Senhoras e senhores, preparem a pipoca! As luzes se acendem, a cortina abre e começa mais um espetáculo no grande circo da República.
No centro do picadeiro aparece o mágico Furtin. Terno impecável, toga reluzente e uma cartola tão grande que parece capaz de esconder até processo de milhares de páginas.
Furtin não tira coelhos da cartola. Seu número é mais sofisticado: ele faz desaparecer cartas.
— Respeitável público! Prestem atenção! A carta está aqui!
E mostra uma carta especial, carta do baralho jurídico : denúncia, documentos, provas, depoimentos e tudo aquilo que o cidadão imagina que deveria ser examinado pela Justiça.
— Um, dois, três...
A carta desaparece.
A plateia olha para a cartola. Nada.
Olha para Furtin. Nada.
— Cadê a carta?
O mágico sorri:
— Faz parte do espetáculo!
O problema é que esse número já foi apresentado em outros picadeiros. Na Lava Jato, por exemplo, o Supremo anulou atos e processos em diferentes casos, com decisões baseadas em questões jurídicas como competência do juízo e garantias processuais. No caso de Lula, o Supremo confirmou em 2021 a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e anulou as ações penais que ali tramitavam. E Furtin já sabia desde o começo que podia anular o processo.
E agora entra em cena um novo cartaz, e a plateia já desconfia do próximo truque:
BANCO MASTER!
Afinal, cartola grande sempre desperta curiosidade.
A comparação com a Lava Jato já apareceu no debate público. Mas aqui é preciso separar o picadeiro da realidade: em setembro de 2026, o caso Master ainda está em discussão no Supremo. O Plenário examinará uma questão de ordem, e o mérito das petições está sendo analisado. O pedido de vista do ministro Flávio Dino suspendeu a discussão.
Ou seja: Furtin ainda não fez essa carta desaparecer.
Furtin volta ao picadeiro carregando uma pasta enorme.
— Senhoras e senhores! Agora, o grande número: “A carta do Banco Master!”
A plateia se ajeita.
Furtin abre a pasta:
— Aqui está o processo!
Mostra os documentos e enfia tudo na cartola.
Então começa a mágica:
— Questão de competência!
Sacode a cartola.
— Garantias processuais!
Outra sacudida.
— Nulidade!
Mais uma.
Furtin levanta a varinha:
— Um, dois, três...
Cartola vazia.
Um cidadão grita da arquibancada:
— Cadê o processo?
Furtin olha calmamente:
— Qual processo?
— O que estava na sua cartola!
— Tem certeza?
— Eu vi!
— Então o senhor precisa prestar mais atenção ao espetáculo!
A plateia cai na gargalhada.
Mas, depois da risada, aparece a pergunta que não tem graça nenhuma: quem paga a entrada?
No circo brasileiro tem mágico, palhaço, malabarista, equilibrista, apresentador, vendedor de pipoca e o cidadão.
Ele compra o ingresso, paga a pipoca, paga a luz e ainda fica na arquibancada tentando entender o truque.
Só que o cidadão não quer mágica.
Quer Justiça.
E Justiça não deveria funcionar como ilusionismo.
Na mágica, o artista faz uma carta desaparecer.
Na Justiça, as cartas deveriam estar sobre a mesa.
Se uma prova é ilegal, que seja afastada. Se um processo está no lugar errado, que seja corrigido.
Se uma decisão precisa ser anulada, que seja anulada com fundamento.
Isso é Estado de Direito.
O problema começa quando o público fica com a impressão de que, sempre que surge uma carta inconveniente, alguém pode simplesmente colocá-la na cartola.
Porque uma decisão judicial pode mudar o destino de um processo.
Mas não deveria fazer desaparecer a confiança de quem está assistindo.
E confiança não volta com varinha mágica.
No final do espetáculo, Furtin faz sua reverência.
A cortina começa a fechar.
Antes que as luzes se apaguem, alguém pergunta:
— Furtin, qual será seu próximo número?
O mágico sorri:
— Adivinhar onde foi parar a verdade!
A plateia fica em silêncio.
E o cidadão, já sem vontade de rir, faz a pergunta que nenhum mágico deveria precisar responder: se a Justiça existe para fazer aparecer a verdade, por que o espetáculo parece sempre ensaiar o desaparecimento das cartas?