Aos 80 anos de idade e depois de seis décadas dedicadas ao rádio, o jornalista e radialista Hélio Negri decidiu transformar sua trajetória em legado. O livro "Programa Hélio Negri – 40 Anos" vai muito além de uma autobiografia: reúne histórias do rádio, da música, da imprensa e da vida cultural de Araçatuba, preservando memórias de um veículo que, segundo o próprio autor, continua sendo insubstituível. A obra foi lançada neste mês durante uma noite marcada por emoção, arte e reencontros.
Em entrevista à Folha da Região, Hélio Negri contou que sua história com o rádio começou por acaso, em uma noite da década de 1960. O que seria apenas uma visita para acompanhar um amigo à Rádio Luz de Araçatuba acabou mudando completamente o rumo de sua vida.
"Conto no livro este momento em que “fui escolhido” pelo Rádio. Um simples acaso. A emissora encerrava suas transmissões à meia noite e daí em diante o estúdio era utilizado para gravações ou outra atividade ligada ao setor comercial. Naquela noite (início da década de 1960) encontrei meu amigo Milton Galo, que já trabalhava na Rádio Luz de Araçatuba e o acompanhei porque ele havia esquecido um documento. A rádio ficava na Osvaldo Cruz, no mesmo prédio em que funcionava o Clube dos Bancários, espaço de grandes carnavais e memoráveis bailes", relembrou o radialista.
Na época, Hélio tinha pouco mais de 16 anos e trabalhava nas Lojas Arapuã. Mesmo empregado, não hesitou em aceitar o convite da Rádio Luz, pertencente à Rede Lebre Pinto. Era o período em que o rádio era o principal meio de comunicação de massa no interior paulista, antes da popularização da televisão. Segundo ele, aquele teste inesperado foi o início de uma carreira construída diante dos microfones.
Ao longo dos anos, a voz se tornou sua principal ferramenta de trabalho. Hélio contou à reportagem que aprendeu, ainda nos primeiros dias, técnicas de interpretação, entonação e uso correto do microfone com Paulo Edson Soares, profissional que mais tarde faria carreira nas rádios Tupi, Bandeirantes e Record.
"Sempre cuidei da minha voz evitando excessos. Aprendi desde cedo que o rádio exige técnica, disciplina e respeito pelo ouvinte", afirmou.
O livro nasceu justamente da preocupação em preservar esse patrimônio construído ao longo de décadas. Hélio revelou que perdeu uma grande quantidade de arquivos, gravações e documentos por causa de um problema técnico, conseguindo recuperar apenas parte do material. A experiência serviu como ponto de partida para reunir fotografias, reportagens, crônicas e lembranças em uma única publicação.
"As novas tecnologias permitem conservar com maior facilidade o que você considera importante para deixar como um legado. Assim, o livro surgiu como uma boa alternativa. E tudo começou exatamente porque perdi muito material importante em razão de um problema que me parecia insolúvel", explicou.
A obra acompanha os 40 anos do tradicional Programa Hélio Negri, atração musical e cultural que atravessou gerações em Araçatuba. Para o autor, existem programas que apenas informam e outros que entretêm, mas alguns conseguem se transformar em parte da memória afetiva de uma cidade.
"Há programas que informam. Há programas que entretêm. E há aqueles que atravessam gerações, tornando-se parte da memória afetiva de uma cidade", destacou o radialista durante a entrevista.
Essa ideia também aparece como um dos pilares da publicação. Em vez de contar apenas sua história pessoal, Hélio dedica páginas inteiras ao rádio como protagonista da narrativa, defendendo que o veículo soube acompanhar as transformações da sociedade sem perder sua essência: a proximidade da voz humana com o ouvinte.
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O lançamento do livro foi planejado para refletir exatamente esse universo. O espaço Villa Rica foi transformado em um pequeno estúdio de rádio, criado especialmente para a ocasião pelo publicitário Luís Otávio Negri, filho do autor. A ambientação reproduziu o clima de uma transmissão ao vivo e aproximou convidados da essência do programa que marcou a carreira do radialista.
A noite reuniu nomes importantes da comunicação e da cultura regional. O presidente do Grupo Thathi de Comunicação, Chaim Zaher, participou do evento ao lado da esposa Adriana para prestigiar o amigo de longa data. Hélio, inclusive, trabalhou na Rádio Cidade, primeira emissora adquirida pelo grupo empresarial.
A celebração também teve música como protagonista. O sambista Wellington Bola, acompanhado por Tadeu Consoni, animou os convidados, enquanto a pianista araçatubense Maria Cecília Raab Forastieri apresentou interpretações de clássicos do tango. Em seguida, o maestro biriguiense Marco Rogério Tinarelli subiu ao palco, transformando o lançamento em um espetáculo artístico.
Para Hélio Negri, publicar o livro representa o encerramento de um ciclo importante da vida pessoal e profissional, mas também o início de uma nova missão: garantir que as histórias do rádio permaneçam acessíveis às próximas gerações. Aos 80 anos, ele afirma que realizar esse projeto tornou-se um verdadeiro objetivo de vida.
Mais do que uma sessão de autógrafos, o encontro foi descrito pelo autor como uma edição especial do Programa Hélio Negri: com convidados, música, memórias e histórias compartilhadas entre amigos e ouvintes que acompanharam sua caminhada ao longo dos anos.
Ao conversar com a Folha da Região, Hélio resumiu a principal mensagem que deseja deixar com a publicação. Para ele, o rádio permanece vivo porque continua sendo companhia diária de milhões de pessoas, independentemente da tecnologia.
"Enquanto houver uma voz disposta a contar histórias e alguém do outro lado disposto a ouvi-las, o rádio continuará vivo. O rádio será sempre memória, companhia e cultura, história que não se pode apagar."
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