O arquiteto e urbanista Marcelo Guidotti, de 38 anos, é o atual presidente da Comissão de Defesa do Patrimônio Histórico. Criada pelo IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba), essa comissão tem como objetivo contribuir de forma institucional, organizada, técnica e permanente com a preservação e a valorização do patrimônio histórico e cultural de Piracicaba.
O grupo é composto por seis especialistas de áreas complementares, como arquitetura, história e arqueologia, que trabalham de maneira independente e sem vínculo político-partidário. O foco inicial do trabalho consiste em mapear e documentar monumentos públicos para estruturar um Dossiê Técnico detalhado, cujo objetivo é subsidiar o diálogo com a Prefeitura e o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (CODEPAC) por meio de soluções práticas.
O conceito de preservação defendido pelo comitê vai além da restauração física, priorizando o conhecimento profundo, a documentação histórica e a manutenção preventiva para evitar intervenções complexas no futuro. Atualmente, o município conta com mais de uma centena de registros tombados em nível municipal, estadual e federal, englobando marcos arquitetônicos e industriais como o Engenho Central, Monte Alegre e a ESALQ.
A atuação da comissão também abraça o patrimônio imaterial local, simbolizado pela Festa do Divino, pela pesca artesanal no rio Piracicaba e pelo tradicional sotaque caipira. Para os próximos meses, a comissão planeja expandir gradualmente suas pesquisas para os patrimônios arquitetônico e cemiterial, buscando também dar visibilidade a memórias historicamente marginalizadas, como as de origens negra, indígena, operária e popular.
O planejamento inclui o desenvolvimento de cooperações com universidades e empresas, além de ações educativas e um programa de adoção de monumentos. O objetivo final é transformar o diagnóstico técnico em ferramentas sociais efetivas que ajudem a comunidade a compreender sua própria formação e a decidir quais memórias deseja transmitir para as futuras gerações.
O arquiteto e urbanista, que é bisneto do icônico ex-prefeito de Piracicaba, Luciano Guidotti, conta que todo esse trabalho “envolve conhecer o bem, documentar sua história e suas características, fazer manutenção, acompanhar seu estado de conservação e agir preventivamente para evitar que pequenos problemas se transformem em perdas maiores”, define.
O presidente da Comissão entende que preservar o patrimônio histórico é ver esses “lugares como fragmentos da alma e da memória da cidade”. “Um edifício, uma praça, um monumento, uma ponte ou mesmo uma paisagem carregam marcas de quem viveu aqui, de como Piracicaba se transformou e das pessoas, acontecimentos e comunidades que ajudaram a construir sua identidade”. Leia, abaixo, a entrevista na íntegra.
Você é presidente de uma comissão para defesa do patrimônio histórico de Piracicaba. O que faz, basicamente, essa comissão e quantas pessoas fazem parte? A Comissão de Defesa do Patrimônio Histórico foi criada pelo IHGP para contribuir de forma institucional, organizada, técnica e permanente com a preservação e a valorização do patrimônio histórico e cultural de Piracicaba. A Comissão é formada por seis integrantes, entre profissionais e pesquisadores de áreas diferentes e complementares, como arquitetura e urbanismo, história, arqueologia, pesquisa, memória e acervos. Essa diversidade é muito importante porque o patrimônio envolve diferentes olhares e conhecimentos. Nosso papel é estudar, documentar, acompanhar e propor ações relacionadas à preservação, sempre de maneira técnica, independente e propositiva, buscando colaborar com o poder público e com a sociedade. Integram a Comissão Marcelo Guidotti, Cayo Murillo Casarim Cassiano, Lucas Lopes Magioli, Mauricio Fernando Stenico Beraldo, Paulo Renato Tot Pinto e Valdiza Maria Capranico. O presidente do IHGP, Alexandre Sarkis Neder, e os diretores Edson Rontani Junior e Leandro Antônio Pavan não integram a Comissão, mas têm dado muito apoio ao nosso trabalho. Essa postura institucional, construtiva e colaborativa, sem caráter político-partidário, está entre as diretrizes estabelecidas desde o início dos trabalhos.
