Embora a tradição reserve o dia 2 de novembro para lembrar os que partiram, a reflexão cristã sobre a morte não depende de calendários, pois a Escritura convida a igreja a considerar a própria mortalidade em todo tempo. Essa meditação começa na Palavra de Deus, que revela a morte como consequência do pecado e, ao mesmo tempo, como inimiga já derrotada pela obra de Cristo.
Gênesis 2.17 registra a advertência divina de que, no dia em que Adão comesse do fruto proibido, certamente morreria, e Romanos 5.12 explica que a morte passou a todos os homens porque todos pecaram. Por isso, embora o corpo se desfaça segundo leis biológicas, a morte não é um fenômeno neutro para o ser humano caído, pois carrega em si a sentença da justiça divina. Calvino, nas Institutas, insiste que a morte é o salário do pecado, e que o Fiel, mesmo ao enfrentá-la, sabe que foi resgatado de sua condenação. Quando Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, revelou a repulsa de Deus diante daquilo que a queda produziu no mundo.
Essa compreensão prepara o caminho para a esperança da ressurreição. Se a morte é inimiga, a ressurreição de Cristo representa a derrota dessa inimiga, e Paulo, ao afirmar que, caso Cristo não tivesse ressuscitado, a fé seria vã, coloca todo o edifício cristão sobre um fato histórico. Como as primícias antecipam a colheita, a ressurreição de Jesus antecipa a ressurreição daqueles que nele dormem. O teólogo brasileiro Franklin Ferreira defende que o Novo Testamento apresenta o tempo presente como o início do novo mundo, já inaugurado na ressurreição, mas ainda não consumado. Por isso, o cristão vive entre o "já" e o "ainda não", e essa tensão permite que o luto seja vivido com lágrimas, sem que seja vivido sem esperança.
A tradição que atribui a Maria a alegria diante da ressurreição de seu Filho expressa a piedade da igreja, embora os Evangelhos a apresentem sobretudo em sua dor junto à cruz, quando Jesus a confiou ao discípulo amado (João 19.25-27). Ainda assim, o sofrimento de Maria não foi o último capítulo de sua história, pois a manhã da ressurreição trouxe a certeza de que a dor não tem a palavra final. Essa é a mesma verdade que sustenta o crente diante de seus mortos: a separação é real, mas não é definitiva.
A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo 32, ensina que os corpos, depois da morte, voltam ao pó até a ressurreição, enquanto as almas dos justos são recebidas imediatamente na glória. O calvinista R. C. Sproul enfatizava que a esperança cristã não consiste em escapar do corpo para uma existência puramente espiritual, mas em aguardar a renovação de toda a criação, quando Deus fará novas todas as coisas (Apocalipse 21.5). Aquele que crê não espera ser despido de sua humanidade, mas revestido de um corpo transformado à semelhança do corpo glorioso de Cristo.
Paulo afirma que estar ausente do corpo significa estar presente com o Senhor (2 Coríntios 5.8), e que, para ele, morrer é lucro (Filipenses 1.21). O Batista John Piper tem insistido que a morte do crente é ganho porque o alvo da vida cristã é Cristo, e não a própria morte, de modo que a pergunta decisiva não é quando morreremos, mas em quem estamos fundados. Os que partiram nutridos pela fé em Jesus (1 Tessalonicenses 4.14) não repousam em uma inconsciência sem sentido, mas aguardam em paz a ressurreição de seus corpos, prometido pelo Senhor, razão pela qual Paulo exorta que não nos entristeçamos como os demais, que não têm esperança (1 Tessalonicenses 4.13).
Os fiéis portanto, podem até visitar os túmulos com reverência e lágrimas, mas sem o desespero de quem enxerga na sepultura o ponto final da existência. Os primeiros cristãos chamaram o lugar onde enterravam seus mortos de koimtrion, palavra da qual deriva "cemitério", que significa dormitório. O mundo pagão, em contraste, falava de nekrópolis, a cidade dos mortos. A diferença não é apenas linguística, pois uma cidade dos mortos fala de fim, enquanto um dormitório fala de descanso e de despertar. Assim, a fé cristã transforma até o vocabulário do sepultamento em testemunho da vitória de Cristo. Que a fé e a esperança na ressurreição estejam sempre presentes em nossos corações, para que diante da perda, possamos confessar como o apóstolo Paulo, que a morte foi tragada pela vitória, e que a nossa vida, escondida com Cristo em Deus, aguarda o dia em que ele se manifestará em glória.