Ana Célia Santos/Diario de Amazonas |
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Sandra Maria Feliciano sonha em morar no planeta vermelho |
Parece impossível, mas a ideia de seres humanos pisarem em outro planeta sairá dos filmes sobre ficção científica e deverá pousar na realidade dentro de pouco tempo. Mais impressionante ainda é que uma bauruense está quase envolvida na expedição que pretende levar 24 pessoas de todo o mundo a uma viagem sem volta à Marte a partir de 2024.
Sandra Maria Feliciano da Silva tem 50 anos e nasceu em Bauru. Ela passou parte da infância na cidade sem limites. Tão sem limites que, se Sandra passar por mais três etapas da seleção, será a segunda pessoa nascida aqui a conquistar o espaço, depois do astronauta Marcos César Pontes.
Sandra deixou a casa que foi criada, localizada no Parque Vista Alegre, com os pais e os três irmãos, quando tinha apenas 10 anos, porque o pai passou em um concurso e teve de ir embora para Humaitá, no Amazonas. Porém, um ano depois, voltou a Bauru e ficou hospedada na casa dos avós.
Pouco tempo depois, o pai de Sandra passou a trabalhar na cidade de Porto Velho, em Rondônia, e a jovem voltou aos braços da família. Da infância em Bauru, ela só tem boas lembranças. Dentre elas, está o incentivo à leitura que recebeu dos seus professores. Este norte fez com que Sandra se apaixonasse pelos estudos, principalmente pela ficção científica.
De uma jovem apaixonada pelos livros a uma mulher com um currículo quilométrico e, ainda por cima, disposta a largar tudo para viver em Marte. Solteira e sem filhos, Sandra é formada em administração de empresas e direito, tem pós-graduação em segurança pública, política, estratégia e banco de dados. Além de tudo isso, é professora universitária. Ela dá aulas de robótica e desenvolvimento de software.
Porém, a grande paixão da professora é a ficção científica. Ela coordena, inclusive, um grupo de astronomia e já publicou uma série de cinco livros em que explica o funcionamento do universo de forma didática. Sandra atendeu a reportagem do JC ontem à tarde:
Mars One
O projeto Mars One foi criado em 2011 por dois holandeses com o objetivo de estabelecer uma vida humana permanente no planeta vermelho a partir de 2024. Eles esperam que a iniciativa seja financiada por investidores e pelos direitos de transmissão de documentários sobre os testes, o treinamento e a seleção final. Mais informações sobre o projeto podem ser obtidas pelo site www.mars-one.com.
Jornal da Cidade - Como você descobriu que havia um projeto que levaria pessoas para Marte?
Sandra da Silva - Eu coordeno um clube de ciências e sempre estive a par de acontecimentos da área de astronomia e física, acompanhando todos os projetos da Nasa. Inclusive, a agência espacial norte-americana tinha um projeto de colocar pessoas em Marte até 2020. Porém, depois da crise econômica que assolou o País, a iniciativa teve de ser adiada. Nesse meio tempo, as indústrias da área já tinham desenvolvido tecnologias para tanto e, se o projeto fosse deixado de lado, todo o investimento seria “jogado no espaço”. Diante disso, a iniciativa privada começou a se interessar pela ação e um grupo holandês, que desenvolveu o projeto Mars One, resolveu aproveitar essa tecnologia para fazer a primeira colonização em Marte. Pesquisei e entendi que existia viabilidade prática nesse processo e disse para mim mesma: “Vou me candidatar nesse negócio”.
JC - Como você se inscreveu?
Sandra - O Mars One disponibilizou um site e eu me inscrevi. Tive de postar um vídeo falando sobre a minha vida, que foi avaliado com base no interesse que os internautas tiveram pelo que falei. Na segunda etapa, respondi um questionário enorme, principalmente sobre a minha saúde e analisaram também o vídeo. Eu passei. Na terceira fase, cujo resultado deverá ser divulgado no final deste mês, eles vão excluir todas as pessoas que não apresentam a condição física exigida, ou seja, que não tenham alergias ou problemas cardíacos, por exemplo.
JC - Essa terceira fase já será a eliminatória final?