Como é esse trabalho de preservação e restauração do patrimônio histórico de Piracicaba? Acho importante primeiro fazer uma distinção: preservar não é simplesmente restaurar. A preservação começa muito antes de uma grande intervenção. Envolve conhecer o bem, documentar sua história e suas características, fazer manutenção, acompanhar seu estado de conservação e agir preventivamente para evitar que pequenos problemas se transformem em perdas maiores. A restauração entra quando existe uma necessidade de intervenção mais profunda. Aí é um trabalho especializado, que exige pesquisa, diagnóstico, projeto, profissionais capacitados e muito cuidado com aquilo que é original. Cada patrimônio tem sua própria história, seus materiais e suas características. Por isso, não existe uma solução única que possa ser aplicada a todos. Muitas vezes, o melhor trabalho de preservação é justamente aquele que consegue conservar bem hoje para evitar uma restauração mais complexa amanhã.
Quais são os planos da comissão para os próximos meses? Nosso primeiro objetivo é concluir essa primeira etapa do levantamento entre o fim de setembro e o início de outubro. Já avançamos bastante nas visitas de campo e temos uma última saída prevista para o dia 26 de setembro. Paralelamente, seguimos trabalhando nas pesquisas históricas, nas fichas individuais e na organização dos registros fotográficos e documentais. A partir desse material, vamos consolidar o Dossiê Técnico da Comissão, reunindo a identificação e a história dos bens, o estado de conservação, os problemas encontrados, as prioridades e recomendações iniciais. Com esse trabalho estruturado, pretendemos apresentá-lo à Prefeitura, ao CODEPAC e aos demais órgãos responsáveis. A ideia é chegar a esse diálogo não apenas com uma relação de problemas, mas com informações organizadas, prioridades identificadas e possíveis caminhos de atuação. Queremos contribuir, somar e ajudar a construir soluções. Nosso papel é oferecer conhecimento, documentação e capacidade de articulação, respeitando sempre as atribuições dos órgãos responsáveis e buscando qualificar esse diálogo de maneira técnica e propositiva. Esse levantamento dos monumentos em espaços públicos é apenas o primeiro recorte. Depois, a Comissão pretende ampliar gradualmente o trabalho para o patrimônio arquitetônico e cemiterial, os bens tombados, os conjuntos urbanos e outros lugares de memória. Também queremos olhar para referências que historicamente tiveram menor presença na paisagem da cidade, incluindo memórias negras, indígenas, populares e operárias, além de lugares de apagamento e histórias que deixaram poucos vestígios materiais. Paralelamente, queremos desenvolver cooperações com universidades, profissionais, empresas e instituições, além de ações de educação patrimonial, projetos-piloto para casos prioritários e possibilidades como um programa de adoção de monumentos. Nosso objetivo é que o trabalho não termine no diagnóstico, mas ajude a transformar conhecimento e prioridade em ações concretas de preservação.
Quais são os principais patrimônios históricos de Piracicaba e qual a importância deles para a história da cidade? Essa é uma pergunta particularmente complexa, porque eu teria bastante cuidado em estabelecer uma lista dos “principais”. Quando falamos em patrimônio histórico e cultural, estamos falando de algo muito mais amplo do que a relação de bens tombados. Só no âmbito municipal, a relação atualmente publicada pelo CODEPAC reúne 124 registros de imóveis e conjuntos tombados, alguns abrangendo mais de uma edificação, além de seis patrimônios imateriais registrados, entre eles a Festa do Divino, o sotaque e dialeto caipira e a pesca artesanal no rio Piracicaba. Em âmbito estadual, Piracicaba possui bens e conjuntos tombados pelo CONDEPHAAT e outros ainda em estudo de tombamento. E, em âmbito federal, a Casa de Prudente de Moraes, atual museu, é o único bem tombado pelo IPHAN em Piracicaba. Mas o tombamento é um instrumento de reconhecimento e proteção. Ele não esgota aquilo que pode ter valor patrimonial para uma cidade. Existem monumentos, edificações, paisagens, lugares de memória, práticas e tradições importantes que não estão necessariamente em uma lista oficial. E quando falamos da importância desses patrimônios, existe uma pergunta que considero fundamental: importantes para quem, e por quê? Um mesmo patrimônio pode carregar valores diferentes. Pode ter importância histórica, arquitetônica, artística, social, religiosa, afetiva, de uso ou ser uma referência essencial para a memória de determinada comunidade. E esses valores também podem mudar, se sobrepor ou ganhar novos significados ao longo das gerações. É por isso que patrimônios tão diferentes são importantes por razões distintas para compreender Piracicaba. O Engenho Central e Monte Alegre ajudam a contar a história da