16 de setembro de 2026
ARTIGO

Não fale mal do Judas porque a turma dele é muito boa

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Jaguar deixou uma frase que envelheceu sem perder o frescor: "Não fale mal do Judas porque a turma dele é muito boa." A graça está justamente no recado escondido. Judas ficou conhecido como o traidor da história, mas traição nunca foi esporte individual. Sempre existe uma torcida, um financiador, quem organize o espetáculo, quem lave as mãos e quem depois diga que não sabia de nada. 

As famosas trinta moedas de prata nunca compraram apenas um homem. Compraram uma oportunidade. Judas virou o rosto da traição, enquanto sua turma quase desapareceu da memória. Condenar um personagem é confortável; difícil é apontar todos os que ajudaram a construir o enredo. 

Os séculos passaram, as moedas cresceram e ganharam muitos zeros. Hoje já se fala em cifras como 42 bilhões. O dinheiro mudou de tamanho, a engenharia financeira ficou sofisticada, mas a velha tentação continua oferecendo excelentes oportunidades para quem acredita que toda consciência tem preço. 

O nome de Daniel Vorcaro entrou nesse debate cercado de versões, defensores e críticos. Como acontece em grandes casos, rapidamente surgem as torcidas organizadas. Uns enxergam um empresário perseguido; outros, um símbolo do poder financeiro. Ao redor do personagem aparecem banqueiros, investidores, advogados, políticos, autoridades, reguladores, comunicadores e interesses diversos. A turma nunca é pequena. 

A comparação com Judas não pretende igualar pessoas nem processos. Serve para mostrar que, em qualquer época, o protagonista costuma concentrar toda a culpa, enquanto seus parceiros permanecem discretamente protegidos. O foco ilumina um rosto e deixa o restante do palco na penumbra. 

Na política acontece algo parecido. Traem-se promessas, partidos, aliados, princípios e, principalmente, eleitores. As trinta moedas mudaram de aparência. Podem surgir em cargos, verbas, favores, contratos, influência, crédito, prestígio ou proteção. O metal virou sistema. 

Também existe o herói que jamais consegue fugir do texto nem do contexto. A narrativa escolhe quem será o vilão, quem será o salvador e quem ficará invisível. Depois cada torcida trata de completar o roteiro conforme seus interesses. 

Comparar trinta moedas com quarenta e dois bilhões não significa igualar fatos ou situações jurídicas. O paralelo está no significado simbólico. Ontem e hoje, o dinheiro continua sendo um poderoso instrumento para aproximar interesses, afastar responsabilidades e testar consciências. 

Talvez Jaguar desse outra gargalhada ao perceber que sua frase continua atual. Falar mal apenas do Judas é um excelente negócio para sua turma. Enquanto todos apontam para o traidor, poucos perguntam quem contou o dinheiro, quem autorizou o pagamento, quem protegeu os envolvidos e quem saiu lucrando. 

No fim das contas, a turma do Judas nunca desapareceu. Apenas trocou as sandálias por sapatos italianos, as bolsas de moedas por planilhas bilionárias, os cochichos por notas oficiais e os becos pelos corredores climatizados do poder. Os protagonistas mudam, as narrativas ganham maquiagem nova, mas a receita permanece quase a mesma. 

E, como toda receita repetida, quase sempre termina em pizza queimada. Queimada porque passou do ponto da paciência popular; amarga porque a conta sobra para quem trabalha; indigesta porque seus ingredientes continuam sendo dinheiro, influência, proteção e impunidade. Talvez Jaguar repetisse sua frase mais uma vez. Quando todos dividem a culpa, ninguém responde por ela. Mas quando se identifica quem traiu, quem pagou, quem protegeu e quem lucrou, a pizza deixa de ser servida e a velha turma perde, finalmente, o apetite.