17 de outubro de 2026
EPAMINONDAS FERRAZ

'Energia nuclear não deveria ser só para bomba'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 7 min
Erivan Monteiro/JP
'O exemplo que a gente deu é a maior lição. Trabalhei dia e noite e faria a mesma coisa'

O professor aposentado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) Epaminondas Sansígolo de Barros Ferraz, de 91 anos, faz parte da história da universidade piracicabana. Ele foi um dos fundadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), em 22 de setembro de 1966, ao lado do professor Admar Cervellini, que foi o mentor da iniciativa, e atuou pela Esalq/USP por cerca de 50 anos.

Nesta entrevista, o professor conta sua trajetória acadêmica e profissional, desde a alfabetização em Santa Teresinha, passando pelas escolas Morais Barros e Sud Mennucci, até chegar ao cargo de professor catedrático da Esalq/USP. Ele conta como foi a criação do Cena e os benefícios que esse departamento proporcionou para a pesquisa no Brasil. 

Sansígolo lembra ainda de como era Piracicaba há 60 anos – muito diferente dos dias atuais – as dificuldades para montar o Cena em meio ao “brejo”, como ele mesmo define o trecho da Esalq/USP onde foram colocados. “Tinha vaca pastando, muita pedra. E ninguém sabia onde era a terra de Esalq e terra do Lar dos Velhinhos. Era beira de rio. Não tinha nada”, conta, com bom humor.  

Após sua grande contribuição para a pesquisa depois de cinco décadas de trabalho, ele diz que agora tem evitado ir à Esalq. Só quer descansar.  “O exemplo que a gente deu é a maior lição. Trabalhei dia e noite e faria a mesma coisa”, finaliza. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Professor, para começar, nos fale sobre sua vida acadêmica. O senhor estudou e trabalhou na Esalq. Como foi esse período? Foi isso. Só que antes da Esalq, eu fiz o Sud Mennucci. O meu pai era administrador do Matadouro Municipal. E fui alfabetizado em Santa Teresinha. Depois, o meu pai faleceu, nós viemos para a cidade. Comecei na escola Morais Barros, com excelentes professores. Depois, prestei vestibular no Sud Mennucci. Fiz o ginasial, quatro anos, e depois mais três de curso científico. Foram sete anos no Sud. Aí, prestei vestibular na Esalq em Agronomia e passei. Só que no primeiro ano houve uma confusão, o Getúlio morreu (Vargas, presidente, em 24 de agosto de 1954), e ficamos sem aula. Eram dias bem problemáticos. Com isso, os alunos ficaram em greve em protesto pela morte de Getúlio. Tinham alguns alunos partidários. Resumindo tomei “bomba”. Tivemos de começar de novo. Então, em vez de quatro anos eu fiz cinco. Nessa época, eu também fazia o Tiro de Guerra. 

Então, o senhor perdeu um ano e se formou somente em 1958? Foi. Depois de cinco anos, eu me formei e fui trabalhar em uma indústria metalúrgica na Rua Santa Cruz, um pouco depois da Rua XV. Atuei um ano lá, mas o professor Cervellini, do Departamento de Física, me convidou. Estava atravessando o jardim e ele estava tomando um chope na antiga Leiteria Brasileira, embaixo do Clube Coronel Barbosa. Sentei na mesa dele, mas não me ofereceu chope (risos). Foi direto: “quer trabalhar na Esalq? Quer trabalhar na Física? Apareça lá na segunda-feira”. E eu fui. Era uma oferta muito boa, muito diferente do trabalho que fazia na indústria, onde eu fazia projetos. Aí, eu pedi demissão na metalúrgica e comecei a trabalhar na Esalq. 

Essa história na Esalq/USP deu tão certa que durou cerca de 50 anos... Depois que eu entrei, eu fiz concurso para assistente, depois fiz outro concurso para livre-docente, outro concurso para professor-adjunto e até que um dia cheguei a professor-titular ou professor catedrático do curso de Física. E fiz carreira. Na Esalq, foram 30 anos regulamentares (para se aposentar). Depois, fiquei mais 20 anos como orientador do Cena. Fiquei 50 anos lá. 