industrialização, do trabalho e das transformações econômicas da cidade. A ESALQ nos aproxima da agricultura, da ciência e da educação. A Casa de Prudente de Moraes remete à história política local e nacional. A Società Italiana ajuda a compreender a imigração e o associativismo. E a Igreja de São Benedito e a Sociedade Beneficente 13 de Maio, são referências fundamentais para compreender a história negra de Piracicaba, sua religiosidade, suas formas de organização social e sua presença na formação da cidade. Mas a história de Piracicaba também está no rio, no Salto, nas festas, no sotaque, nos saberes, nos modos de fazer e nas tradições transmitidas entre gerações. Muitas vezes, a importância de um patrimônio não está fundamentalmente na sua arquitetura ou na sua matéria, mas no significado que ele possui para uma comunidade. Também precisamos considerar as memórias que tiveram menor representação na paisagem oficial da cidade. As histórias negras, indígenas, operárias, populares e de outros grupos nem sempre deixaram monumentos ou vestígios materiais na mesma proporção de sua importância para a formação de Piracicaba. Às vezes, compreender o patrimônio também significa olhar para o que não está mais lá, o que foi apagado ou aquilo que durante muito tempo recebeu pouco reconhecimento. Por isso, eu evitaria escolher cinco ou dez bens e dizer que eles são “os principais patrimônios de Piracicaba”. Eles contam histórias diferentes e complementares sobre a formação da cidade. Quando reunimos patrimônio material e imaterial, aquilo que é tombado e aquilo que ainda não é, aquilo que permaneceu e até aquilo que foi apagado, começamos a compreender Piracicaba de uma maneira muito mais completa. O patrimônio é esse conjunto de lugares, práticas e memórias que ajuda a explicar quem fomos, quem somos e o que queremos transmitir às próximas gerações.
Como esses locais ajudam a preservar a memória e a identidade dos piracicabanos? Eu vejo esses lugares como fragmentos da alma e da memória da cidade. Um edifício, uma praça, um monumento, uma ponte ou mesmo uma paisagem carregam marcas de quem viveu aqui, de como Piracicaba se transformou e das pessoas, acontecimentos e comunidades que ajudaram a construir sua identidade. E o valor desses lugares não está apenas na sua idade ou na matéria que chegou até nós. Está também nos significados que foram acumulando ao longo do tempo e na relação que cada geração estabelece com eles. Um mesmo lugar pode guardar memória histórica, afetiva, artística, religiosa, social ou simplesmente fazer parte da paisagem que aprendemos a reconhecer como nossa. Quando conhecemos essas histórias, passamos a enxergar esses lugares de outra maneira. Criamos vínculo. E quando existe vínculo, existe pertencimento. Preservar, nesse sentido, é permitir que essas referências continuem atravessando o tempo e que cada geração possa reconhecê-las, compreendê-las e também atribuir a elas novos significados.
Quais critérios são utilizados para definir se um imóvel, monumento ou espaço deve ser considerado patrimônio histórico? Não existe um único critério, nem uma fórmula matemática. Ser antigo, por si só, não transforma um bem em patrimônio; da mesma forma, um patrimônio não precisa necessariamente ser monumental, raro ou arquitetonicamente sofisticado para ter importância. O primeiro ponto é compreender o que aquele bem representa, quais valores carrega e para quem ele é significativo. Pode existir um valor histórico, por estar relacionado a determinado acontecimento, personagem ou processo de formação da cidade; um valor arquitetônico, artístico ou técnico; um valor arqueológico ou paisagístico; mas também valores sociais, religiosos, simbólicos, afetivos e de memória. A própria concepção contemporânea de patrimônio trabalha com essa pluralidade de valores atribuídos aos bens pelos diferentes grupos da sociedade. Também se observa a representatividade. Às vezes um edifício é importante não porque seja único, mas porque é um bom testemunho de determinada época, modo de construir, atividade econômica ou forma de organização social. Em outros casos, pesam a raridade, a autenticidade, a integridade, a relação com o entorno e a capacidade daquele lugar de ajudar a compreender uma parte importante da história da cidade. E há uma questão que considero cada vez mais importante: que histórias aquele patrimônio nos permite contar e quais grupos ele representa? Durante muito tempo, a ideia de patrimônio esteve muito associada aos grandes edifícios, personagens e acontecimentos oficiais. Hoje existe um olhar mais amplo, que também procura reconhecer patrimônios ligados ao trabalho, à vida cotidiana, às comunidades negras e indígenas, às imigrações, à cultura popular e a outras experiências que ajudaram a formar a cidade, mas nem sempre tiveram a mesma presença na paisagem monumental. No