Eu sempre desconfiei de quem diz que futebol é só futebol. Quem torce sabe que não é. A gente passa a semana inteira reclamando do time, promete que não
vai mais assistir, reclama da escalação antes do jogo e, quando percebe, está novamente diante da televisão. É uma relação pouco racional, mas bastante duradoura.
Eu também sempre gostei de aviões. Gosto de olhar, de saber como funcionam, de acompanhar histórias ligadas à aviação. Foi por causa disso que comecei a acompanhar o trabalho de Lito Sousa. E, como se a coincidência já não fosse suficiente, descobri que o homem que entende tudo de avião também torce para o Palmeiras.
Nunca conheci Lito pessoalmente, mas algumas pessoas acabam entrando na nossa rotina dessa forma. Você acompanha o trabalho, vê os vídeos, se acostuma
com o jeito de falar e cria uma simpatia que não depende de convivência. No meu caso, havia ainda duas coincidências muito específicas: os aviões e o Palmeiras.
A notícia de que ele enfrenta a doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição rara e agressiva, provocou uma mobilização difícil de ignorar. Pessoas
começaram a tentar ajudar a família, procurando contatos, aproximando especialistas, compartilhando informações e buscando caminhos que pudessem fazer alguma diferença. Gente que o conhecia há anos, gente que trabalhava com ele e gente que jamais o encontrou pessoalmente.
Foi nesse momento que apareceu um lado do trabalho dele que talvez nem os números conseguissem mostrar. Durante anos, falou sobre aviões, um assunto bastante específico, para quem se interessava por aviação. Quando precisou de ajuda, ficou evidente o tamanho do público que havia construído ao longo do tempo. Não era só uma questão de visualizações. Havia muita gente acompanhando, aprendendo e levando a sério aquilo que ele fazia.
O Palmeiras também apareceu. O técnico Abel Ferreira dedicou a última vitória a ele, e o clube manifestou seu apoio. É uma homenagem, evidentemente, e uma homenagem não muda um diagnóstico. Mas quem acompanha futebol sabe que, em determinadas horas, o clube deixa de ser apenas aquele motivo semanal para reclamações e discussões intermináveis. O futebol também sabe reconhecer quando um dos seus está passando por algo muito maior do que uma derrota, uma escalação ou uma temporada ruim.
E o Palmeiras não foi o único. Durante anos, tudo aquilo existiu principalmentepela internet, entre vídeos, comentários e histórias sobre aviação. A doença, porém, acabou dando a essa relação uma dimensão diferente. O que antes parecia restrito à tela mostrou, naquele momento, que podia ultrapassá-la.
E essa mobilização já começou a sair do campo das mensagens de apoio. Depois de milhares de pessoas levarem o caso às redes sociais de instituições e pesquisadores, o Broad Institute, nos Estados Unidos, entrou em contato com a equipe de Lito para conversar sobre possíveis formas de ajuda. Não significa que exista uma solução ou um tratamento à vista, mas mostra que toda essa gente conseguiu, pelo menos, fazer o caso chegar a quem talvez possa abrir alguma porta. O que fica dessa história, para mim, é também uma demonstração do que a internet ainda é capaz de fazer quando resolve apontar para o mesmo lugar. Estamos acostumados a associá-la ao barulho, às brigas intermináveis e à velocidade com que um assunto desaparece para dar lugar ao próximo.
Mas, dessa vez, ela fez outra coisa. Aproximou pessoas que provavelmente jamais se encontrariam, colocou gente em contato, fez circular informações e transformou
quem apenas acompanhava Lito em alguém disposto a tentar ajudar. Já fez algo importante: mostrou que, do outro lado da tela, havia muito mais do que seguidores. Havia gente.