Alvos de boicote, Judeus pela Democracia esperam pacificação
Uma lista com mais de 1.300 nomes, entre eles artistas, jornalistas, professores, editores e políticos judeus, alguns deles conhecidos fora da comunidade. No título, a lembrança a uma das maiores tragédias da humanidade no século 20: "Relação do primeiro trem para Auschwitz".
O título foi usado por grupos de judeus defensores da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) para conclamar outros integrantes da comunidade a boicotar judeus que apoiavam o presidente Lula (PT), reeleito para o quarto mandato no último dia 25.
Auschwitz foi o maior complexo de campos de concentração e extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Um dos coordenadores do movimento Judias e Judeus pela Democracia, Marcelo Semiarzh diz que a lista circulou entre familiares de integrantes do grupo e assim acabou chegando até os citados. "Estamos esperando que a situação se acalme, mas, se isso não ocorrer, vamos buscar a Justiça", afirma.
É difícil calcular o alcance dos pedidos de boicote, mas a situação foi suficiente para que a Fisesp (Federação Israelina do Estado de São Paulo) e a Conib (Confederação Israelita do Brasil) divulgassem notas em que condenavam a perseguição.
"A comunidade judaica é plural e reúne pessoas de diferentes convicções e preferências eleitorais. Identidade religiosa e pertencimento comunitário não se confundem com filiação partidária ou escolha política", diz a Fisesp em texto de 28 de setembro.
Já a nota da Conib destaca as tradições judaicas para criticar os boicotes. "Uma das características mais antigas e apreciadas da vida judaica é a pluralidade de pensamento e o estímulo ao debate. Pedir boicote contra quem tem opiniões políticas diferentes contraria essa tradição fundamental da identidade judaica", afirmou, em nota do dia seguinte.
Os alvos estão evitando falar sobre prejuízos. Mas pelo menos um deles confirmou à Folha que perdeu negócios até então encaminhados após a divulgação da lista. Ele prefere não falar do assunto abertamente para ver se a situação se reverte.
Antes do segundo turno, o movimento fez um ato de apoio a Lula na Casa do Povo, no Bom Retiro, no centro de São Paulo, com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e das ex-ministras do Planejamento, Simone Tebet (PSB), do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), da Gestão, Esther Dweck, e a assessora da Presidência Clara Ant, as duas últimas judias.
Marina foi erguida numa cadeira, em referência a uma homenagem típica judaica, sinal de respeito e acolhimento.
Em um vídeo publicado na quarta-feira (28), nas redes do Judias e Judeus pela Democracia, a jornalista Nay Ruiz lembra que a Casa do Povo foi inaugurada por judeus progressistas em 1946, como um monumento à memória dos mortos do holocausto, como um espaço para dar continuidade à vida, à arte e à cultura que o nazismo tentou destruir.
Passado o segundo turno, a Fisesp compartilhou em suas redes um vídeo sobre o assunto. Nele, é explicado por que os judeus não devem se referir aos outros por "kapos", menção aos judeus que eram responsáveis pela disciplina dentro dos campos de concentração. O vídeo lembra que muitos deles também viviam sob violência e ameaça constantes.
Para Semiarzh, a própria necessidade de lidar agora com o presidente reeleito deve fazer com que os ânimos se acalmem e o diálogo seja retomado. "Temos questões práticas, como o debate sobre o conceito de antissemitismo que deve ser incluído na lei que criminaliza o racismo", exemplifica.
Semiarzh diz que a situação não é inédita, já havia acontecido algo semelhante nas eleições presidenciais de 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito.
Para Semiarzh, o ódio é motivado por uma informação falsa que circula intensamente dentre os judeus, que acusa Lula de ser antissemita. Entre os argumentos usados estão a tensão do governo Lula com o estado de Israel. Atualmente, o país não tem embaixador no Brasil.
Outro ponto é o apoio à criação do estado da Palestina. "O presidente já deu algumas declarações problemáticas, mas afinou o seu discurso e defende a existência de dois estados, o que nós também concordando", afirma.
Semiarzh embra ainda que, apesar de Lula ter recebido mais votos no Líbano (2.736 a 1.276) e na Palestina (1.000 a 46) e Flávio em Israel (166 a 699), os dois presidenciáveis receberam votos nos dois lados.
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