11 de setembro de 2026
MARLY PERECIN

'Piracicaba escolheu a capivara, mas deveria lembrar da onça'

Por Nani Camargo |
| Tempo de leitura: 8 min
Will Baldine
Marly Therezinha Germano Perecin com o mapa de Piracicaba

A escolha de uma capivara como símbolo de Piracicaba para um novo monumento público não convence a escritora e pesquisadora Marly Therezinha Germano Perecin. Reconhecida como uma das principais especialistas em História Regional Paulista, ela defende que a cidade possui uma trajetória e uma relação com a fauna muito mais complexas do que a imagem do animal que se tornou popular às margens do rio.
Para Marly, a onça-pintada, registrada em documentos históricos como um dos principais animais dos sertões piracicabanos, teria muito mais significado como representação da história local. “Este sim, pela sua beleza e majestade merece ser lembrado”, afirma.
Em entrevista ao Jornal de Piracicaba, Marly também questiona versões consolidadas sobre a fundação da cidade, a presença indígena no território, a chamada Casa do Povoador e até expressões tradicionalmente associadas a Piracicaba. Para ela, parte da memória local ainda é construída sobre informações repetidas ao longo dos anos sem a devida comprovação documental. “O achismo é a praga da história científica”, resume.


**Professora Marly, para compreender a Piracicaba de hoje é preciso voltar às suas origens. Como era o território onde atualmente está o município quando os primeiros colonizadores chegaram? Que características tinha essa paisagem?**
A paisagem era dos sertões de Itu, que se estendiam por Capivari e chegavam ao seu último bairro rural, Piracicaba. Tudo no velho Centro-Oeste da Capitania de São Paulo.

**E que fauna ocupava esse território naquele período? Quais eram os principais animais encontrados na região e às margens do rio Piracicaba?**
 O mapa que apresento mostra Piracicaba como Freguesia de Itu no ano de 1818, 57 anos após a fundação. Trata-se de uma cópia de cartório que me foi cedida pelo antigo pesquisador Jair de Oliveira. Nele constam relevo, hidrografia, rumos do sertão, algumas propriedades rurais e os espécimes principais da fauna local, destacando-se a onça-pintada (Félix onca,), animal de grande porte que reinava absoluta na Mata Atlântica dos nossos sertões. Além dela, havia e nos chega até o presente a onça-parda, juntamente com outros animais, o tatu-canastra, a anta, a capivara, os veados, os macacos e os répteis.

**A senhora menciona, em seu trabalho, a presença da onça-pintada e sua importância dentro daquele ecossistema. O que os registros históricos nos revelam sobre a presença desse animal no território piracicabano?**
A documentação mostra a presença da onça-pintada entre os principais espécimes da fauna local. Era um animal de grande porte que reinava absoluta na Mata Atlântica dos nossos sertões.

**Existe uma questão importante sobre a própria ocupação da cidade: qual margem do rio Piracicaba foi efetivamente ocupada primeiro pelos colonizadores e por que houve a transferência da povoação para a outra margem?*
A primeira tentativa de ocupação dos sertões de Piracicaba ocorreu em 1723, quando se abriu o caminho de Itu, através da mata, para cá. O objetivo era fazer a estrada para Mato Grosso, projeto que, depois de pronto, foi proibido pelo rei. Deste movimento de interiorização, nasceu a sesmaria de Felipe Cardoso, abrangendo as duas margens do rio Piracicaba. O seu estabelecimento era na margem direita do rio. Prosperou e, alguns anos depois, entrou em decadência, ficando o local abandonado, talvez com alguns indivíduos remanescentes. Foi nesse local que Barbosa, Antônio Corrêa, fundou a povoação de Piracicaba, em 1767. Esta segunda tentativa povoadora também fracassou, sendo necessária uma terceira tentativa, já na margem esquerda do rio. Esse projeto deu certo porque o Capitão-mor de Itu trouxe a fronteira agrícola e os fazendeiros para Piracicaba. O núcleo estável prosperou e, em 1822, se converteu em Vila Nova da Constituição.

**E antes da chegada e instalação dos colonizadores, havia povos indígenas vivendo na região? Quem eram esses indígenas? A que etnias pertenciam?**
Os sertões do Oeste Paulista já estavam desocupados da população indígena por efeito da ação predadora dos sertanistas de São Paulo. Houve verdadeiro genocídio nos sertões sobre a grande população tupi-guarani, os seus habitantes ancestrais, escravizados ou mortos pelo contágio das enfermidades dos brancos. A partir dos primeiros anos do século XVII, não havia mais ninguém, salvo no baixo Tietê. O fato permitiu o avanço dos primeiros povoadores procedentes de Itu, Santana de Parnaíba e São Paulo, nem todos concentrados em comunidades. A maior parte vivia dispersa em pequenas propriedades, muitos receberam sesmarias. Não se pode confundir os habitantes indígenas do grande planalto paulista, todos da etnia tupi-guarani, com os demais, caiapós, paiaguás e guaicurus, de outro grupo étnico. Os nossos indígenas pertenciam à etnia tupi-guarani. Desconhecemos o nome local por que eram chamados, mas sabemos que no sertão ituano habitavam os Guaianases. Devem ser todos aparentados.

