04 de novembro de 2026
ARTIGO

A matemática entrou na noite eleitoral

Por Clovis Vaz |
| Tempo de leitura: 3 min

Na noite de uma eleição, os primeiros números costumam produzir mais emoção do que certeza. Uma vantagem aparece na tela, a comemoração começa, e logo se descobre que aquela fotografia ainda não mostrava o país inteiro. A apuração não acontece de maneira uniforme. Os votos chegam em ritmos diferentes, e os lugares que aparecem primeiro podem não representar o conjunto do eleitorado. 

Na noite eleitoral, o trabalho de Rodrigo Mahlmeister chamou a atenção. Jovem pesquisador, ele desenvolveu um modelo estatístico que projetou o desfecho da eleição presidencial de 2026 quando pouco mais de 2% das urnas haviam sido apuradas. O dado chama a atenção, mas é preciso entender a ferramenta sem transformar seu autor em personagem de uma história sobre genialidade. 

Na explicação publicada pelo próprio Mahlmeister, o modelo parte do histórico eleitoral dos locais de votação. Compara os resultados já apurados com os de eleições anteriores e mede as mudanças na votação. A partir dos padrões observados em locais semelhantes, estima o comportamento daqueles que ainda faltam, levando em conta características como o perfil eleitoral e o porte do município. No segundo turno de 2026, utilizou duas referências: o segundo turno de 2022 e o primeiro turno da própria eleição. No início da apuração uma abordagem mais simples ajuda a estabilizar a projeção quando há poucos dados. Conforme os resultados chegam, o modelo passa gradualmente a uma abordagem mais flexível, capaz de captar diferenças com maior detalhe. As pesquisas eleitorais servem de ponto de partida, mas perdem peso à medida que a apuração avança. 

É diferente de uma pesquisa de intenção de voto, que estima as preferências de uma população a partir das respostas de uma amostra, num momento determinado. A projeção durante a apuração trabalha com votos contabilizados e estima o que ainda não apareceu. 

O mérito do modelo está em considerar que a ordem de chegada dos resultados interfere na aparência do placar. Comparar o que já foi apurado com o histórico dos mesmos locais permite corrigir parte dessa distorção. Mas o método depende de padrões observados. Se uma mudança estiver concentrada em lugares ainda não apurados e não tiver paralelo nos dados disponíveis, a projeção só poderá percebê-la quando esses votos entrarem. Mahlmeister ressalta que se trata de uma estimativa, não do resultado oficial, e que a incerteza é maior no começo. 

Essa cautela não diminui o interesse do trabalho. Projetar o resultado não explica por que os eleitores fizeram determinada escolha. O modelo acompanha padrões de votação e não revela sozinho as razões de cada voto, o peso de uma convicção religiosa, de uma preocupação econômica ou de uma rejeição. A matemática estima tendências. A interpretação política continua exigindo contexto. 

Há consequências para quem acompanha uma campanha. Jornalistas podem deixar de tratar cada parcial como amostra espontânea do país. Candidatos e dirigentes talvez precisem conviver com projeções que contrariem a impressão inicial. Nada disso dispensa transparência sobre os limites do modelo. 

Mahlmeister merece reconhecimento pelo trabalho e por explicar sua metodologia. A juventude não explica tal acerto. O cuidado está em não transformar um acerto expressivo numa promessa de infalibilidade. Modelos precisam ser examinados em diferentes eleições, não apenas pelo resultado que os tornou conhecidos. 

A noite eleitoral continuará sendo feita de disputa, expectativa e interpretação. A novidade é que, ao lado do placar que avança urna por urna, há métodos capazes de oferecer uma leitura mais informada do que ainda falta contar. A estatística pode ajudar a enxergar o resultado antes do fim da apuração. Compreender o país que votou exige trabalho muito mais longo e cautela sempre. 

Clovis Vaz é empresário de comunicação e consultor político.