21 de setembro de 2026
ARTIGO

Sua pressão não mudou. Mas como olhamos para ela sim.

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min

Durante muitos anos, 12 por 8 foi quase uma frase de tranquilidade. Eu lembro minha avó medindo e se estava 12/8 quer dizer que isso dizia que estava coma saúde em dia.  

Você media a pressão, aparecia 120/80 mmHg e alguém dizia: “Está ótima”. Era um daqueles números que aprendemos sem saber exatamente por quê. 

Só que a medicina não para de observar. 

A nova  Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 passou a colocar valores de pressão sistólica entre 120 e 139 mmHg ou diastólica entre 80 e 89 mmHg na categoria de pré-hipertensão sabia? 

Isso não significa que uma pessoa com 12 por 8 tenha se tornado hipertensa de repente. O diagnóstico de hipertensão no consultório continua sendo estabelecido a partir de valores persistentes iguais ou superiores a 140/90 mmHg. 

Parece confuso, mas pense em uma estrada. 

Não existe uma placa dizendo: “Até aqui seu coração está completamente seguro. Um passo depois começa o perigo”.  

O risco cardiovascular vai aumentando aos poucos conforme a pressão sobe. 

Essa ideia aparece de maneira muito clara no artigo científico “Age-Specific Relevance of Usual Blood Pressure to Vascular Mortality: A Meta-Analysis of Individual Data for One Million Adults in 61 Prospective Studies”, publicado recentemente  no periódico The Lancet.  

Os pesquisadores analisaram dados de cerca de 1 milhão de adultos e observaram uma relação contínua entre pressão arterial e mortalidade vascular.  

Entre pessoas de 40 a 69 anos, cada aumento de 20 mmHg na pressão sistólica ou 10 mmHg na diastólica esteve associado a aproximadamente o dobro do risco de morte por AVC e outras causas vasculares. 

É justamente aí que a palavra “pré-hipertensão” ganha sentido. 

Ela não quer dizer doença. Quer dizer: vamos prestar atenção antes que ela apareça. Entendeu? 

Imagine duas pessoas com pressão de 12 por 8. Uma é ativa, dorme bem, não fuma e apresenta bons exames. A outra é sedentária, está acima do peso, fuma, tem diabetes e histórico familiar de doença cardiovascular.  

O aparelho mostrou os mesmos números. A história contada por eles não é a mesma com relação a saúde. 

E existe outra coisa importante: uma medida isolada também não conta toda a história. Você pode ter dormido mal, tomado café, chegado correndo ao consultório ou simplesmente estar nervoso. Por isso existem medidas repetidas e, quando necessário, aparelhos que acompanham a pressão fora do consultório médico. 

Talvez o mais interessante dessa mudança seja perceber que prevenção não começa quando aparece a doença. 

Começa antes. 

E aqui entra algo que defendo há muitos anos: movimento também é tratamento. E os médicos vêem isso ao recomendar a atividade física.  

Exercício regular ajuda no controle da pressão arterial, do peso, da glicemia e de vários outros fatores que participam do risco cardiovascular. 

Não precisamos esperar o corpo gritar para começar a cuidar dele. 

Então, da próxima vez que alguém disser orgulhoso “minha pressão é 12 por 8”, não há motivo para pânico. 

Talvez exista apenas uma pergunta melhor: 

O que você está fazendo hoje para que ela continue assim pelos próximos vinte anos? 

Porque um número pode mostrar como você está agora. 

Seus hábitos ajudam a escrever o que acontecerá depois e anos mais tarde.  

Até a próxima.