**Há uma diferença importante entre os indígenas que já habitavam esse território e aqueles que, posteriormente, foram trazidos de outras regiões para trabalhar. O que se sabe sobre a presença indígena em Piracicaba nesse período? Houve utilização de indígenas como mão de obra na formação da povoação?**
Os indígenas trazidos a Piracicaba por Barbosa, em 1767, para trabalhar no estaleiro, eram carijós, apresados no Paraná e também pertencentes ao grande grupo tupi-guarani. Muitos deles constam dos censos antigos como povoadores locais, nos tempos da Freguesia. 

**Outro ponto que costuma despertar dúvidas é a chamada Casa do Povoador. A construção que conhecemos hoje é realmente contemporânea à chegada de Antônio Corrêa Barbosa ou é posterior ao período da fundação?**
Nunca foi residência do Capitão Antônio Corrêa Barbosa. Este jamais saiu da margem direita, que se tornou patrimônio da família. O edifício em questão foi construído entre 1824 e 1834, aproximadamente, destinando-se à serventia e aos trabalhos das pontes levantadas sobre o rio. Sabemos que naquele local foram construídas três pontes, que as colossais enchentes danificavam anualmente.

**Se a Casa do Povoador não foi, de fato, comprovadamente a residência de Antônio Corrêa Barbosa, de onde surgiu esse nome e por que ele acabou se consolidando no imaginário piracicabano?**
Esse apelido nasceu no século XX, após o sucesso do livro de Mário Neme sobre a fundação de Piracicaba. Poucos leram, mas o comentário foi imenso. Ao lado daquele edifício havia outros bem antigos e hoje desaparecidos. Toda a ladeira que vai até o Palacete Boyes era ocupada com velhas construções de um período correspondente a 1784 em diante, e que foram desabando com o tempo. Aquela construção intrigava e, por falta de pesquisa, mas por associação com o livro, que pela primeira vez abordava as origens da cidade, passou-se a achar que seria a morada mais antiga de Piracicaba. O achismo é a praga da história científica. É mais fácil achar do que partir em busca trabalhosa da verdade.

**A senhora fez uma crítica à escolha da capivara como elemento de um monumento público, justamente por entender que Piracicaba possui uma história e uma fauna muito mais complexas. Na sua avaliação, o que deveria ser levado em consideração quando se escolhe um símbolo para representar historicamente uma cidade?**
A escolha infeliz da capivara para um monumento urbano se põe em contradição com a prova documental sobre a onça. Lembremos que o rio Piracicaba nasce na Mantiqueira e, ao descer, toma o nome de Jaguari, rio do jaguar. Só depois que entra no Planalto e recebe o Atibaia é que passa a chamar-se Piracicaba. Por quê? Uma curiosidade sobre os povos indígenas é o respeito à Geografia e aos seus acidentes notáveis. Vamos ao verdadeiro significado de Piracicaba: local onde o rio se despeja com violência sobre a escadaria de uma pedreira. Onde houver cachoeiras sobre um piso em degraus, existirá uma piracicaba, assim como tantas no Brasil. Voltemos, portanto, ao jaguar, que reinava soberano nos sertões de Piracicaba. Este sim, pela sua beleza e majestade, merece ser lembrado. Não tenho nada contra a simpática capivara, embora possa ser portadora do carrapato-estrela, fatal. Pior, a construção de um monumento a um animal que só nos últimos anos teve algum destaque pelo mal que causa e que se multiplica, que invade os espaços dos restaurantes à noite e que não tem o menor significado. Por que isso? A quem devemos essa péssima ideia a preço de R$ 35 mil? A cidade não terá outras necessidades mais dignas e urgentes?

**Mais do que discutir a escultura, gostaria de aproveitar seu conhecimento para ajudar o leitor a olhar para Piracicaba de outra maneira: qual aspecto da nossa história a senhora considera especialmente desconhecido ou mal compreendido pelos próprios piracicabanos?**
A história de Piracicaba somente se tornou científica com a professora Maria Celestina Teixeira Mendes, que foi a discípula mais brilhante do historiador Fernand Baudel, em 1934. É, portanto, recente. Há muito o que descobrir, pesquisar, construir em cima da documentação de diversos arquivos nacionais e estrangeiros. Porém, há muito mais para corrigir da parte daqueles que repetem os erros e que não gostam de buscar a verdade, por comodismo e achismo. Há verdadeiras calamidades reproduzidas cotidianamente.

**E, se a senhora pudesse formular uma pergunta que todo piracicabano deveria fazer a si mesmo sobre a história da cidade — e que talvez nunca tenha feito — qual seria essa pergunta? E qual seria a resposta?**
Por que os piracicabanos repetem tantos erros da nossa história? Por exemplo, os índios de Piracicaba foram caiapós e paiaguás, quando só tivemos tupi-guaranis? Por que falam Atenas Paulista quando foi escrito Ateneu Paulista, cidade de escolas, no Livro d'Oro Dello Stato di San Paolo? Por que falam Casa do Povoador se foi unicamente casa da ponte? Já escrevi rios sobre essas correções. Já falei até demais, em aulas e palestras. Nada me entristece mais do que ler continuamente essas malfadadas repetições de erros que desrespeitam a nossa História.