Éder Azevedo |
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Marco Zambon: fascínio pelo ambiente musical |
A música embalou tanto a infância do bauruense Marco Antônio Zambon que ele nunca a abandonou. Entre notas e acordes como profissão, lá se vão mais de três décadas na noite. Considerado um dos músicos mais requisitados de Bauru - tanto para shows ao vivo quanto em gravações de estúdio -, hoje ele pincela as principais passagens de toda a sua trajetória nesta entrevista.
“Eu morei na Vila Dutra quando ali só moravam ferroviários. Era a ilha da fantasia bauruense: um lugar maravilhoso. Nas festas de fim de ano, todos se juntavam: meu avô tocava violão, meu primo viola e, o avô dele, acordeon. Ah, uma tia ainda tocava piano e meu pai, gaita... E eu ficava fascinado com aquele ambiente musical”, recorda, sobre a infância.
Mas foi na adolescência, em Araçatuba, onde Marco viveu por alguns anos, que a música entrou de vez em sua vida para não mais sair. Banda de rock, instrumental, country music, jazz e música orgânica. Dos dedos e da voz do entrevistado de hoje, já saiu - e ainda sai - a mais vasta gama de músicas de qualidade.
Casado há 20 anos com Ianara Linares Althero, com quem tem dois filhos (Ariel e Vítor), Marco ainda fala sobre a vida noturna da Bauru de hoje e do passado. Leia a seguir.
Jornal da Cidade - Sua infância foi musical?
Marco Antônio Zambon - Eu morei na Vila Dutra quando ali só moravam ferroviários. Era a “ilha da fantasia bauruense”: um lugar maravilhoso. Na época, meu irmão fazia parte da fanfarra do Guia Lopes, era corneteiro. E nossa família era assídua dos desfiles de 7 de Setembro, já que meu tio, Moacyr, era da banda do Guedes. Sendo assim, meu primeiro contato com instrumentos musicais foi com uma corneta. Além disso, um primo tocava profissionalmente em São Paulo e, às vezes, ele vinha para Tibiriçá, onde moravam meus avós maternos. Eu gostava de vê-lo no palco. Nas festas de fim de ano, todos se juntavam: meu avô tocava violão, meu primo viola e, o avô dele, acordeon. Ah, uma tia ainda tocava piano e meu pai, gaita... E eu ficava fascinado com aquele ambiente musical.
JC - Então a música o “embalou”...
Marco - Sim. Mas eu comecei a tocar somente na adolescência, com amigos e aos finais de semana, por brincadeira. Fui aprendendo sozinho. Não parei mais. Naquela época, morava em Araçatuba. Fui para lá aos 10 anos de idade. Trabalhei como DJ nos tempos da disco music, quando se mixava ao vivo com duas pick-ups (toca discos de vinil). Era muito legal ver o pessoal dançando conforme a música que você escolhia. Depois trabalhei vendendo discos. Em Bauru novamente, cheguei a fazer a programação da madrugada da Rádio Cidade por três meses.
JC - Fez parte de muitas bandas?
Marco - Na primeira metade da década de 1980, fiz parte de uma banda de rock chamada “Adrenalina”, ainda em Araçatuba. Tocávamos com instrumentos feitos pelos próprios músicos. Bonitos, mas horríveis para tocar (risos). Marcamos época, pois o panorama musical era restrito ao cancioneiro popular na cidade. Na segunda metade dos 80, voltei para Bauru para cursar faculdade de comunicação visual. Conheci pessoas bem legais como Cláudio Fazzio, que tinha uma banda instrumental e me mostrou sons bacanas. No começo dos anos 90, passamos a tocar música instrumental. Em 1994, fizemos o “Sindicato do Jazz”. Paralelamente, tinha a banda “Ponto G”, com o estilo “disco” tocado ao vivo. Fomos os primeiros com este tipo de música. Também estava tocando country music com os “Countryboys” , grupo que tocou muito em vários Estados do Brasil, onde comecei realmente a ganhar dinheiro com a música. Com essa banda, tive contato com o banjo de cinco cordas , instrumento único e maravilhoso. Já com o grupo “Nômade”, em 1998, inauguramos as “Quartas Musicais do Sesc”.
JC - Qual era a proposta do “Nômade”?
Marco - Era um grupo com a proposta de fazer música orgânica, mais próxima da essência, da terra. Com instrumentos não convencionais, fazíamos jazz manouche, newgrass, choro, samba, blues, new age e bluegrass, estilos mais acústicos com o mínimo de eletrização. Pode-se dizer que era um som ecológico. Aí veio a Rubber Soul, banda cover dos Beatles com a qual fizemos um show memorável em 2003 em homenagem a John Lennon, show que nos rendeu até uma moção de aplauso na Câmara Municipal de Bauru. Fizemos um CD com quatro músicas e estão disponíveis no youtube.
JC - Apresentações marcantes?
Marco - A estreia do “Sindicato do Jazz” aconteceu no Vitória Régia, no Dia do Trabalho, quando o Senna morreu. Em seguida veio o Tom Zé. O que marcou mesmo naquele dia foi vê-lo pedir a todos para que rezassem o Pai Nosso para o Senna. Emocionante. Mas também tem as histórias não tão boas (risos). Certa vez, no início da carreira, tocando na cidade de Promissão, a plateia não gostou do show e jogou abacate na gente. E ainda murcharam os pneus dos nossos carros. Já dormi em um hotel com as paredes cheias de sangue, no Paraná (risos). Histórias não faltam.
JC - Quais são os seus projetos atuais?
Marco - Canto e toco instrumentos de corda, como violão, guitarra, banjo de cinco cordas, contrabaixo... Já toquei em até cinco bandas concomitantemente. Hoje, meus projetos se resumiram (até porque o espaço para bandas está mais limitado) em violão e voz, sozinho ou em dupla com meu parceiro Evandro. Mas posso dizer que continuo sonhando...
JC - Qual é o segredo para sobreviver na vida noturna?
Marco - Acho que o filtro de um músico é a qualidade do seu trabalho. O que credencia a pessoa para tocar é o modo de fazer música. Pode ser que, no começo, as pessoas não tenham critério para analisar a oferta musical, mas com o tempo, a experiência ensina e mostra quem deve ficar. Apesar de muitos reclamarem, há muita música boa para se ouvir em Bauru. O município sempre foi um entreposto comercial, acolheu viajantes e, hoje, acolhe muitos estudantes que, de certa forma, fazem parte dessa vida noturna, o que precisa ser mais explorado. Bauru já contou com um panorama musical cosmopolita que não se encontra em qualquer lugar. Como bauruense apaixonado, espero que a cidade consiga transpor seus obstáculos e que volte a ser aquela Bauru dos anos 70, quando o Centro era cheio de vida e música.
JC - O que a música significa para você?
Marco - Estou sempre pensando na música (risos). Além de músico, também sou professor. Em casa, dou aulas de guitarra, violão, contrabaixo, banjo...