Você já reparou como o vape e o pod entraram na vida das pessoas quase sem pedir licença? Basta olhar ao redor, numa festa, na saída da faculdade ou até num encontro entre amigos, para perceber como aqueles aparelhinhos coloridos, com cheiro de fruta e aparência de brinquedo, estão cada vez mais presentes e o que mais me preocupa é justamente isso, a facilidade com que algo tão prejudicial passou a ser visto como uma coisa normal, quase inocente.
Muitos adolescentes que jamais pensariam em acender um cigarro experimentam um pod sem enxergar nisso o mesmo perigo. Afinal, não tem aquele cheiro forte, não deixa cinzas e ainda vem com sabores que parecem feitos para agradar. Só que, por trás dessa aparência bonita, pode existir uma quantidade elevada de nicotina, uma substância que causa dependência e faz com que aquela experiência de curiosidade vá, aos poucos, se transformando em necessidade.
E eu fico pensando no que leva tanta gente a experimentar, claro que existe a curiosidade, mas existe também aquela vontade enorme de fazer parte, de não ficar de fora da conversa, de ser aceito pelos amigos. Quem já teve um adolescente em casa sabe o quanto o olhar do outro pesa nessa fase da vida. Às vezes, dizer não parece muito mais difícil do que simplesmente acompanhar o grupo, mesmo quando alguma coisa lá dentro avisa que talvez não seja uma boa ideia.
Mas seria injusto colocar tudo na conta dos jovens, porque nós, adultos, também estamos vivendo uma época em que parece não haver espaço para sentir desconforto. Se estamos ansiosos, queremos alívio na mesma hora; se estamos tristes, procuramos alguma coisa que nos distraia; se estamos cansados, buscamos um jeito rápido de continuar. E assim vamos aprendendo a fugir do que sentimos, em vez de entender o que está acontecendo dentro de nós.
Muitas vezes, aquilo que a pessoa procura repetidamente está tentando responder a alguma falta, a uma angústia ou a uma dificuldade de lidar com a própria vida. Não estou dizendo que todo mundo que usa vape tenha um problema emocional, mas acredito que vale perguntar, com carinho e sem julgamento, o que aquela fumaça está oferecendo que parece tão difícil encontrar de outra maneira.
Também é importante falar sobre o corpo, porque o fato de o cheiro ser agradável não torna o produto seguro. Os aerossóis desses dispositivos podem conter substâncias nocivas aos pulmões e ao coração, e a nicotina pode criar uma dependência difícil de abandonar. O que começa com uma tragada numa festa pode virar aquela vontade de usar de novo no dia seguinte, depois várias vezes ao dia, até a pessoa perceber que já não está escolhendo com a mesma liberdade.
Por isso, acredito que precisamos conversar mais dentro de casa, mas conversar de verdade, sem começar com broncas, ameaças ou discursos que fazem os filhos se fecharem. Perguntar o que eles pensam, o que os amigos estão usando, o que sentem quando alguém oferece um pod, pode abrir portas que uma proibição sozinha não consegue abrir. A informação é necessária, mas o vínculo é o que permite que ela seja ouvida.
E para quem já usa, seja jovem ou adulto, também não adianta apontar o dedo. Dependência não se resolve com vergonha, e pedir ajuda não deveria ser motivo de constrangimento. Talvez o primeiro passo seja perceber quando aquele gesto deixou de ser uma escolha e passou a fazer falta, porque reconhecer isso já é uma maneira de começar a cuidar de si.
No fundo, o que mais me intriga é ver tanta gente procurando numa fumaça uma tranquilidade que dura tão pouco. A vida já nos traz pressões demais, e ninguém precisa de mais uma prisão disfarçada de alívio. Que a gente consiga olhar para esse aumento do consumo com seriedade, mas também com humanidade, lembrando que, por trás de cada pod, existe uma pessoa que precisa ser escutada, orientada e, muitas vezes, acolhida. Com carinho, Fabiane Fischer