caso de Piracicaba, a própria legislação do CODEPAC prevê a preservação de bens pelo seu valor cultural e considera, entre outras dimensões, sua importância histórica, artística, ambiental, ecológica, arqueológica e arquitetônica. O processo exige documentação e análise antes da decisão pelo tombamento ou por outra forma de proteção. Outro ponto importante é que estado de conservação e valor patrimonial são coisas diferentes. Um imóvel muito deteriorado não perde necessariamente sua importância histórica por estar em más condições. Da mesma forma, um edifício muito bem conservado não se torna patrimônio apenas por isso. Primeiro precisamos reconhecer os valores e significados daquele bem; depois se discute qual é a forma mais adequada de preservá-lo. Por isso, eu diria que a pergunta fundamental não é simplesmente “quantos anos esse prédio tem?”, mas “o que perderíamos da compreensão e da memória de Piracicaba se essa referência desaparecesse?”. Quando a resposta revela uma perda histórica, cultural, social ou simbólica relevante para a coletividade, existe um forte argumento para reconhecer e preservar aquele patrimônio.
Quantos imóveis e bens históricos de Piracicaba são atualmente tombados ou protegidos? É preciso separar as diferentes esferas de proteção, porque não existe um único número que possa ser simplesmente somado. Alguns bens aparecem em mais de uma lista. No âmbito municipal, a relação atualmente publicada pelo CODEPAC reúne 124 registros de imóveis e conjuntos tombados, lembrando que alguns abrangem mais de uma edificação ou conjuntos inteiros. O Conselho possui ainda seis patrimônios imateriais registrados, além de bens móveis protegidos. No âmbito estadual, Piracicaba possui oito bens ou conjuntos com tombamento concluído pelo CONDEPHAAT. Há ainda importantes bens e conjuntos em diferentes estágios de reconhecimento estadual, como a Estação Ferroviária da antiga Companhia Paulista, a Società Italiana, a Chácara Nazareth, a Usina Monte Alegre e seus remanescentes, a Sociedade Beneficente 13 de Maio e, mais recentemente, o Complexo Beira Rio, que compreende a antiga Boyes, o Palacete Luiz de Queiroz, a Praça Ermelinda Ottoni e o Museu da Água. Há também outros pedidos e dossiês preliminares, como o da Igreja e Irmandade de São Benedito. Em âmbito federal, a Casa de Prudente de Moraes é o único bem de Piracicaba tombado pelo IPHAN. A própria Casa de Prudente de Moraes mostra por que não podemos simplesmente somar as listas: o mesmo patrimônio possui proteção municipal, estadual e federal.
Quais são os patrimônios mais antigos ainda preservados na cidade? Quando falamos nos patrimônios mais antigos de Piracicaba, não podemos olhar apenas para os edifícios. Se ampliarmos esse olhar, os vestígios patrimoniais mais antigos preservados estão no campo da arqueologia. Muito antes da fundação oficial da cidade, em 1767, este território já era ocupado por populações indígenas. Há um conjunto importante de pesquisas arqueológicas sobre essa ocupação humana antiga, envolvendo sítios arqueológicos, fragmentos cerâmicos, artefatos líticos e outros vestígios que ajudam a reconstruir uma história muito anterior à formação da cidade. O Museu Prudente de Moraes preserva, por exemplo, uma igaçaba, urna funerária indígena de cerâmica, além de outros objetos relacionados às culturas indígenas. Já no território do município, pesquisas arqueológicas identificaram fragmentos cerâmicos, instrumentos de pedra e outros materiais. No Engenho Central, inclusive, escavações encontraram vestígios indígenas no subsolo, revelando diferentes camadas de ocupação daquele espaço. Por isso, acho importante dizer que a história de Piracicaba não começa em 1767. A fundação oficial é um marco fundamental, mas existe uma história humana muito anterior neste território. No patrimônio edificado, a Casa do Povoador certamente está entre os remanescentes mais antigos da cidade, com construção situada entre o final do século XVIII e o início do XIX, embora não exista documentação que permita estabelecer sua data com absoluta precisão. No século XIX temos ainda referências importantes como a Igreja de São Benedito, a Casa de Prudente de Moraes e o Passo do Senhor do Horto. E existe também a antiguidade das tradições. A Festa do Divino, por exemplo, possui registros em Piracicaba desde 1826 e continua sendo realizada até hoje. Então eu teria cuidado com um ranking dos “mais antigos”. Uma peça arqueológica pode nos levar a períodos muito anteriores à cidade formal; uma edificação pode preservar matéria de dois séculos atrás; e uma tradição pode sobreviver pela transmissão entre gerações. O patrimônio mais antigo de Piracicaba não está apenas naquilo que ainda está de pé, mas também no que foi encontrado no solo, no que foi preservado em acervos e no que continua vivo nas práticas e tradições da cidade.
