30 de setembro de 2026
ARTIGO

O que cabe em uma recomendação


| Tempo de leitura: 3 min

Gustavo Scarpa é jogador de futebol, atualmente no Atlético-MG, e há algum tempo também chama atenção por um hábito pouco associado ao universo dos boleiros: gosta de ler. Recentemente, ao falar sobre A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, acabou provocando um movimento que ninguém poderia imaginar a partir de uma simples indicação. A obra chegou ao primeiro lugar entre os livros mais vendidos da Amazon Brasil, enquanto o vídeo em que Scarpa comenta o livro passou de 600 mil visualizações. Torcedores chegaram a criar a Galeitura, um clube de leitura inspirado nas indicações do jogador.

Não é pouca coisa. Estamos falando de um livro publicado em 1886, escrito por um russo morto há mais de um século, que de repente passou a ser procurado por gente que provavelmente não estava pensando em Tolstói naquela manhã.

Scarpa não é professor, escritor ou crítico literário. É jogador de futebol. E talvez esteja aí a parte mais interessante. A influência de uma pessoa conhecida não fica restrita àquilo que a tornou conhecida. Vale para o atleta, o cantor, o ator, o influenciador. Quem acompanha essas pessoas observa também seus hábitos, gostos e escolhas. Uma recomendação feita quase como quem conversa pode alcançar muito mais gente do que seu autor imagina.

Por trás de cada seguidor existe uma pessoa. Alguém que assiste, pesquisa, compra, comenta e, em alguns casos, imita. É fácil olhar para uma conta com milhões de seguidores e enxergar apenas um número. O número, porém, não compra livro nem toma decisão. Quem faz isso é gente.

E influência desse tamanho traz uma responsabilidade que nem sempre aparece no contrato.

As bets oferecem um exemplo incômodo. Jogadores, clubes, influenciadores e celebridades ajudaram a colocá-las no cotidiano de milhões de brasileiros. Elas estão nas camisas, nos programas, nos estádios e nas redes sociais. O problema é que apostar não é como comprar uma chuteira. Existe dinheiro envolvido, risco e a possibilidade concreta de transformar entretenimento em prejuízo.

A legislação brasileira proíbe que a publicidade apresente a aposta como solução financeira, fonte de renda ou investimento. Ainda assim, rostos conhecidos continuam sendo ferramentas poderosas para dar familiaridade a esse mercado. Quando alguém que conquistou a confiança do público anuncia um produto, empresta um pouco dessa confiança ao que está vendendo.

Quem reúne milhares ou milhões de pessoas dispostas a ouvir o que diz pode tratar essa audiência apenas como espaço publicitário? Também parece cômodo imaginar que sua responsabilidade termina no momento em que publica o anúncio e recebe pelo contrato.

Scarpa oferece um contraponto. Em vez de recomendar uma plataforma, recomendou um livro. Em vez de estimular alguém a tentar a sorte, despertou em muita gente a vontade de descobrir uma história. O mecanismo é parecido: uma pessoa conhecida aponta para alguma coisa e uma multidão olha na direção indicada.
Imagine se isso acontecesse mais vezes. Jogadores, artistas e influenciadores falando de livros que leram, filmes de que gostaram, cursos que fizeram, autores que descobriram. Bastaria reconhecer que uma audiência gigantesca também pode apresentar outras possibilidades.

No caso de Scarpa, uma conversa sobre um livro foi suficiente para levar Tolstói às conversas de muita gente. Ele não precisou fazer campanha pela leitura. Apenas falou sobre aquilo que estava lendo.

No fim, é esse o tamanho da influência. Ela pode ajudar a vender um livro, uma aposta, uma camisa ou qualquer outra coisa. Quem conquistou a atenção de milhões tem o direito de ganhar dinheiro com ela. Mas aquilo que escolhe colocar diante dessas pessoas também é uma escolha. E talvez diga bastante sobre o que decidiu fazer com a influência que conquistou.

Clovis Vaz é empresário de comunicação e consultor político.