27 de setembro de 2026
OPINIÃO

Cumplicidade

Por Padre Charles Borg | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

Matrimônio, caminho para a santidade! Enunciado romântico, utópico todavia, afirmam alguns. Certamente é com o explícito propósito de reafirmar a real possibilidade de realização na vida matrimonial que o Vaticano promove a abertura da causa de beatificação de um casal espanhol – Tomás e Paquita Alvira. Sim, é perfeitamente possível um casal viver, no matrimônio, uma experiência de santidade, um convívio longo e feliz!

O casal se conheceu pouco antes da Guerra Civil espanhola – 1936. Por conta da numerosa família – nove filhos – Tomás precisava completar o orçamento doméstico ampliando suas atividades na área da educação. Paquita abriu mão da profissão para dedicar-se integralmente aos cuidados domésticos. Emerge o primeiro aceno indicativo de santidade do casal cristão, em harmonia de propósito e em comunhão afetiva lutar para criar e sustentar a família. 

Santa é a pessoa que cumpre com amor e realiza com fidelidade as obrigações inerentes a seu estado de vida. Esta entrega se fundamenta e se alimenta na zelosa e fiel observância dos deveres conjugais, na ativa participação nos sacramentos e nas regulares e devotas práticas de orações domésticas. O casal cristão transforma o lar em igreja doméstica onde se vive a fé e se aprende a cultivar a caridade solidária. O casal caminha na santidade justamente porque, mesmo nos inevitáveis contratempos cotidianos, esforça-se para viver segundo as orientações divinas de amor, perdão e respeito.

Tomás e Paquita testemunham com o exemplo de suas vidas que, de fato, o que Deus une, adversidade humana alguma separa. Uma existência cimentada no amor – afinal, Deus é amor – zela para eliminar todas as frestas que possam permitir a perniciosa penetração do egoísmo. Muitos lares desmoronam, muito afeto evapora porque se afrouxa a vigilância contra a danosa invasão de interesses particulares. 

O individualismo esfria o afeto. A presunção mina a fidelidade. A autossuficiência implode o mútuo respeito. Urge precaver-se contra demandas de independência, exigências de liberdades, reivindicações carreiristas. Amar tem custo. Escolhas envolvem renúncias. Talvez seja por isso que muitos, jovens inclusive, receiam apaixonar-se. Intuem que o amor não se esgota em romantismo, desconfiam que paixões têm prazo de validade. Assumido, o amor envolve cruzes. Como, em tempos modernos, se vive abominando todo tipo de sofrimento, recusa-se renunciar. 

Resiste-se perder a liberdade. Hesita-se amar. Escolhe transferir o afeto a pets. Bicho, afinal, não murmura. Tampouco contesta! A causa da beatificação do casal espanhol, Tomás e Paquita Alvira, reafirma, em boa hora, a dignidade do amor conjugal e a excelência de uma vida familiar alicerçada em sólidos princípios cristãos. Ratifica, outrossim, a serena satisfação resultante da reciprocidade do afeto e confirma o enlevado encanto inerente à cumplicidade amorosa conjugal!

O padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba