A política tem seus rituais, e poucos são tão antigos quanto o de distinguir publicamente alguém por seus serviços. Mudam os regimes, os costumes e os critérios de prestígio, permanece a vontade de registrar certas trajetórias. Uma medalha entregue hoje poderá acabar numa gaveta, enquanto uma frase dita numa sessão legislativa talvez sobreviva por décadas. O que determina essa diferença? O tempo, claro, mas também a história que existe por trás do gesto.
Os gregos tinham uma deusa para a memória. Mnemosine, mãe das nove Musas, ocupava um lugar de origem na mitologia ligada às artes e ao conhecimento. A ideia merece atenção. Antes de produzir suas histórias, os homens precisaram guardar as anteriores, transmiti-las, dar-lhes continuidade. A memória não era um detalhe da cultura: era uma de suas condições. As cidades também dependem desse exercício, embora nem sempre saibam fazê-lo com o cuidado necessário.
Em Piracicaba, como em tantas outras cidades, a vida institucional foi sendo construída ao longo de décadas, entre mudanças políticas, debates e diferentes visões sobre os rumos do município. Parte desse percurso está registrada em documentos e arquivos, outra permanece na lembrança de quem acompanhou os acontecimentos. Recuperar essas histórias exige olhar para além dos nomes mais conhecidos e compreender as circunstâncias em que determinadas decisões foram tomadas.
É nesse intervalo que as homenagens podem cumprir uma função relevante. Ao reconhecer uma pessoa, uma instituição escolhe trazer sua trajetória para o conhecimento público. A escolha precisa ter fundamento, naturalmente. O título não substitui a avaliação histórica, e nenhum percurso profissional está livre de contradições. Ainda assim, seria um erro desprezar o valor de registrar contribuições que ajudaram a construir instituições, ampliar a participação da sociedade ou criar condições para o desenvolvimento de uma região.
Quem trabalha na vida pública conhece a distância entre uma ideia e sua realização. Há projetos que atravessam mandatos, propostas que precisam amadurecer e conversas que levam anos para produzir algum resultado. A fotografia costuma mostrar o momento da entrega, raramente conta as reuniões anteriores, os desacordos ou a persistência necessária para chegar até ali. Reconhecer uma trajetória também permite recuperar um pouco desse trabalho, que não pertence exclusivamente a quem aparece no ato final.
A memória pública, entretanto, não deve ser feita apenas de homenagens. Precisa dos documentos, da imprensa, dos arquivos e da disposição para examinar o passado sem acomodá-lo às conveniências do presente. As distinções têm seu lugar nesse conjunto. Quando bem fundamentadas, ajudam a chamar atenção para pessoas e realizações que merecem ser conhecidas. O restante cabe à história, que não se resolve numa cerimônia e tampouco termina com a entrega de um diploma.
Na última sexta-feira, 16 de outubro, recebi da Câmara Municipal de Piracicaba, por iniciativa do vereador Fabio Silva, o título de Piracicabanus Praeclarus. Ser homenageado na cidade onde nasci tem um significado particular, sobretudo depois de tantos anos de trabalho dedicados à comunicação e à vida pública. Recebo essa distinção com gratidão e com a consciência de que o tempo permite olhar para a própria trajetória de outra maneira. O tempo se encarrega de muita coisa, mas lembrar também é uma responsabilidade dos que ficam.