrário do que ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos, a bandeira nacional não foi capaz nem mesmo de dar força à criação de um herói fictício que alcançasse projeção e se transformasse em uma representação genuinamente brasileira.
“O único herói verde-amarelo mais conhecido, que na verdade é um anti-herói, é o Zé Carioca, uma criação estereotipada do brasileiro (dos estúdios Walt Disney), que representa o malandro”, aponta o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Embora o País seja composto, em grande parte, por pessoas que lutam e vencem dificuldades e por profissionais qualificados e competentes, todos os heróis em desenho criados até hoje nunca se tornaram presentes no imaginário popular brasileiro. São nomes desconhecidos do público como Topman, Capitão Brasil, Brasil, Major Brasil, Capitão Brás, Poderoso Brasil, Sr. Esperança e Marechal Brasil, a maioria deles inventados por cartunistas e quadrinhistas nacionais.
“O que ocorre é que a bandeira nacional foi criada pelo Estado, que historicamente sempre se manteve afastado da sociedade. E como as pessoas não se sentem parte construtora desse Estado, essa bandeira é algo que, intimamente, não as representam”, analisa o antropólogo.
Golpe militar
De acordo com ele, o distanciamento entre a população e seu estandarte foi acentuado após o golpe que instaurou o regime militar no Brasil, em 1964. “Quem andava vestido com roupas da cor verde-bandeira era abordado na rua pelo Exército e obrigado a tirar a peça, porque aquela era uma cor exclusiva do Estado”, pontua.
E a oportunidade de conviver de maneira mais próxima com o verde-amarelo perdurou até o final do século passado, quando o uso do desenho da bandeira ainda era proibido em estamparia de roupas e outros acessórios, por ser considerado um desrespeito ao símbolo nacional. Atualmente, o mercado dispõe de uma série de produtos, que vão desde chinelos, biquínis e toalhas até roupas, óculos e brincos. Mas seu uso não se tornou tão disseminado.
Como resultado do relacionamento solene e proibitivo que se estabeleceu, lembra Bertolli Filho, as novas gerações se tornaram ainda mais distantes da insígnia oficial e de suas cores. “Ppara os jovens, em sua maioria, usar o verde-amarelo é algo brega e sem sentido. Esse desamor ocorre porque o Estado sempre esteve presente na vida das pessoas de uma maneira muito repressiva”, analisa.
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História
Segundo a enciclopédia livre Wikipédia, a bandeira nacional foi adotada em 19 de novembro de 1889. A ideia de seu desenho foi desenvolvida por um grupo formado pelos positivistas Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, e por Manuel Pereira Reis, catedrático de astronomia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. O desenho do disco azul foi executado pelas mãos do pintor Décio Vilares e, por indicação de Benjamin Constant, acrescentou-se em meio às estrelas a constelação do Cruzeiro do Sul.
O primeiro estandarte da República, no entanto, foi desenvolvido por Rui Barbosa e, embora já trouxesse as cores verde, amarelo, azul e branco, era fortemente inspirado na bandeira dos Estados Unidos. O símbolo foi usado por apenas quatro dias, quando foi vetado por marechal Deodoro da Fonseca, que determinou que a bandeira republicana deveria se assemelhar à insígnia imperial.
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Significado das cores
A bandeira do Brasil possui um significado embutido em suas cores pouco conhecido pela maioria das pessoas. De acordo com o aceito por grande parte dos historiadores, o verde simbolizaria a família de Bragança, da qual fazia parte D. Pedro I, em referência à cor predominante no estandarte pessoal de D. Pedro II de Portugal.
O amarelo simbolizaria a casa de Habsburgo, da qual fazia parte Dona Leopoldina, representado em um losango, que é tido como um símbolo feminino em várias culturas, o que reforça a associação à imperatriz. Já o azul seria a cor do uniforme do exército brasileiro na época e as estrelas - que originalmente eram 21 até chegarem às atuais 27 - os Estados que formam a União.
A inscrição “Ordem e Progresso”, sempre em verde, é o lema político do Positivismo, forma abreviada do lema de autoria do positivista francês Auguste Comte “O Amor por princípio e a Ordem por base e o Progresso por Fim”.
No entanto, como não existe um decreto que defina oficialmente os significados do cada cor e forma, ainda é difundida a interpretação de que o verde representa as florestas, o amarelo os minérios e o azul o céu carioca da manhã de 15 de novembro de 1889, dia da Proclamação da República.
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Super-herói à moda bandeira
A pedido do JC, o cartunista Fernando Dias criou aquele que poderia ser o super-herói brasileiro. Caracterizado pela mistura de raças e com a simpatia típica de seu povo, ele veste uma capa e carrega no peito as cores da bandeira nacional, assim como fazem seus pares norte-americanos, entre elas Mulher Maravilha, Capitão América e Super-Homem. Mas, em vez do vermelho e azul que predominam nos desenhos dos Estados Unidos - e que ganharam o mundo -, nosso super-herói defende o País com o verde-amarelo nas vestes e nas ações.
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Na Internet
Corre na Internet o Movimento Verde-Amarelo, promovido pela Raça Brasil, que se autodefine como a primeira torcida organizada nacional do Brasil. A intenção, segundo manifesto publicado no endereço eletrônico http://movimentoverdeamarelo.com.br, é unir e movimentar o povo brasileiro através de sua maior paixão, o futebol, mas não somente em período de Copa do Mundo.
“Somos brasileiros, batalhadores, guerreiros. Vivemos na luta, seja ela qual e por que for. Temos garra e não desistimos nunca. Sempre nos movimentamos. Tem movimentos grandes, outros pequenos, os sérios e os divertidos. Mas o mais importante é todo mundo unido”, diz o texto do manifesto.
No site, o brasileiro-torcedor pode ter acesso a fotos, vídeos, notícias e comprar produtos com as cores do Brasil. O movimento também pode ser acompanhado pelo microblog Twitter no @mvabrasil.