30 de setembro de 2026
ARTIGO

Condição feminina e educação na Grécia antiga


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Prossigamos a série de artigos sobre o livro “A vida cotidiana na Grécia no século de Péricles” de Robert Flacelière. Como vimos na última semana, a democracia ateniense era bem diferente do que hoje se entende por democracia. Na verdade muito pequena era a porcentagem de cidadãos com direito de participação política e mesmo esses tinham sua liberdade bastante tolhida por um sistema político monopolizador e totalitário. A situação das mulheres era ainda mais precária. 

Flacelière inicia o capítulo III, que trata das mulheres, do casamento e da família, mostrando que o papel delas mulheres era de absoluta submissão, somente no lar podendo exercer alguma forma de autoridade: “Em Atenas, as mulheres dos cidadãos não têm nenhum direito político nem jurídico, não mais do que os escravos.

Elas perderam o papel importante que desempenhavam na sociedade minoica e que tinham em parte conservado, ao que parece, na época homérica. Não obstante, a ateniense casada, mesmo confinada na sua casa, pelo menos a governa com autoridade, sempre que seu marido e senhor não se oponha a isso.” (p. 75).

O autor se estende longamente sobre a educação feminina (toda voltada para o interior do lar e sem nenhuma participação social na vida externa, que era atribuição exclusiva dos homens) sobre o noivado, o casamento com suas cerimônias, os partos e o cerimonial que cercava o nascimento e os primeiros dias de existência do recém-nascido. Alguns pormenores são altamente chocantes: o infanticídio, por exemplo, não se praticava matando diretamente o recém-nascido, mas simplesmente abandonando-o para que morresse por si. 

No capítulo IV, que tem por objetivo expor a situação das crianças e da educação. é mostrada a diferença fundamental entre o sistema ateniense e o espartano.

Neste último, as crianças somente permaneciam com suas famílias até os 7 anos de idade, mas eram criadas, mesmo no lar, com rigor absoluto, sem nenhuma espécie de conforto ou agasalho especial, mesmo no auge do inverno, sem nenhuma manifestação de bondade ou carinho, o que se considerava pernicioso, porque emoliente. A partir dos 7 anos, eram retiradas do lar e entregues à propriedade absoluta do Estado, sendo formados juntos meninos e meninas, dentro da mais rígida disciplina militar, num esquema que Flacelière compara ao nazista e ao fascista, e que poderia igualmente comparar ao de regimes comunistas. 

Fazia parte, da educação dos jovens espartanos de ambos os sexos, a “cryptia”, quando, por volta dos 16 anos de idade e depois de terem passado por uma série de sucessivas iniciações que eram, ao mesmo tempo provas de resistência e cerimônias de cunho mágico, deviam viver sozinhos e isolados na floresta, como licantropos (homens-lobo) e, durante a noite, praticar um exercício chamado cryptia, que consistia em penetrarem subrepticiamente nas habitações e ali caçarem e matarem hilotas escravizados (p. 71 e 111).

Já em Atenas era deixada, em tese pelo menos, muito ampla liberdade para cada família educar seus filhos como bem entendesse, até ele completar 18 anos e poder assumir seu papel na vida cívica, começando pela formação militar. As meninas atenienses, como se viu, eram educadas exclusivamente no lar e para o lar. A grande diferença da formação entre o sistema ateniense e o espartano se dava, pois, entre os 7 e os 18 anos de idade. (p. 107-112).

O papel dos pedagogos - escravos que tinham a missão de acompanhar os meninos às escolas atenienses, ensinando-lhes boas maneiras, castigando-os com varadas quando necessário, carregando seus pertences e até mesmo ajudando-os nas tarefas escolares - é realçado (p. 120), assim como o papel de Homero, base constitutiva da paideia grega: “Homero é considerado pelos gregos como o educador por excelência, e o gramatista (professor de leitura) dele extrai para seus alunos não lições de estética, mas lições de moral e religião e, de modo ainda mais genérico, lições de vida, pois Homero ensina tudo o que deve saber um homem digno desse nome: as atividades dos tempos de paz e de guerra, os ofícios, a política e a diplomacia, a sabedoria, a cortesia, a coragem, os deveres em relação aos pais e aos deuses. (p. 124)