Como está atualmente o estado de conservação dos principais patrimônios históricos de Piracicaba? Eu acho difícil fazer uma avaliação tão ampla neste momento, porque o nosso levantamento ainda está em andamento e existem situações muito diferentes dentro da cidade. Já encontramos bens em boas condições e outros que precisam de mais atenção, seja pela conservação, pela manutenção, pela segurança ou pelo próprio entorno. Por isso, mais do que fazer uma avaliação genérica sobre Piracicaba, nós preferimos primeiro conhecer e documentar essas situações com responsabilidade. Na preservação do patrimônio, existe um princípio muito importante: antes de decidir como intervir, é preciso compreender aquilo que se pretende preservar. Conhecer sua história, sua matéria, seus valores e também os riscos aos quais aquele bem está exposto. Estamos trabalhando com registros fotográficos e critérios comuns justamente para conseguir comparar os casos e identificar, com mais segurança, quais são as prioridades. Também fazemos uma distinção importante entre estado de conservação e grau de urgência. Às vezes um bem pode não ser o mais deteriorado, mas estar muito vulnerável a furto, vandalismo ou à perda de algum elemento original e, por isso, exigir atenção mais rapidamente. E existe ainda uma ideia que considero fundamental: quanto melhor conseguirmos conservar e manter preventivamente esses bens, menor será a necessidade de intervenções mais profundas no futuro.
Quais são os maiores problemas enfrentados na preservação desses espaços? Existem problemas de naturezas diferentes. Nos monumentos que estamos visitando aparecem questões relacionadas à ação do tempo, falta de manutenção preventiva, sujeira, pichações, vandalismo, furtos de placas e peças metálicas e, em alguns casos, até a perda de elementos originais. Também existem problemas no entorno, como iluminação, vigilância, sinalização, acessibilidade e manutenção dos espaços onde esses bens estão inseridos. Mas existe ainda um problema menos visível, que é o esquecimento. Uma cidade não perde sua memória de uma vez. Ela perde aos poucos. Uma placa desaparece, uma peça é furtada, um monumento deixa de ser cuidado, uma história deixa de ser contada. Depois de algum tempo, aquilo que fazia parte da paisagem pode perder o significado para quem passa por ali. Por isso, preservar também significa manter viva a história que aquele patrimônio representa.
Quem é responsável pela manutenção e fiscalização dos bens históricos? A responsabilidade é compartilhada, mas cada agente tem um papel diferente. Em primeiro lugar, a conservação e a manutenção cabem ao proprietário do bem, seja ele público ou privado. Quando o patrimônio pertence ao Município, essa responsabilidade é da Prefeitura, por meio dos órgãos competentes. A fiscalização e a autorização de intervenções dependem do nível de proteção. No âmbito municipal atua o CODEPAC; nos casos de proteção estadual ou federal, também entram o CONDEPHAAT e o IPHAN. Os vereadores e demais agentes políticos também têm papel importante na fiscalização do Executivo, na elaboração de leis, na discussão do orçamento e nas políticas públicas de preservação. E a população participa comunicando problemas, acompanhando decisões, participando dos debates e ajudando a reconhecer e valorizar esses bens. Então eu vejo a preservação como uma responsabilidade articulada: o proprietário conserva, os órgãos técnicos orientam e fiscalizam, o poder público executa políticas, o Legislativo acompanha e fiscaliza, e a sociedade participa e ajuda a manter viva a relação da cidade com seu patrimônio.
