18 de outubro de 2026
OPINIÃO

O mundo hoje é outro


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Os cientistas alertaram durante décadas. Governos e sociedade não ouviram. Hoje, é a natureza quem está com a palavra. E ela está ressentida. Já não suporta os maus-tratos a que tem sido submetida.

Por isso, cada ano é mais quente do que o anterior. O regime de chuvas está desregulado. Isso afeta a agricultura, a saúde e a economia. Isso, no planeta como um todo. Em nosso país, as temperaturas mínimas se elevaram. São Paulo, a maior cidade brasileira, já foi chamada “São Paulo da garoa”. Hoje tem vendavais, temporais, tempestades e muitas secas.

O fenômeno “El Niño”, que os cientistas preveem mais intenso este ano, provoca verdadeiro cataclismo climático. O estresse hídrico se aproxima de verdadeiro colapso, quando se considera a vulnerabilidade dos nossos reservatórios, principalmente a represa Guarapiranga.

Ali, a invasão continua, embora seja área de proteção dos mananciais. Esgoto in natura é lançado na água, faz proliferar as algas macrófitas. O tratamento não consegue eliminar a totalidade dos coliformes fecais, a cocaína expelida na urina e os resíduos fármacos. Além do maldito microplástico, já detectado nas artérias, nos órgãos e na placenta das gestantes.

Os mais vulneráveis são os mais carentes. Não têm condições de dispor de ar condicionado. Suas casas são rústicas. Não foram objeto de adequado projeto arquitetônico. Sequer se tem notícia do que sejam as urgentes “soluções baseadas na natureza”.

A Seclima, Secretaria Executiva das Mudanças Climáticas, fruto da sensibilidade do prefeito Ricardo Nunes, trabalha na execução do Planclima, Plano de Ação Climática de São Paulo, um consistente estudo elaborado com o prestígio da C40, Rede de 97 grandes cidades mundiais e referência no trato das emergências geradas pela transformação climática.  Além disso, São Paulo tem um orçamento climático, o mais completo dentre os poucos existentes no globo. Este ano de 2026 prevê investimento de quase 30 bilhões para o trato de todas as questões transversais que envolvem o tema. Pois uma cidade impermeabilizada, como são todas as grandes concentrações urbanas brasileiras, tende a oferecer riscos maiores do que aquelas poucas onde ainda existe solo natural, apto a absorver as águas pluviais.

O remédio para amenizar a temperatura, que mata mais do que as ondas de frio e os deslizamentos de terra e desmoronamentos de construções sem adequado alicerce, é algo factível. O físico brasileiro José Goldemberg, uma das maiores autoridades mundiais em questões ambientais, assinala que somos detentores da melhor tecnologia para o controle da temperatura: o plantio de árvores.

As árvores prestam um serviço ecossistêmico de relevância. Imprescindível o seu papel no sequestro de carbono e devolução de oxigênio. A sua função de reduzir a temperatura, que chega a ter cinco graus Celsius menos nas áreas arborizadas, em comparação com territórios áridos. O entorno da árvore permite absorção da água e evita enchentes, inundações e mortes. Ela dá sombra, abriga a fauna silvestre, floresce, dá frutos. Embeleza a paisagem e faz bem à saúde física e mental.

Estudos nas grandes universidades americanas já comprovoram  que “conversar com árvore”, “tomar banho de árvore”, ou seja, caminhar por aleias arborizadas, oferece tranquilidade, paz de espírito e reequilibra mentes angustiadas, estressadas e deprimidas.

Se o mundo hoje é diferente, está a exigir também mudança de paradigmas. Temos de pensar diferente. Não podemos continuar na sanha cruel de dizimar o ambiente. Somos parte dele. E se ele desaparecer, desapareceremos antes dele.

O mundo hoje é outro. Você já se deu conta disso?

 

 

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.