Uma pesquisa recente sobre as prioridades do eleitor brasileiro diante das mudanças no mundo do trabalho mostra que a relação com o emprego está ficando mais complexa. A estabilidade ainda aparece em primeiro lugar, sendo apontada por 21,3% dos entrevistados. Mas a autonomia e a possibilidade de trabalhar por conta própria aparecem logo atrás, com 16,2%, enquanto 13,1% valorizam a liberdade para definir os próprios horários. Mais do que uma escolha entre a CLT e as novas formas de trabalho, o que aparece é a tentativa de conciliar segurança com liberdade.
Isso ajuda a entender algumas das discussões que ganharam força nos últimos anos. O debate sobre a escala 6x1, por exemplo, não trata apenas de dias trabalhados, mas do tempo que sobra para viver depois do expediente. A tecnologia e os aplicativos também mudaram a relação das pessoas com o trabalho.
Quem trabalha por conta própria ou por aplicativo pode valorizar a liberdade de escolher seus horários, mas isso não significa que queira abrir mão de qualquer proteção.
Também mudou a forma como muita gente avalia um emprego. O salário continua sendo fundamental, mas já não está sozinho nessa conta. Benefícios, descanso, possibilidade de conciliar trabalho e vida pessoal e maior autonomia sobre a jornada também aparecem entre as prioridades. A carteira assinada continua valorizada, mas já não é vista necessariamente como resposta para todas as necessidades de quem trabalha.
A política, porém, ainda costuma tratar esse assunto como uma disputa entre dois lados. De um lado, direitos e proteção. Do outro, liberdade econômica e empreendedorismo. A realidade não é tão simples. A mesma pessoa pode querer carteira assinada e flexibilidade, estabilidade e autonomia. Pode defender direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo, considerar que algumas relações de trabalho precisam de mais liberdade.
Essa realidade pode ganhar peso em 2026. O eleitor que trabalha por aplicativo, presta serviços por conta própria ou combina diferentes fontes de renda já não se encaixa facilmente nas categorias tradicionais do debate político. Pode valorizar direitos trabalhistas sem rejeitar o empreendedorismo, ou defender mais liberdade nas relações de trabalho sem abrir mão de alguma proteção. Para quem disputa seu voto, entender essa combinação será mais importante do que tentar colocá-lo em um dos lados.
A CLT continua importante e protege milhões de brasileiros, mas já não é capaz de traduzir sozinha a diversidade das relações de trabalho de hoje. Da mesma forma, chamar todo trabalhador de aplicativo de empreendedor também não resolve a questão. Há uma realidade entre esses dois modelos, formada por quem alterna empregos, presta serviços, empreende ou encontra nos aplicativos uma fonte de renda. São trabalhadores que não necessariamente querem escolher um lado, mas procuram alguma previsibilidade sem abrir mão de conduzir a própria vida profissional.
Durante muito tempo, a vida foi organizada ao redor do relógio do trabalho. O despertador toca, a jornada começa, o trânsito leva uma parte do dia, o expediente termina e, quando se percebe, pouco restou além do cansaço. A estabilidade era a recompensa por aceitar essa rotina como parte do jogo. Está surgindo outra medida para o que significa trabalhar bem: não apenas o salário que chega no fim do mês, mas a quantidade de vida que não precisa ser sacrificada para recebê-lo.
Clovis Vaz é empresário de comunicação e consultor político.