"Vovó, posso ir aí? Você faz um docinho pra mim?". Minha irmã me enviou esse áudio que a netinha dela, de três anos, mandou para ela.
Avós, netos e doces, tudo a ver! As mais gratas lembranças que temos da infância são, em sua maioria, associadas aos doces. E são as nossas mais ternas lembranças.
Os bolos fofos e cheirosos que as madrinhas faziam, os quindins da tia querida, as balas de coco fresquinhas, as de café, as caramelizadas, só de pensar, dão água na boca!
As memórias afetivas da infância se cruzam sempre com o gostinho doce dos quitutes que nossas mães, avós, tias e madrinhas faziam.
E chegam junto com as lembranças os aromas, a consistência, o sabor e a quentura do amor que embalava cada fatia de bolo, cada beijinho de coco, cada sonho fartamente recheado de creme, cada bala puxa-puxa, cada gelatina molenga, tão coloridas, que alegravam a alma.
À revelia das ordens dos pais, de não poder dar muitos doces e chocolates para as crianças, as avós "burlam" as leis, e quando estão a sós com os netos, é só alegria!
Minhas netas sempre amaram os bombons que eu faço com leite em pó, ovomaltine e chocolate. Sempre fizeram sucesso nas festinhas e não sobrava um.
E eu as ensinei como fazer. Agora, elas mesmas produzem os "bombons da vovó". Creio que essa receita deliciosa será uma das memórias que ficarão com elas para sempre.
Guardo comigo um antigo caderno de receitas, escrito à mão. Nele tem receitas de família. Era uma época em que todas as mulheres eram quituteiras de mão cheia. "Bater um bolo" era expressão muito comum, e eram feitos com muito amor. Bolos fofos, cheirosos, de limão, de fubá, formigueiro, bolo nega maluca, bolo xadrez, cuca, mesclado, que eram degustados ainda quentinhos no café da manhã, no chá da tarde, e também iam nas lancheiras da escola envoltos em alvos guardanapos de linho bordados com as iniciais da criança, junto com a garrafinha de suco natural.
Uma pena que hoje tudo é comprado pronto. Há uma "Casa de Bolos" em cada bairro. Gostosos também, mas falta o ingrediente principal, o amor das titias, mamães, madrinhas e vovós.
Quando foi que paramos de "bater bolos"? Quando foi que paramos de enrolar brigadeiros? Quando foi que paramos de escrever nossos cadernos de receitas?
Foi tudo acontecendo muito rápido por conta da Internet. O doutor Google, sabe de tudo, das receitas mais simples às mais complicadas.
As mulheres não têm mais tempo e pedem bolos, doces, salgados, tudo pelos aplicativos. Pra que caderno se o Google tem milhares de sugestões? Tem receitas de qualquer doce, de origem de qualquer país, e em diversas versões diferentes.
As cozinhas modernas não têm mais tachos de fazer compotas porque tem doce pronto de tudo quanto é tipo, doce de abóbora, de figo, de pêssego, de banana, de mamão, de marmelo, tudo industrializado.
Já não se fazem mais vovós como antigamente. Vovós contadoras de histórias, criadoras de memórias, crocheteiras, tricoteiras, bordadeiras e costureiras. Essas ficaram lá pra trás na névoa nostálgica do passado.
As vovós de hoje são vovós de academia, saradas, fitness, vovós do crossfit, maratonistas, que “puxam ferro”, praticam ioga e não têm tempo para cuidar de crianças e bater bolos.
Que pena...