23 de outubro de 2026
ARTIGO

Decisão tão só de consciência

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

No belo frontispício de nosso também belo Cemitério da Saudade, está escrito: “Omnes similes sumus”. Há quem o traduza como “somos todos iguais”. O mais correto, no entanto, seria o de sermos, todos, “semelhantes”. Pois, cada criatura é única em sua particularidade. Comprovam-no, também, as impressões digitais e arcadas dentárias humanas. E sequer precisamos de especialistas para confirmá-lo, tal a singularidade que cada um carrega consigo.  

No entanto, miseravelmente, a meia dúzia de pessoas que governa o Mundo ainda insiste em tentativas de tornar a humanidade rebanho subserviente e servil. Já há milhares ou milhões de anos. E adotando todas as formas e tentativas de escravatura, de domínio até mesmo das almas. Reinados, monarquias, religiões, políticas, ideologias, poder da força. Vívida, pois, permanece a ideia – convicção deles, os do poder – de ser próprio da vida haver comando, comandantes e comandados. Trata-se, sim, de uma realidade. Apenas, porém, relativa, sob condições, e não absoluta como apregoada conforme interesses em jogo. O domínio absolutista é sinônimo de tirania.  

Após as duas décadas da imperdoável ditadura militar, o Brasil retornou à sua sempre obstinada busca pela vivência das liberdades democráticas. Mais do que um longo aprendizado, essa conquista conseguimo-la com inauditos esforços e resistências impossíveis de esquecer. No entanto – após mais de 60 anos de vencida aquela violentação – conhecidos “filhotes da ditadura” ainda buscam retomar uma herança abominável. Para eles, não é um país que está em jogo. Não é uma nação e seu povo. Querem o Poder como se fosse privilégio e herança de uma “famiglia”, numa lembrança aterradora da ideologia da “máfia”. Querem fazer, do Brasil, propriedade hereditária.  

Diante das ameaças de retorno a um torturante fascismo à brasileira, não há como estar surdo ao brado de Ibrahim Nobre na rebelião paulista de 1932: “Minha terra, minha pobre terra!” E indignar-se até às vísceras com mentiras, engodos, irresponsabilidades que tentam iludir parte do eleitorado brasileiro. Ora, a advertência já nos tem sido feita há demasiado tempo: “A história – quando se repete – repete-se ora como comédia, ora como tragédia”. E o que está ansioso por repetir-se é a tragédia da ditadura, da dominação das vontades e esperanças nacionais que o povo brasileiro reconquistou às custas, sim, de “sangue, suor e lágrimas”.  

Transformam palavrórios em discursos pretensamente honestos. Fala-se em democracia como se fosse algo completo, intocável. Não o é. Democracia é construção permanente. Há que se transformar conforme se rompam valores anteriormente cultivados. Logo, as liberdades fundamentais exigem, por si mesmas, a sua preservação. Regulando-as, porém, conforme o ser humano – através da ciência, da tecnologia, da filosofia – encontra novos caminhos. É, então e especialmente, quando se exigem, de governantes, experiência, conhecimento e suporte das populações a que servem.  

A condição essencial para a sobrevivência democrática veio-nos no final do século XIX. Foi no discurso do político irlandês, John Curran: “A condição sob a qual Deus deu liberdade ao homem é a eterna vigilância; condição que –se o homem descumpre – a servidão é a consequência de seu crime e a punição de sua culpa". 

Somos convocados, ainda outra vez, a exercer essa vigilância. Preservaremos, fortalecendo-a, nossa liberdade, ou, loucamente, escolheremos a servidão como “consequência de nosso crime e punição por nossa culpa?” Que cada um ouça a sua própria consciência.