Quais investimentos são destinados atualmente à preservação do patrimônio histórico? É difícil falar em um valor único, porque não existe uma única fonte de investimento em patrimônio histórico. Cada proprietário, público ou privado, tem suas responsabilidades e seus custos, e existem inúmeros projetos patrimoniais acontecendo por caminhos diferentes. No poder público, os recursos podem estar distribuídos entre diferentes secretarias, obras, programas, convênios e projetos específicos. No setor privado, há investimentos de proprietários, empresas e instituições, além de projetos viabilizados por editais e leis de incentivo.
A população de Piracicaba reconhece e valoriza seu patrimônio histórico? Piracicaba tem uma relação muito forte com parte de seu patrimônio, mas esse vínculo não se manifesta da mesma forma em todos os lugares e também muda de geração para geração. Existem lugares que permanecem muito vivos no imaginário do piracicabano e que são imediatamente reconhecidos como parte da identidade da cidade. Mas existem também monumentos, personagens e acontecimentos que foram perdendo espaço na memória coletiva ao longo do tempo. É interessante pensar que muitos desses monumentos foram instalados em momentos em que aquilo que representavam estava muito mais próximo das pessoas. A inauguração de um busto ou de um monumento normalmente vinha acompanhada de cerimônias, discursos, notícias, participação de instituições e de pessoas que conheciam aquela história. Era um acontecimento na cidade, e o monumento já nascia cercado de significado, memória e reconhecimento público. Com o passar das gerações, se essa história não continuar sendo transmitida, o monumento permanece na praça, mas seu significado pode desaparecer. A pessoa passa por ele todos os dias, percebe o monumento ali, mas já não sabe quem está representado, por que aquilo foi construído ou que relação tem com a história da cidade. Por isso, eu não acho que seja simplesmente uma questão de dizer que a população valoriza ou não valoriza seu patrimônio. Existe também uma responsabilidade coletiva de manter essas histórias vivas e acessíveis. É aí que entram pesquisa, sinalização, educação patrimonial, escolas, roteiros, publicações e novas formas de comunicação. Porque o patrimônio só permanece verdadeiramente vivo quando, além de existir fisicamente, continua fazendo sentido para as pessoas.
O que pode ser feito para aproximar os jovens da história e dos patrimônios da cidade? Acho que primeiro precisamos entender que cada geração se relaciona com a cidade de uma maneira diferente. Os lugares permanecem, mas mudam as formas de aprender, de se comunicar, de circular pela cidade e de construir referências. Por isso, não acredito que seja suficiente simplesmente dizer aos jovens que determinado prédio, monumento ou lugar é importante. É preciso criar oportunidades para que eles conheçam essas histórias, entendam seu significado e construam a própria relação com esses espaços. A cidade pode ser uma grande sala de aula. Visitas guiadas, roteiros históricos, atividades com escolas, ações de educação patrimonial e recursos digitais são fundamentais para aproximar os jovens da história local. Ao mesmo tempo, é importante abrir espaço para que eles também participem dessa construção: pesquisem o próprio bairro, comparem fotografias antigas com a cidade atual, conversem com pessoas de outras gerações, registrem memórias e encontrem novas formas de contar essas histórias. Essa troca entre gerações é muito rica. Uma pessoa mais velha pode contar como determinado lugar era vivido e o que ele representava em sua época, enquanto os jovens podem ajudar a registrar, interpretar e transmitir essa memória por novas linguagens. Acho que esse é um ponto importante: o patrimônio não deve ser apresentado como uma história pronta que uma geração simplesmente entrega à outra. Ele precisa continuar sendo conhecido, pesquisado, interpretado e ressignificado ao longo do tempo. Quando um jovem descobre que um acontecimento importante ocorreu na praça onde encontra os amigos, na escola em que estuda ou na rua pela qual passa todos os dias, aquela história deixa de parecer distante. Ele começa a perceber que também faz parte dela e que, no futuro, será a sua geração que ajudará a decidir quais memórias da cidade continuarão sendo conhecidas e transmitidas.
