23 de outubro de 2026
ARTIGO

O Coliseu Brasileiro e 0 Falso Duelo

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Imaginem um Coliseu moderno, com arquibancadas para 110 milhões de espectadores. No centro, dois candidatos disputam o poder. Nas laterais, bandeiras e torcidas prontas para vaiar o adversário. Nos telões, pesquisas, frases de efeito e os melhores momentos da briga. O ingresso é grátis; a conta fica para o povo. 

Na Roma antiga, circo e pão distraíam a população enquanto os poderosos governavam sossegados. O Brasil reinventou o negócio: em vez de gladiadores com espadas, candidatos com microfones; no lugar da areia, um palco iluminado; e, no lugar dos leões, acusações que rugem dia e noite. 

O espetáculo começa com pompa. Os candidatos entram por lados opostos, cercados de assessores e câmeras. Um promete salvar o país; o outro garante que ele vai destruí-lo. Cada qual posa de herói e pinta o rival como vilão. Programa de governo? Fica para depois. Primeiro, é preciso convencer a torcida de que o inimigo é perigoso. 

A mídia anuncia o duelo e mantém a plateia ligada. Uma provocação vira manchete; uma resposta, plantão. Pesquisas aparecem como placares: hoje um está na frente, amanhã o outro encosta. Cada número alimenta a propaganda, cada frase é repetida e cada gesto vira análise.  

Se os candidatos ficam quietos, perguntam quando virá o próximo ataque. Briga dá audiência; sossego não vende tanto. 

A arena ferve. De um lado, gritam “salvador!”; do outro, “mentiroso!”. Bandeiras tremulam, dedos apontam e as redes sociais viram arquibancadas sem juiz. Muitos torcem sem conhecer as propostas, mas sabem de cor os defeitos atribuídos ao rival. A discussão sai da arena e entra em casa: amigos se afastam, irmãos se ofendem e vizinhos quase brigam. Os candidatos disputam o poder; o povo briga entre si. 

No camarote, três colunas sustentam o cenário: Executivo, Legislativo e Judiciário. Deveriam garantir o funcionamento da República, mas seus atritos também viram espetáculo. A mídia acompanha cada choque, os candidatos usam os conflitos para atacar ou se defender, e o público perde de vista os problemas: saúde, escola, segurança, emprego e custo de vida. 

Chega o dia decisivo. As luzes se acendem, os tambores rufam e os contendores ocupam suas marcas. As armas brilham: discursos ensaiados, acusações antigas, vídeos escolhidos a dedo, meias-verdades e promessas milagrosas. Cada um jura ter a verdade e acusa o outro de querer acabar com o Brasil. 

Um aponta o dedo; o outro aumenta a voz. Um dispara uma acusação; o rival devolve outra. Os comentaristas narram cada golpe, os telões mostram pesquisas e a plateia prende a respiração. Então vem a salva final: PÁ! PÁ! PÁ! 

O barulho é enorme. As torcidas pulam, os comentaristas anunciam um momento histórico e as redes entram em ebulição. Mas a fumaça baixa e ninguém cai. Os duelistas saem ilesos: a munição era de festim! 

Terminada a transmissão, os candidatos recolhem as armas, ajeitam as gravatas e seguem para os bastidores. Talvez até conversem e dividam uma pizza. A guerra que parecia mortal diante das câmeras dá lugar à convivência dos adversários. A torcida, porém, continua discutindo, sem perceber que os gladiadores saíram inteiros. 

Quem paga a pizza? O contribuinte, que bancou o espetáculo e arriscou amizades para defender seu candidato. 

Moral da história: disputar o poder faz parte da democracia; transformar eleição em guerra entre cidadãos é péssimo negócio. Candidato deve apresentar propostas, mostrar resultados e aceitar perguntas. A mídia deve informar, não apenas atiçar a briga. E o eleitor precisa olhar além dos telões e perguntar: o que cada um fará, de verdade, pela minha vida? 

No Coliseu brasileiro, os candidatos disparam festim, as torcidas se machucam de verdade e os poderosos seguem no camarote. No fim, os gladiadores dividem a pizza. A conta fica com o povo, e você deve acordar!