14 de outubro de 2026
ARTIGO

Cuidado! De repente ele entra!

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

Posso estar sendo politicamente incorreto, mas ainda penso que toda educação verdadeira é, por força da natureza, elitista. Todo progresso no saber, em qualquer área, é sempre um desafio para os melhores, exatamente como no esporte e na vida em geral. Desde a velha Paideia grega, sempre se entendeu assim. Foi só a partir da famigerada Lei de Diretrizes e Bases, de fins da década de 60, já em regime militar, mas na realidade realizando plano gizado no governo Goulart, que se pretendeu “democratizar” o ensino. Em vez de se expandir e tornar mais acessível o excelente ensino público que tínhamos, preferiu-se fazer o mais fácil, ou seja, nivelar por baixo. No altar da igualdade se sacrificaram os melhores, e o resultado é que os menos bons também foram prejudicados, por não poderem mais ser puxados para cima pelos melhores. 

Meu saudoso amigo Paulo Bomfim (que se vivo estivesse teria completado 100 anos na última semana) tinha toda a razão quando ponderava que, no mundo inteiro, elite é coisa boa, só no Brasil é que virou palavrão.  

Sou velho, sou muito velho, ainda remanescente dos tempos pré-históricos do Curso Ginasial, ao qual se tinha acesso pelos temidos Exames de Admissão, que prestávamos aos 10 ou 11 anos de idade. Ainda sou do tempo em que, no Ginásio, os alunos eram chamados de Senhor pelos professores, para mostrar que não éramos mais meninos e já tínhamos responsabilidades de adultos. 

Ainda sou do tempo em que éramos obrigados a fazer uma redação diária e a ler seriamente pelo menos um livro por mês. As redações eram diárias, realmente, e uma vez por semana um dos alunos, escolhido sem aviso prévio, escrevia no quadro-negro toda a redação que tinha feito naquele dia, e o professor a corrigia publicamente. Inicialmente, lia tudo em voz alta, para formar a visão de conjunto, e já ia corrigindo os erros ortográficos. Em seguida, lia tudo uma segunda vez, corrigindo os erros sintáticos, a concordância gramatical, as formas verbais, mexendo na estrutura das frases, dos períodos e dos parágrafos. Depois de mexido e remexido o texto, o professor fazia uma última leitura, analisando o conteúdo, as ideias expendidas pelo redatorzinho... 

As críticas eram severas e bem humoradas, muitas vezes expondo a ridículo o autor da redação. Ninguém pensava em bullying, na época, nem ficava traumatizado pelas correções e zombarias. Sem dúvida, era algo terrível para o examinado, e muito divertido para os assistentes, que acompanhavam tudo às gargalhadas, mas extraordinariamente formativo para todos, que concluíam o Ginásio com 14 para 15 anos de idade, sabendo escrever com lógica e correção. 

Quanto à leitura, éramos obrigados a ler um livro por mês, anotando num caderno todas as palavras desconhecidas, que deviam ser procuradas no dicionário e aprendidas. Era matéria de prova mensal saber todas as palavras do livro que tinha sido lido no mês anterior. Muito do vocabulário que aprendi data dessa época, e seria capaz de dizer onde foi que aprendi. 

É claro que os tempos mudaram e que os professores, hoje, precisam proceder de modo diferente, mas naquele tempo não nos incomodava sermos ridicularizados pelos barbarismos cometidos, diante de toda a classe. Ninguém se considerava ofendido quando chamado de burro por um mestre. Centenas de vezes fui assim classificado em salas de aula, porque detestava números e cálculos e não morri nem fiquei traumatizado. 

Encerro este artigo recordando um fato bem mais antigo. No século XIX, certo prpfessor da Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco ministrava sua aula rotineira, enquanto caminhava pela sala. A certa altura, aproximou-se da janela e, para espanto geral, se pôs a gritar: “Cuidado! Cuidado! De repente ele entra! Cuidado!” Os alunos, assustados, correram à janela para ver o que estava acontecendo. E viram, no velho largo provinciano ainda não pavimentado, um burrico que placidamente saboreava o matinho que havia crescido junto à faculdade. O professor, então, acrescentou: “De repente ele resolve entrar na Faculdade e, daqui a cinco anos, temos mais um burro doutor...”