21 de setembro de 2026
ARTIGO

Pacato cidadão

Por Edson Rontani Júnior |
| Tempo de leitura: 3 min

Era um dos mais pacatos que conheci. Levantava durante a semana às 8 horas e aos finais de semana estava com os olhos estalados na cama já às 5h30. Tinha suas regras e era conhecido como metódico. Tomava café sempre no mesmo lugar. Pegava os mesmos trajetos por décadas, conhecendo-as melhor que na palma de sua mão. “Opa ! Consertaram o buraco que estava aqui havia meses”, pensou certa feita. “Pintaram esta casa. Nem a percebia mais; porém a tinta a realçou e chamou minha atenção; nunca tinha prestado atenção nela”, pensou, também. 

Um dia, ia ao trabalho por uma rua. No outro pegava outra rua. Pensava que, assim, a rotina nunca o entediaria. Ia sempre aos mesmos restaurantes pois já os conhecia e gostava de evitar surpresas desagradáveis. Um cidadão simples, sem muitos anseios, mas de bom gosto, quase um bon vivant, que buscava na vida um sentido. Dizia que a mente vazia não era a casa do diabo e sim da depressão, das neuras e do tédio. Fazia todo dia as palavras cruzadas estampadas no jornal. Sim ! Este cidadão ainda se informava pelos jornais, uma de suas principais paixões.  

Nada de “Strangers Things” ou “The Office”, nada de Netflix. Gostava de ler no papel. Ficava horas no quintal de sua casa debulhando os clássicos de Edgard Allan Poe, Nataniel Howthorne, Ray Bradbury e outros. Na TV preferia o que considerava magnífico: Stanley Kubrick, Roger Corman, Frank Capra, George Stevens, Howard Hawks, William Wyler e até Fritz Lang. Via e revia. Não deixava de se atualizar com os lançamentos para mexer a massa cinzenta e não ficar desatualizado. “Afinal, preciso ter assunto para a conversa durante o churrasco no final de semana”, pensou mais uma vez. 

Ia no Mercado Municipal sempre. Sempre nos mesmos boxes. Tomava café no mesmo local. Reclamava dos preços. Passava pelas bancas para conferir promoções. Como elas não vinham e era iminente a necessidade de repor os perecíveis, fazia a feira que daria para uns dez dias. “Mas o preço do filhote não baixou ainda; peixe anda caro”, titubeou. 

Parou e pensou sobre o sentido da vida. Pensamentos pacatos que nem todo cidadão faz. Ficou triste. Parou e pensou na sociedade rindo dele, uma pessoa simples que segue as regras sem questionar. “Tolo ! Manipulado ! Trouxa ! Guiado”, foram os temos que lhe vieram a mente falados pelos amigos. Sentiu-se enganado por ser honesto.  

Era o cara que vivia com o penteado impecável num cabelo liso fora de moda. Usava lenço na calça jeans e o pente Condor do qual muitos caçoavam. Espécie em extinção ! 

Lembrou de Geraldo Vandré cantando na Rádio Difusora FM lá por 1981 : “caminhando e cantando, seguindo a canção”. E vamos em frente. Veio-lhe à mente outra canção de dez anos antes, criada por Chico Buarque de Hollanda, a velha “Construção”: “amou daquela vez como se fosse a única (...), por me deixar respirar, por me deixar existir”, sabendo que o amanhã poderia não vir. 

Lembrou de Gregor Samsa, a barata gigante criada pro Franz Kafka em “Metamorfose”. Embrião de um mundo intransigente diante de um inseto gigante que precisa ser escondido da sociedade por ser asqueroso. Pensamento que se esvai rapidamente como o fechar das cortinas de um teatro. Assim, entra outro ato. 

Nosso pacato amigo evitava falar de futebol, religião e futebol, temas que considerava controversos e que alongariam uma discussão que era para ser rápida.  

Conhecia superficialmente sua vizinhança a qual cumprimentava com um seco bom dia ou boa tarde. Não gostava de intimidade. Avaro de gentilezas, era o próprio “bicho grilo” que espelhava a sociedade. Com uma saciedade incontrolável, devorava-se (a si mesmo) como o objeto de admiração ou repulsa. Ego brigando com seu alterego. O certo é que muitos não o entendiam assim como alguns não entenderam esse texto. 

Mas, resumindo, assim era o pacato cidadão. Ninguém o conhecia ou o reconhecia. Era o espelho de todos na sociedade.