04 de novembro de 2026
ARTIGO

Quem pode menos chora mais!

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Dizem que “quem pode mais chora menos”. Mas quem pode menos também chora, e às vezes muito! O perdedor reclama da força do adversário; o vencedor, do esforço para chegar lá. No fim, todos choram: uns enxugam as lágrimas e lambem as feridas com um lenço; outros, com o lençol da cama. 

Viver é lutar por espaço nos negócios, na ciência, no esporte, na política, nas finanças, na profissão, nas criações e até no amor. Uns usam talento e inteligência; outros procuram atalhos. 

Quem está mais preparado para vencer? Quem conhece o terreno, estuda os concorrentes, treina e aprende com os erros. Em certas disputas, conhecer o juiz parece valer mais do que conhecer o jogo! 

As regras deveriam ser claras e iguais para todos. Nem sempre são. No esporte, alguns treinam para vencer; outros, para enganar o árbitro. Nos negócios, há quem invente e quem copie. Na política, cada candidato promete consertar o país e garante que o adversário vai destruí-lo. 

Planejar é preparar-se para a luta: definir o objetivo, avaliar forças, conhecer dificuldades e escolher como agir. É calcular recursos, prever obstáculos e preparar alternativas. Planejar não garante a vitória, mas entrar numa disputa sem preparo é viajar sem destino e reclamar quando se perde. 

A tourada ajuda a entender. O toureiro observa o touro, calcula seus movimentos e usa a capa para atrair sua atenção. Também há capas nas outras atividades: propaganda, discursos, promessas e aparências. O problema começa quando a capa vira enganação. Na política, o candidato exibe o pano colorido, o eleitor corre atrás e, quando percebe, o problema continua no mesmo lugar! 

Terminada a disputa, o que faz o perdedor? Reconhece o resultado, examina os erros e prepara-se para outra oportunidade. Não adianta culpar sempre o juiz nem acusar o adversário sem provas. É preciso aprender, corrigir o rumo e voltar melhor. Afinal, a derrota pode preparar uma vitória futura, mas a vitória só merece esse nome quando não depende de fraude. 

E o vencedor? Deve agir com humildade e responsabilidade. Ganhar não faz ninguém dono da verdade nem superior a quem perdeu. Numa eleição, o vencedor assume o dever de governar para todos, inclusive para quem não votou nele. A vitória de hoje não lhe dá a propriedade do amanhã. 

Aceitar a derrota não é gostar dela; é reconhecer a realidade para poder mudá-la. As derrotas ensinam quando não viram desculpa para desistir. A vitória, por sua vez, é uma etapa, não um diploma de perfeição. 

As lutas mudam as épocas. Da concorrência surgem invenções; das disputas de ideias, novas soluções; das lutas políticas, direitos e mudanças sociais. Mas competir é diferente de trapacear. Quem compra apoio, manipula regras ou frauda para chegar ao poder pode ganhar a disputa e, ainda assim, fazer a sociedade perder. 

Por isso, não basta comemorar o resultado: é preciso cuidar das regras. Transparência, fiscalização independente, punição das fraudes e oportunidades mais justas reduzem a vantagem dos espertalhões. Sem isso, o aplauso pode esconder uma injustiça. E o bem comum deve prevalecer sobre a vaidade de quem vence. 

A moral é simples: quem pode menos não precisa passar a vida chorando, e quem pode mais não deve imaginar que sempre vencerá. É preciso aprender com cada luta, preparar-se para a próxima e não transformar a vitória em licença para abusar. 

A verdadeira apoteose não é o vencedor pisar no derrotado, mas todos ajudarem a melhorar o jogo. Que vençam o talento, o trabalho, a honestidade e a inteligência! Que as regras impeçam a capa de esconder a trapaça, o grito de substituir o argumento e o poder de abafar a verdade. Assim, o bem comum poderá vencer não apenas uma eleição ou uma disputa, mas a grande luta de todos nós: fazer o progresso humano valer a pena.