04 de novembro de 2026
ARTIGO

O preço de escolher sem pensar.

Por Junior Ometto |
| Tempo de leitura: 3 min

Nem toda paixão merece ser vivida. Algumas escolhas podem deixar marcas para uma vida inteira.

Por que tantas pessoas se entregam a relacionamentos que não preenchem a alma, ignorando sinais que, mais tarde, se transformam em sofrimento?

Vivemos uma época em que a intensidade parece valer mais do que a profundidade. Confundimos desejo com amor, atração com compatibilidade, ciúme com cuidado e controle com proteção. Seduzidos pela aparência, pela carência, pelo prazer imediato ou por interesses pessoais, muitas vezes escolhemos alguém sem investigar aquilo que realmente sustenta uma relação: o caráter, os valores, a maturidade e a inteligência emocional. E é totalmente possível fazer essa investigação!

O problema não é sentir demais. É sentir sem pensar.

A inteligência emocional nos ensina que precisamos reconhecer nossas emoções sem permitir que elas assumam o controle das nossas decisões. A filosofia nos convida a questionar nossas escolhas. E a psicanálise nos ajuda a compreender por que, tantas vezes, repetimos padrões, confundimos amor com necessidade e procuramos no outro a reparação de feridas que ainda não elaboramos.

Por que nos enganamos tanto? Porque, muitas vezes, não enxergamos o outro como ele é, mas como gostaríamos que fosse. Idealizamos, justificamos comportamentos inaceitáveis e ignoramos alertas para não perder a fantasia que construímos.

Entretanto, a química pode despertar o desejo, mas somente o conhecimento revela quem está ao nosso lado.

Antes de iniciar um relacionamento, observe como a pessoa reage à frustração, lida com o próprio ciúme, respeita seus limites, trata aqueles de quem não precisa e como se relaciona com familiares e amigos. Preste atenção à necessidade de controle, às humilhações, às ameaças, à manipulação e à incapacidade de assumir responsabilidades. Promessas não substituem atitudes. Paixão ou desejo não comprova caráter.

Essa reflexão também é uma questão de sobrevivência. A violência contra a mulher, inclusive o feminicídio, por exemplo, exige enfrentamento sério e coletivo. E a responsabilidade é sempre de quem agride. Não há justificativa para a violência, seja qual for, física ou emocional. Mas reconhecer sinais de abuso, agir preventivamente, ampliar a rede de proteção e buscar ajuda pode contribuir para evitar situações de violência e salvar vidas.

E se você já estiver em uma relação tóxica ou abusiva? Não confunda sofrimento com prova de amor. Procure pessoas de confiança, apoio psicológico e serviços especializados. Se houver ameaças ou risco de agressão, priorize sua segurança e busque ajuda. No Brasil, o Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência; em emergências, ligue 190.

A terapia é fundamental tanto para prevenir padrões destrutivos quanto para reconstruir a autoestima, compreender escolhas repetitivas e recuperar a autonomia. Ela não garante que faremos escolhas perfeitas, mas nos ajuda a fazer escolhas mais conscientes.

Não espere perder a paz para descobrir que o preço de certas companhias é alto demais.

Uma relação deve ampliar a vida, não diminuir quem você é. Nenhum prazer momentâneo compensa a destruição da dignidade, da saúde emocional ou da própria existência.

Porque, no final, a pergunta não é apenas quem você escolheu amar, mas o que precisou abandonar de si mesmo para continuar amando essa pessoa.

Não entregue sua vida a quem desperta suas emoções, mas destrói sua paz, tira sua energia.

O amor pode tocar a alma, mas precisa respeitar a vida.