Sandra – Não. A eliminatória vem no final do ano. Terão mais duas etapas ainda, mas não sei o que será avaliado. Só sei que, de mais de 200 mil inscritos em todo o mundo, foram selecionados 1.058 para a terceira etapa e apenas 40 serão escolhidos para a quinta fase, que é eliminatória. Essas 40 pessoas serão submetidas a mais alguns testes e, no final de oito anos de treinamento, serão selecionadas 24 pessoas, que são aquelas que estarão aptas para ir. No período de treinamento, cada selecionado vai conhecer toda a estrutura que será utilizada e vai sair com alguma especialidade, como medicina e engenharia, porque lá não vai ter ninguém para consertar nada e nem médico para cuidar de ninguém. Se acontecer alguma coisa, as pessoas têm de saber se virar sozinhas.
JC - E essa viagem vai ser sem volta mesmo?
Sandra - Ela é só de ida sim. Isso porque não dá para mandar alguém a Marte e trazer de volta. Os indivíduos vão viajar por sete meses em gravidade mínima, fato que afeta profundamente o corpo humano. Então, você perde massa muscular, densidade óssea e sofre alterações na visão, na audição e no paladar. Além disso, altera até o formato do coração, com uma perda de 30% do plasma sanguíneo. Portanto, essas alterações orgânicas seriam dificilmente reversíveis.
JC - Os voluntários vão conseguir se comunicar com a Terra?
Sandra - O projeto será todo custeado por fundos de empresas privadas e terá o apoio de engenheiros e médicos espaciais, que também colaboram com a Nasa. Quando as 24 pessoas chegarem em Marte, haverá uma transmissão para a Terra por meio de um canal de televisão. Vai ser como um Big Brother. Só que em Marte. Você já imaginou poder acompanhar a vida de pessoas em Marte?
JC - E você não tem medo de se arrepender se chegar até lá?
Sandra - Não. Eu acredito que o período de oito anos de treinamento será justamente para que as pessoas se conscientizem e se formem psicologicamente para que possam conviver com esse isolamento. Não chega a ser um isolamento completo, porque a gente vai poder conversar com a Terra. É muito perigoso e, por isso, acredito que as questões psicológicas são muito mais importantes do que as técnicas.
JC - O que sua família pensa disso?
Sandra - Eu me inscrevi e depois contei para os meus pais. Minha mãe ficou furiosa. Ela não falou nada a princípio, mas minha irmã me xingou bastante. E minha mãe, nada. Diante disso, meu pai chegou para ela e disse: “Você entendeu que ela quer ir para Marte?” E ela disse: “Pode ir para Marte, para a Lua, para Vênus, para onde ela quiser”. Minha inscrição foi aceita e eu avisei minha família. Silêncio total. Quando consegui a melhor votação dos internautas no vídeo, mesma coisa. Mas quando eu fui aprovada na segunda fase, minha mãe disse: “Pode parar de palhaçada, você não vai para Marte coisa nenhuma. Eu te proíbo!” Depois, devagar eu fui conversando com ela.
JC - Você acredita que vai fazer a diferença para a humanidade?
Sandra – Vou. Não tenho dúvidas a respeito disso. É um processo lento e difícil, mas quero ajudar a transformar Marte como se fosse um planeta igual à Terra. Com árvores, florestas, rios e atmosfera. Por isso, é um processo muito lento, a ser concretizado efetivamente daqui a 300 anos. Por outro lado, nós temos de começar. O planeta Terra já está pequeno para a quantidade de gente que vive aqui.
Pioneiro
Se tudo ocorrer como Sandra espera, ela não será a primeira bauruense a conquistar o espaço. O astronauta Marcos Pontes, nascido na cidade, fez a viagem em 2006 e entrou para a história. Isso porque Pontes foi também o primeiro brasileiro a chegar tão longe. Ele passou dez dias no espaço.
De acordo com informações da Agência Espacial Brasileira, no ano de 2006, o astronauta partiu em direção à Estação Espacial Internacional (ISS) a bordo da nave russa Soyuz 8, com oito experimentos científicos para execução em ambiente de microgravidade, em comemoração ao voo do 14 BIS. Por isso, a missão foi denominada Centenário de Santos Dumont.
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