Filha e neta de agricultores e comerciantes, Nancy Ferruzzi Thame nasceu em Lucélia-SP e construiu em Piracicaba uma trajetória marcada pela agricultura, pela educação, pelo meio ambiente e pela participação na vida pública. Veio para a cidade em 1979 cursar engenharia agronômica na Esalq-USP. É bacharel em Direito e também se especializou em ciência política, gestão ambiental e educação ambiental.
Ao longo de sua vida profissional, Nancy atuou em diferentes áreas. Trabalhou no Ministério da Agricultura, foi professora e coordenadora de curso de Agronomia, diretora de Horto Florestal em Presidente Prudente e participou de projetos de capacitação de mulheres em diferentes regiões do Estado de São Paulo.
Retornou para Piracicaba em 1996 e atuou como empresária. Em 2016 foi eleita vereadora e exerceu o mandato entre 2017 e 2020. Sua atuação na Câmara Municipal foi marcada pela defesa do meio ambiente, do planejamento e da gestão territorial sustentável, do fortalecimento da agricultura sustentável e dos direitos das mulheres, além da promoção da formação política e cidadã.
Posteriormente, esteve à frente da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, entre 2021 e 2024. No período, trabalhou com políticas públicas de apoio à agricultura familiar, à produção de alimentos locais, desenvolvimento da zona rural, preservação ambiental e proteção de nascentes.
Mãe de três filhos e avó de dois netos, Nancy também construiu sua trajetória conciliando a vida profissional, familiar e a participação em diferentes espaços de atuação. Foi casada com Antonio Carlos de Mendes Thame, ex-prefeito de Piracicaba e ex-deputado federal, com quem compartilhou a vida familiar e o compromisso com a cidade. Nos últimos anos de vida de Mendes Thame, Nancy também acompanhou de perto seu enfrentamento a uma doença degenerativa, até seu falecimento, em 2022.
Atualmente, preside o Partido Verde no Estado de São Paulo e se prepara para um novo desafio na vida pública: está candidata à deputada federal, com o compromisso de representar Piracicaba, a região e o Estado de São Paulo na Câmara dos Deputados.
Piracicaba está há anos sem eleger um deputado federal. O que a senhora acredita que um deputado da cidade precisa fazer de diferente para garantir que os interesses de Piracicaba e da região tenham peso em Brasília?
Piracicaba ficou sem representante no Congresso Nacional e é importante lembrar que 93 mil eleitores não foram às urnas e quase 90 mil votaram em candidatos de fora, muitos deles que nem mesmo conhecem ou têm conexão com a nossa cidade. O deputado de Piracicaba não pode ser despachante de Brasília em Piracicaba; ele tem que ser despachante de Piracicaba em Brasília.
O que eu vou fazer de diferente é simples, está na rastreabilidade. Os recursos virão com critério e transparência, fortalecendo as Instituições e o Terceiro Setor, de forma responsável. Sem dúvida, a Santa Casa e o Hospital da Cana estão entre as prioridades.
É importante destacar que muito além das emendas, um bom deputado ou uma boa deputada deve usar a potente estrutura técnica do Congresso para pesquisas, elaboração de proposituras e apoio a bons projetos de lei que já se encontram em tramitação. O espaço eletivo nos dá voz e deve servir também como ponto de apoio para as demandas do nosso município e região, para as pautas que defendemos, para fiscalização e acompanhamento do orçamento da União.
A agricultura familiar e o desenvolvimento rural são algumas das principais bandeiras de sua trajetória. Se eleita, quais medidas pretende defender no Congresso para fortalecer os pequenos produtores e garantir mais renda e segurança alimentar?
Sou engenheira agrônoma e quando falo em agricultura familiar e renda, falo de uma vida dedicada à área. Falo do apoio dado a agricultores quando estive na Universidade, no Ministério da Agricultura, na Câmara de Vereadores e à frente da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de Piracicaba.
Um país como o nosso, que tem ciência de excelência e é ponta de pesquisa em agricultura tropical, que tem diversidade de sistemas e capacidade de inovação, tem todos os ingredientes para decisões assertivas em relação aos sistemas agroalimentares.
Porém, temos desafios e estes dependem de ações políticas para conectar clima, ambiente, formação de pessoas, infraestrutura, inovação e a segurança alimentar e nutricional.
