Aniversário de Nina, 8 anos, minha afilhada e querida do coração. Aluna Waldorf, menina de pais atentos, linda, inteligente. Fui para a casa dela umas 19h, para pegá-la antes do horário de dormir, que sempre é cedo por ali. Sabe aqueles dias cansativos, em que você não termina nunca de trabalhar? Tinha sido assim. E pior, ainda era, porque não havia finalizado a edição e ela queria, claro, brincar. Convencemos que era hora do banho e fiquei ali, conversando e fofocando com ela.
Na hora de dormir, queria a presença da mamãe e da madrinha. Eu adoro! Acontece que a mãe estava escutando as aulas do MBA enquanto contava uma historinha para ela dormir. Eu, escondida, com o celular, finalizava a capa. Uma mãe com fone de ouvido, a dinda com o celular. Mas, rapidamente, ela dormiu e pude ficar de conversê com meu compadre.
Colocá-la para dormir foi a melhor coisa do meu dia e, mesmo assim, eu não estava por inteiro ali. Fiquei, claro, pensando se ela seria estressada como eu e a mãe, se estávamos fazendo o melhor por ela. Passados alguns dias, observei brasileiros almoçando, todos com o celular na mão. “Nos tornamos um bando de zumbis”, pensei. E, prestem atenção, você não vê esse comportamento em países europeus e até mesmo em outros da América Latina.
E talvez seja exatamente isso. Estamos fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes. Trabalhamos enquanto comemos, respondemos mensagens enquanto conversamos, assistimos a filmes enquanto percorremos as redes sociais. Parece eficiência. Não é. É um cérebro permanentemente solicitado, incapaz de descansar da próxima tarefa.
A ciência já demonstrou que alternar constantemente entre atividades tem um custo cognitivo. A Associação Americana de Psicologia explica que cada mudança de tarefa exige um esforço de reorganização mental, reduzindo a eficiência e aumentando a possibilidade de erros. Pesquisas também mostram que notificações do celular podem prejudicar a concentração mesmo quando não atendemos às mensagens. Nosso cérebro é interrompido antes mesmo de tocarmos na tela.
A conta aparece na dificuldade de concentração, na sensação de esgotamento e na incapacidade de aproveitar experiências simples. A atenção fragmentada também pode prejudicar a memória, porque precisamos prestar atenção para registrar adequadamente aquilo que vivemos. Quantas conversas terminamos sem lembrar direito do que foi dito? Quantas refeições fazemos sem perceber o sabor? Quantos momentos importantes atravessamos pensando na próxima obrigação?
É nesse cenário que o mindfulness, ou atenção plena, ganha importância. Trata-se de uma prática de origem contemplativa, incorporada à psicologia e à medicina, que consiste em prestar atenção ao momento presente, intencionalmente e sem julgamentos. Não significa esvaziar a mente, abandonar responsabilidades ou viver em permanente serenidade. Significa perceber onde estamos, o que fazemos e como reagimos ao mundo.
Estudos científicos indicam que práticas regulares de atenção plena podem ajudar a reduzir sintomas de ansiedade, estresse e depressão. Não são uma solução milagrosa, mas oferecem uma possibilidade concreta de interromper o piloto automático. Respirar conscientemente, caminhar sem consultar mensagens, fazer uma refeição sem telas ou simplesmente ouvir alguém até o fim são exercícios aparentemente pequenos, mas profundamente necessários.
Vivemos sob a ilusão de que estar disponível o tempo inteiro é uma virtude. Transformamos urgências em rotina, produtividade em identidade e descanso em culpa. E ensinamos isso às crianças, mesmo quando desejamos oferecer a elas uma infância diferente. Elas aprendem observando nossas escolhas, nossos hábitos e a maneira como distribuímos aquilo que temos de mais precioso: o tempo.
Penso novamente em Nina, adormecendo entre a voz da mãe e a presença da madrinha. Naquela noite, nós duas estávamos ali por amor, mas também divididas pelas exigências de um mundo que parece não permitir pausas. Não faltava afeto. Faltava atenção inteira.
Talvez o maior desafio contemporâneo não seja administrar melhor o tempo, mas recuperar a capacidade de habitá-lo. Porque a infância passa, as pessoas envelhecem, os encontros acabam. E nenhuma mensagem, planilha ou edição será capaz de devolver os minutos que atravessamos distraídos.
Na próxima vez que Nina pedir para brincar, quero deixar o celular de lado. A capa pode esperar alguns minutos. A infância dela, não.
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