16 de setembro de 2026
ARTIGO

A largada que não aconteceu

Por Roberta Maciel |
| Tempo de leitura: 3 min

Como já diria Ariano Suassuna, “tudo o que é ruim de passar é bom de contar”. 

Corro há mais de uma década. Nesse período, já foram algumas boas dezenas de provas, desde as mais simples até aquelas que exigiram um pouco mais de força, resistência e preparação. Mas, com o passar dos anos, e a chegada de dois filhos, participar de uma corrida deixou de depender apenas de calçar um tênis e ir para a rua. 

Toda prova exige uma verdadeira operação logística. É preciso conciliar os treinos com o trabalho, a maternidade e tantas outras funções relacionadas à vida moderna. Por isso, normalmente escolho apenas uma prova por ano. 

Em 2026, escolhi correr na minha própria cidade, Piracicaba. Seriam 21 quilômetros. A distância não era propriamente uma novidade: aquela seria minha oitava meia maratona. Ainda assim, cada prova representa um novo desafio. Finalmente chegou o tão aguardado domingo. 

A largada estava prevista para as quatro horas da manhã, um horário bastante atípico. Acordei por volta das duas, cuidei da alimentação e me preparei, saí com antecedência. Às 3h20, eu já estava no local. 

O ambiente de uma corrida é sempre especial. Existe uma energia difícil de explicar: pessoas diferentes, com histórias e objetivos distintos, reunidas antes do amanhecer para enfrentar o mesmo percurso. 

Para quem nunca participou de uma corrida de rua, recomendo fortemente a experiência. 

Os minutos foram passando e o horário da largada se aproximou. Entretanto, não houve a tradicional contagem regressiva. Ninguém gritou “dez, nove, oito...”. Às quatro horas, nada aconteceu. Depois vieram 4h01, 4h02, 4h03. Os atletas começaram a se olhar, tentando entender o que estava acontecendo. 

Por volta das 4h05, recebemos o primeiro aviso: estava tudo sob controle e a prova atrasaria apenas um pouco. Algum tempo depois, veio uma nova informação: a largada havia sido remarcada para as cinco horas. 

E lá ficamos nós, esperando. 

Próximo das cinco horas, voltamos a nos posicionar no local da largada. Cinco horas chegaram e, novamente, nada aconteceu. Por volta das 5h02 ou 5h03, veio o anúncio definitivo: a prova havia sido embargada. 

Depois de meses de preparação, de acordar às duas horas da manhã e de esperar por quase duas horas, não haveria prova. 

Houve algumas vaias, poucas, considerando o tamanho da frustração. Parte dos corredores resolveu iniciar o percurso por conta própria e correr livremente seus 21 ou 42k . Eu não, decidi voltar para casa. 

Naquele momento, não adiantaria espernear, forçar uma largada, invadir uma tenda para pegar uma medalha ou tentar transformar aquela manhã em algo que ela já não poderia ser. A medalha não representaria a prova. A realidade, por mais frustrante que fosse, estava posta. 

E foi justamente essa experiência, tão ruim de passar, que depois se tornou boa de contar. 

Na vida profissional também é assim. Podemos estudar, planejar, preparar uma negociação, estruturar um projeto e fazer rigorosamente tudo o que estiver ao nosso alcance. Ainda assim, existem decisões, acontecimentos e circunstâncias que não dependem exclusivamente de nós. 

Nessas horas, é natural sentir vontade de protestar contra a realidade. Mas nem toda insistência é perseverança. Em alguns momentos, continuar tentando abrir uma porta definitivamente fechada apenas prolonga o desgaste. 

Aceitar não significa concordar, abandonar objetivos ou deixar de exigir responsabilidades. Significa reconhecer o fato presente, respirar e decidir com lucidez o próximo passo. Talvez seja procurar outra prova, outro projeto, outro caso, outro processo ou simplesmente outro caminho. 

Eu estava preparada para correr 21 quilômetros, mas, naquela manhã, a largada não aconteceu. Planejar é necessário. Aceitar o imprevisto também. Afinal, mudar os planos, muitas vezes, também faz parte do plano.