Todas as áreas são importantes e a agricultura familiar tem uma transição mais fácil para a produção orgânica e agroecológica. É a agricultura presente na mesa dos brasileiros todos os dias e que deve ser promovida e fortalecida nos municípios. Há programas federais e estaduais que precisam ter atenção especial para que isso aconteça.
Posso citar algumas medidas práticas, como o investimento na Merenda Escolar, através do PNAE - Programa Nacional de Alimentação Escolar, que por lei garante 30% de compra da agricultura familiar e que deve atualizar valores e subir de patamar. Hoje são destinados R$ 5,7 bilhões para o programa no país, mas os valores estão desatualizados.
Um outro exemplo diz respeito ao crédito. O PRONAF - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, precisa chegar aos agricultores, pois existe uma burocracia que os exclui. É preciso ajudar a resolver pendências fundiárias, ambientais e documentais e de assistência técnica permanente. Existe um paradoxo, o recurso é disponível, mas inacessível.
Meio ambiente e desenvolvimento econômico muitas vezes aparecem como temas em conflito. Como a senhora pretende conciliar preservação ambiental com geração de empregos, investimentos e crescimento econômico em cidades do interior paulista?
Essa dicotomia é ultrapassada. Em Piracicaba já provamos que é possível trabalhar meio ambiente e desenvolvimento econômico de forma integrada. Implementamos várias políticas públicas quando estive à frente da Secretaria de Agricultura, conciliando as duas áreas.
Meio ambiente não é obstáculo para emprego, é condição para emprego que dura. O emprego que destrói a água, por exemplo, tem prazo de validade. Piracicaba tem tudo para ser polo nacional da bioeconomia.
Cometemos o erro no século XX ao tratar o meio ambiente como paisagem bonita de domingo. Meio ambiente é infraestrutura. Tão infraestrutura quanto uma rodovia. Sem a mata ciliar do Corumbataí, do Jaguari e do Atibaia, não há água para Piracicaba, Campinas e São Paulo. Sem o solo vivo, não há produtividade.
Precisamos fortalecer programas como o de Pagamento por Serviços Ambientais, em escala nacional.
A senhora também tem uma trajetória ligada à defesa das mulheres e à participação feminina na política. Que políticas nacionais considera prioritárias hoje para combater a violência contra a mulher e ampliar a presença feminina nos espaços de decisão?
Sim, sempre me incomodou a sub-representação das mulheres nos espaços de poder e decisão. Há uma distorção histórica e cultural a ser corrigida. A ausência do nosso jeito de ver e perceber o mundo faz falta não só às mulheres, mas a toda a sociedade.
Fui autora e a primeira presidente da Procuradoria Especial da Mulher da Câmara de Piracicaba. Eu sei que o boletim de ocorrência não basta. Também fui autora da lei municipal Nº 9.182, de 19 de junho de 2019, que dispõe sobre as diretrizes para a política de enfrentamento à violência contra a mulher e consolidação da rede de prevenção, atendimento e proteção à mulher no Município de Piracicaba.
Falar na esfera federal só muda a escala, pois entendo que precisamos pensar as políticas públicas em rede, com diálogo e envolvendo todas as instituições. As áreas não são isoladas, mas interdependentes e transversais.
No Congresso podemos colocar a prioridade do orçamento, pois não existe combate à violência sem dinheiro carimbado. Vou defender metodologia obrigatória para acompanhar quanto de cada ministério vai de fato para política de mulheres. Outro ponto importante é a autonomia econômica, pois a mmulher que depende do agressor para comer não sai do ciclo.
São eixos importantes: a democracia participativa, o desenvolvimento econômico, a segurança alimentar e nutricional e políticas que promovam a justiça social e a igualdade.
A senhora já foi vereadora e secretária municipal. O que essa experiência na administração pública ensinou que pretende levar para Brasília? E qual seria a primeira pauta de Piracicaba que gostaria de colocar em discussão na Câmara dos Deputados?
É muito interessante ter a experiência no legislativo e no executivo. O legislativo me ensinou a ouvir, a fiscalizar. No executivo, aprendi a ter velocidade, a cuidar do orçamento, a implementar as políticas públicas.
As duas experiências juntas trazem uma forma mais real para atuar no espaço público.
Tenho algumas pautas prioritárias, como: segurança alimentar e nutricional, meio ambiente, fortalecimento das mulheres e educação cidadã. São pautas que se comunicam e que trazem outros temas.
Portanto, o primeiro ato será o de pesquisar as legislações, os projetos, orçamentos relativos aos temas citados.