O senhor foi um dos criadores do Cena. Qual foi o pensamento de vocês na época, há 60 anos, para criar o Cena? O nosso departamento era Física. E o que aconteceu? Os americanos chegaram primeiro na bomba atômica. Bombardearam o Japão (Hiroshima e Nagasaki). Aí, veio a paz. Mas essa paz era só de boca, porque a União Soviética queria continuar a guerra. Os EUA também queriam. O Japão queria vingança. Então, começaram a desenvolver a teoria atômica. O mundo estava bem agitado. Nesse período, as Nações Unidas resolveram que a energia nuclear não deveria ser só para bomba. Então montaram um programa de energia nuclear para tudo. Para ajudar o homem, o habitante do planeta. A energia nuclear chegou no Brasil logo depois da bomba. Foi montado o primeiro reator nuclear em São Paulo. Fundaram a Cidade Universitária (da USP) e a primeira coisa que teve foi um reatorzinho atômico. Bem longe, porque ninguém queria chegar perto; eram 8, 10 quilômetros da cidade (do Centro de SP). Nessa época, que o Cervellini, estudante ainda, desenvolveu uma metodologia para usar a energia nuclear a favor do homem, não contra o homem. Ele trabalhava no departamento de Mecânica. Pouco tempo depois, ele fez concurso e foi cuidar do departamento de física. Não existia aqui. Ele foi o primeiro. E resolveu que poderia investir nessa coisa que ninguém sabia que estava estourando na Europa, principalmente. Foi aí que me convidou. 

Foi quando começou o projeto do Cena... Aí começamos a dar aula de física nuclear, aula disso, aula daquilo... E o Cervellini, prevendo o futuro, disse que “meia dúzia de salas não vai resolver”. Precisava de uma área grande. Ele entrou com um pedido na Congregação da Esalq para que determinasse uma área. Não existia a avenida Centenário, nem ponte, nem nada. Os professores tinham medo de radiação. Então, cederam para fazer o Cena lá na beira de rio. Tinha vaca pastando, muita pedra. E ninguém sabia onde era a terra de Esalq e a terra do Lar dos Velhinhos. Não tinha nada. Era um ribeirãozinho que começava na Carlos Botelho e ia até lá embaixo. Para você ter uma ideia, quando eu entrei na Esalq e era “bicho”, eu fugia do trote por ali. Atolava no brejo (risos). 

O material que o Cena mexe é perigoso? O que a gente mexia e mexe até hoje, material radioativo, é coisinha pequena. Não mata ninguém. Você, quando tem um problema, vai no médico e ele manda fazer Raio-X, ressonância. É esse nível. É para a saúde. 

Em linhas gerais, quais são os benefícios das pesquisas do Cena para o ser humano? É usado para conseguir alimentos melhores, produtos mais saudáveis. Tinha um colega da genética que certa vez disse: “eu proponho o feijão”. Foi uma gargalhada. “Como assim, todo mundo come feijão; tem muitos tipos de feijão”... Mas depois, fomos trabalhar nisso. O projeto feijão. É pegar uma ideia e trabalhar nessa ideia. Se você é especialista em solo, vai pegar o melhor solo para fazer isso; se é especialista em clima, vai ver qual é o melhor clima. E assim por diante... 

O senhor ainda vai à Esalq e ao Cena? Tenho evitado. As pessoas que estão lá hoje em dia têm uma diferença de quase 50 anos. Eles têm o direito de seguir a carreira deles. O exemplo que a gente deu é a maior lição. Trabalhei dia e noite e faria a mesma coisa. Aquilo que eu fiz há 50 anos hoje está obsoleto. Hoje em dia, nós temos técnicas modernas. Hoje tem computador. Quando eu comecei era tudo à mão. 

Para finalizar, pouca gente sabe que o senhor também fez atletismo e atuou pelo São Paulo Futebol Clube ainda na década de 50, na época da faculdade. Como foi essa experiência? O esporte do Brasil sempre foi o futebol. Então, eu fui jogar de goleiro. Até que tomei uma bolada e quebrei o dedo. Quando percebi que não tinha futuro no futebol, um colega me convidou para fazer atletismo e a única coisa que me adaptei foi o salto em altura. E me dei bem. Representei Piracicaba nos Jogos do Interior e em várias competições. Nessa época, tinha um colega que era paulistano e era atleta do São Paulo, o Cassiano Gomes dos Reis, que foi até presidente do Centro Acadêmico. Ele me inscreveu pelo São Paulo, que só tinha atletismo, boxe e futebol. E eu ia lá treinar e competir pelo São Paulo. Foram uns 4 anos pelo São Paulo e fui até convocado para o Mundial Universitário, na Espanha. Não fui porque não tinha passaporte. Naquele tempo, só tirava passaporte no Rio. Era inviável.