Papelarias cheias na volta às aulas, idas ao Centro para revelar fotos na Foto Gelli e paradas na Sapataria Central para consertar aquele sapato querido. Por décadas, esses comércios fizeram parte da rotina dos jundiaienses, mas acabaram ficando na memória. Enquanto algumas dessas referências fecharam as portas, outras continuam abertas há décadas, adaptando produtos e estratégias para acompanhar as mudanças no consumo. Entre junho de 2025 e junho de 2026, os registros comerciais de Jundiaí passaram de 11.896 para 13.662, alta de 14,8%. O crescimento, porém, convive com a transformação das ruas e com o desafio de manter negócios tradicionais em atividade.
No Centro, a Loja dos Velinhos que começou como armazém em 1940 é um exemplo dessa resistência. O negócio foi fundado por cinco irmãos e mudou de ramo quando a chegada de grandes supermercados tornou a concorrência mais difícil. A loja passou a vender tecidos e, depois de atravessar diferentes administrações, foi assumida por João Gabriel do Nascimento, há 16 anos. Para ele, a tradição está no cuidado com os clientes e na confiança construída ao longo do tempo. “O que mantém a loja é o atendimento, o carinho e o respeito com que tratamos cada cliente, além da honestidade e dos preços justos. Aqui, a pessoa pode tocar no tecido, ver o caimento e escolher exatamente o que procura, uma experiência que a compra pela internet nem sempre oferece”, afirma.
De rádios e televisores a panelas
A Grand Bazaar, também no Centro, está no comércio jundiaiense desde 1961. Hoje, Lucas Atique Martins, de 26 anos, representa a terceira geração da família à frente da loja, especializada em panelas e utensílios domésticos. O negócio começou com manutenção de rádios e televisores, passou por fotografia, tecidos e roupas até chegar aos artigos para cozinha. Lucas cresceu no estabelecimento e, recentemente, decidiu se dedicar integralmente à operação com a irmã.
Para continuar no mercado, a loja amplia o catálogo, incorpora marcas e acompanha as preferências dos consumidores. O desafio agora é conquistar um público mais jovem, que começa a montar a própria casa e nem sempre conhece as diferenças entre os produtos. “Você não precisa perder a sua essência, mas, quando vê que há uma tendência, tem que seguir ela. Você tem que mudar, não tem jeito”, diz.
Outra estratégia é combinar a tradição de uma marca conhecida com assistência ao consumidor. Na Rua do Rosário, as Óticas Carol estão no mesmo endereço há mais de 25 anos. A empresa, administrada por Edmir, expandiu a atuação e hoje conta com nove lojas na região. Para a funcionária Célia Maria Aguiar, o diferencial está na confiança construída com os clientes. “Cada cliente a gente trata com atenção, oferecendo assistência e passando credibilidade. É importante que a pessoa saiba que pode voltar aqui se precisar de ajuda”, afirma.
Lojas que ficaram na memória
A Papelaria Santa Terezinha fechou em 2019, após 47 anos de atividade, assim como a Credi-Nino, loja de móveis e eletrodomésticos que encerrou as atividades após 71 anos. Em 2020, foi a vez da Sapataria Central, negócio familiar com 110 anos de história, e do Restaurante Dadá, conhecido por lanches como coxinha e bauru.
Outras referências desapareceram nos anos seguintes. A Foto Gelli encerrou as atividades em 2023, após mais de um século de história. No mesmo ano, o Gabinete de Leitura Ruy Barbosa fechou após 115 anos, com um acervo de cerca de 55 mil livros, e o restaurante Chopão encerrou uma trajetória de 47 anos.
Comércio cresce, mas muda de perfil
Os registros comerciais de Jundiaí cresceram 14,8% entre junho de 2025 e junho de 2026, passando de 11.896 para 13.662. A região Sul teve alta de 16,6%, a Oeste, de 16%, e o Centro, de 10%. Para o presidente da ACE Jundiaí, Orlando Fabrício, a continuidade dos negócios depende da sucessão familiar, da confiança dos clientes e de uma gestão financeira cuidadosa. “A tradição e a confiança conquistadas ao longo dos anos são importantes, assim como a passagem da empresa de uma geração para outra, preservando valores, conhecimento e o relacionamento com os clientes”, afirma.
Dados da Secretaria Municipal de Finanças mostram que Jundiaí teve 1.580 registros comerciais entre janeiro e dezembro de 2025. De janeiro a setembro de 2026, foram 2.839. Os números correspondem a registros realizados no período e não representam necessariamente o saldo de novas empresas em funcionamento, pois não descontam os encerramentos.
Levantamento do Sincomercio com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) contabilizou 6.378 estabelecimentos varejistas no município em dezembro de 2024. O segmento de roupas, calçados e outros artigos novos concentrava 1.961 estabelecimentos, seguido pelo comércio de eletrodomésticos, informática, comunicação e móveis, com 1.168. Já padarias, hortifrutis, açougues e lojas de bebidas somavam 912 unidades.
Entre lojas que atravessam gerações e estabelecimentos que deixaram saudade, o comércio de Jundiaí acompanha as mudanças nos hábitos de consumo. Para os negócios tradicionais, o desafio é preservar a história e a relação com os clientes sem deixar de se adaptar a um mercado cada vez mais competitivo.