Qual é a importância do patrimônio histórico para o turismo de Piracicaba? O patrimônio já é uma parte muito importante do turismo de Piracicaba. Quando olhamos as pesquisas de demanda turística, lugares como a Rua do Porto, o Engenho Central, a ESALQ, Monte Alegre e o Museu da Água aparecem entre os atrativos mais procurados pelos visitantes. Então não estamos falando apenas de um potencial: a história, a paisagem e a cultura já fazem parte da experiência de quem vem à cidade. Isso demonstra que quem visita Piracicaba já procura justamente paisagens e lugares de interesse histórico e cultural. E aí eu vejo um potencial enorme para avançarmos. Temos muitos atrativos, mas ainda podemos conectá-los melhor, transformando pontos isolados em roteiros, percursos e experiências capazes de contar diferentes histórias da cidade: o rio e o Salto, a industrialização, as vilas operárias, a agricultura e a ciência, a imigração, a presença negra e indígena, a religiosidade, a cultura caipira e tantas outras. Há também uma oportunidade importante de aumentar o tempo de permanência do visitante. Hoje uma parcela significativa de quem vem a Piracicaba permanece apenas um dia. Se conseguirmos fazer com que a pessoa que veio conhecer a Rua do Porto descubra também Monte Alegre, a ESALQ, o patrimônio ferroviário, os museus e outros lugares da cidade, ampliamos a experiência turística e também seu impacto sobre gastronomia, comércio, hotelaria e serviços. E existe ainda um desafio de comunicação e posicionamento de Piracicaba como destino. Quem visita a cidade costuma avaliá-la muito bem, mas tenho a impressão de que ainda existe um desconhecimento, principalmente em mercados próximos e enormes como a capital paulista, sobre a dimensão da nossa história e do nosso patrimônio. Então talvez uma parte importante do trabalho seja justamente organizar melhor aquilo que temos e aprender a contar Piracicaba para quem ainda não a conhece.
Quais são consideradas as sete maravilhas de Piracicaba? Vai haver uma outra eleição para renovar essas maravilhas? Tem algum projeto nesse sentido, por meio de votação popular, por exemplo? Piracicaba já teve diversas iniciativas desse tipo ao longo dos anos. Tivemos a eleição popular das Sete Maravilhas, outras enquetes e pesquisas, depois as Dez Maravilhas, além de concursos fotográficos, cartões-postais, calendários turísticos e outras ações voltadas a identificar e valorizar lugares e símbolos da cidade. Eu acho essas iniciativas muito interessantes porque, mais do que produzir um ranking definitivo, elas acabam funcionando como um retrato da relação da população com Piracicaba em determinado momento. Mostram aquilo que as pessoas reconhecem, valorizam e escolhem como referência naquele período. Se uma nova pesquisa fosse realizada hoje, provavelmente algumas escolhas permaneceriam e outras surgiriam, porque o próprio olhar sobre a cidade também muda de geração para geração. Não existe hoje um projeto da nossa Comissão para realizar uma nova eleição. Nosso trabalho está concentrado na pesquisa, documentação, diagnóstico e preservação. Mas acho muito válida qualquer iniciativa que estimule a população a olhar para a cidade, conhecê-la melhor e refletir sobre aquilo que considera importante preservar. Agora, se você me perguntar pessoalmente quais são as grandes maravilhas de Piracicaba, eu teria muita dificuldade em escolher apenas sete ou dez. Há algum tempo venho tentando compreender o que faz Piracicaba ser Piracicaba. Seria o rio? O Salto? A geografia e a vegetação? As pontes, os engenhos, as fábricas, as praças, os jardins e a arquitetura? Seriam as escolas, as instituições, as festas, a música, a comida, o sotaque, a cultura caipira e as tradições? Provavelmente é tudo isso junto. E talvez exista uma palavra que sintetize um pouco dessa relação: capricho. Existe o capricho da natureza, que nos deu o rio, o Salto e uma paisagem extraordinária. Existe o capricho das gerações que construíram sobre essa paisagem, deixando arquitetura, indústria, espaços públicos, instituições e monumentos. E existe o capricho que não é material, mas que continua vivo nas festas, nos saberes, nas tradições, na cultura e na maneira particular como o piracicabano se relaciona com a sua cidade. Mas, acima de tudo, Piracicaba é gente. Foram pessoas que construíram tudo isso, que trabalharam, ensinaram, criaram, celebraram e transmitiram essas histórias. E são as pessoas que continuam dando significado a esse patrimônio. Talvez essa seja a verdadeira maravilha de Piracicaba: uma natureza extraordinária, uma história construída por muitas mãos e uma população que continua dando sentido a tudo isso.