26 de outubro de 2026
ARTIGO

Cada um por si?

Por Clovis Vaz |
| Tempo de leitura: 3 min

A motocicleta é ferramenta de trabalho, meio de transporte e investimento. Para quem começa a fazer entregas por aplicativo, pode significar a chance de ganhar dinheiro, organizar a rotina e encontrar uma saída num mercado de trabalho nem sempre generoso. Chamar-se empreendedor expressa iniciativa e vontade de seguir adiante. Isso merece respeito. A pergunta é outra: que condições esse empreendedor tem para trabalhar? 

O entregador paga combustível, manutenção, telefone e equipamento. Passa horas no trânsito e depende da própria saúde para continuar recebendo. Ao mesmo tempo, regras importantes vêm da plataforma: quanto se paga por corrida, como os pedidos são distribuídos, quais avaliações contam e quando uma conta pode ser bloqueada. Existe escolha, mas ela tem limites. Assumir os custos não significa controlar o negócio. 

Os dados ajudam a entender essa distância. Levantamento do IBGE divulgado em setembro, com informações de 2025, estimou em 405 mil o número de motociclistas que trabalhavam por aplicativos. Só 19,4% tinham cobertura previdenciária. A jornada média era de 44,9 horas semanais e o rendimento mensal, descontados gastos como combustível, ficou em R$ 2.221. A pesquisa é classificada pelo instituto como experimental, mas aponta uma realidade difícil de ignorar: muita gente trabalha longas jornadas sem a proteção de que pode precisar depois de um acidente ou diante de um problema de saúde. 

A discussão não se limita aos aplicativos. A pejotização pode ser uma opção legítima para quem deseja prestar serviços por conta própria. O problema aparece quando a pessoa abre uma empresa no papel, mas tem pouca autonomia na prática, depende de um contratante e cumpre condições que não consegue negociar. A forma do contrato pode transferir custos e riscos sem oferecer liberdade equivalente. Cada situação precisa ser examinada, sem tratar todo prestador como empregado disfarçado nem aceitar que o nome dado ao contrato resolva tudo. 

O desequilíbrio nem sempre aparece na figura de um chefe que dá ordens. Pode estar nas regras de um aplicativo, em avaliações pouco transparentes ou na possibilidade de perder acesso ao trabalho sem conseguir discutir a decisão. A tecnologia facilita serviços e cria oportunidades, mas também concentra poder em quem define as regras. Para quem depende da renda diária, contestar sozinho pode ser quase impossível. 

É por isso que a organização coletiva continua fazendo falta. Um trabalhador isolado tem pouca força diante de uma empresa com recursos, dados e equipes jurídicas. Sindicatos, associações e coletivos podem reunir reivindicações que, separadas, parecem problemas particulares: remuneração, segurança, transparência e proteção previdenciária. Estudo da Fundacentro publicado neste ano aponta a fragmentação, a rotatividade e a falta de canais estáveis de negociação como obstáculos a melhorias duradouras entre entregadores. 

Os sindicatos têm um papel importante nessa nova realidade do trabalho. Diante de relações cada vez mais individualizadas, a organização coletiva continua sendo um caminho para dar voz a quem, sozinho, tem pouca margem para negociar. O desafio é ampliar essa representação, aproximando-se dos profissionais que trabalham por aplicativos e compreendendo suas necessidades. Quanto mais gente puder participar dessa construção, maior será a força para buscar condições mais justas de trabalho. 

Quem trabalha por conta própria não precisa abrir mão da autonomia para defender proteção. Pode querer escolher seus horários sem que um acidente signifique perder toda a renda ou que as regras mudem sem explicação. Empreender envolve riscos, o que não deveria significar carregá-los todos sozinho. A dignidade de quem trabalha também se mede pela possibilidade de atravessar um imprevisto sem ficar sem saída.