30 de agosto de 2026
ÉRICO SAN JUAN

O humor gráfico está no DNA de Piracicaba

Por Erivan Monteiro / JP1 |
| Tempo de leitura: 7 min

“Sou Érico San Juan, há quem diga que meu nome parece pseudônimo. Nasci na nossa Noiva da Colina, na Santa Casa de Misericórdia. Vim ao mundo em 3 de janeiro de 1976, às 9 horas da manhã. Portanto, tenho 50 anos. E alguns meses”.

Foi assim, com o bom humor peculiar de todo artista gráfico, que esse fenômeno dos desenhos iniciou a entrevista à coluna Persona, do JP. Com algumas décadas dedicadas à profissão e muitos trabalhos realizados, San Juan vive se reinventando e produzindo crítica, sátira e reflexão por meio de seus traços.

Ele começou a ilustrar aos 10 anos, ainda na pré-adolescência, na escola Honorato Faustino, por sugestão de uma professora, e não parou mais. Entre idas e vindas, emprestou seu talento para o Jornal de Piracicaba e para outros jornais da imprensa local nas últimas décadas.

San Juan – que também atua como palestrante e ainda ministra oficinas para crianças e adolescentes- conta que, em sua área, faz de tudo, mas tem uma certa inclinação pelas tirinhas. “Em seguida, por preferência e necessidade, a caricatura”, complementa.

Sua relação com o premiadíssimo Salão de Humor de Piracicaba também é intensa: “Fui artista selecionado 8 vezes na mostra principal competitiva do Salão, desde 2004. Fui jurado de seleção em 2008 e 2016. E fui curador de inúmeras mostras paralelas”, lembra.

Artista formado no jornal impresso, San Juan diz que não tem problemas com a era digital. Pelo contrário. “O componente humano ainda é essencial. Mas essa era de transição tecnológica desestabiliza profissionais formatados na era analógica. Com medo e com esperança, sigamos em frente”, ensina. Veja, abaixo, a entrevista na íntegra:

Como surgiu essa paixão por desenhar. Foi na escola, em casa... E quais as suas referências em sua arte? Qualquer criança faz arte, em todos os sentidos. Os futuros artistas continuam pelo resto da vida. Do antigo pré-primário ao ensino fundamental, na escola Honorato Faustino, fiz dezenas de revistas em quadrinhos artesanais. Eram estrelados pela minha turma do Lup Lup. O nome do personagem vinha das cataratas de Lup Lup, de uma HQ do Tio Patinhas publicada pela editora Abril. Aos 10 anos, em 1986, escrevi e ilustrei três livros com o dromedário Corcova Amarela. Aceitei um desafio da professora Bernadete Sundfeld, que trouxe a palavra "dromedário" para uma redação. No mesmo ano, ganhei menção honrosa num concurso da secretaria de educação local. O trabalho consistia num gibi em que eu contava a história do XV de Piracicaba! Em 1987, publiquei a primeira tirinha no suplemento infantil do Jornal de Piracicaba. Que eu viria a ilustrar mais tarde.

Quais são as suas maiores especialidades? Charge, caricatura, tirinha, quadrinhos... O desenhista de humor gráfico faz de tudo, em todas as modalidades. Comigo não foi diferente. Mas as tirinhas, quadrinhos mais breves, são minha linguagem preferida. E a mais praticada por mim até hoje. Em seguida, por preferência e necessidade, a caricatura. As duas têm em comum a utilização de personagens. Nas tirinhas de quadrinhos, os tipos imaginários que poderiam ser reais. Nas caricaturas, os tipos tão reais que parecem fruto da nossa imaginação. Mas já fiz charges para o Jornal de Piracicaba, o extinto TodoDia de Americana, O Democrata, A Tribuna Piracicabana. E fui chargista por uma noite no programa Roda Viva, na TV Cultura, em 8 de maio de 2023. O entrevistado da noite foi o ministro Gilmar Mendes, do STF.

Queria que falasse um pouco sobre a história da arte em Piracicaba. A nossa cidade tem a tradição de revelar grandes artistas, não? O cartunista de Piracicaba é um ser que foge à tradição de artes plásticas da cidade. Mesmo com luminares como Arquimedes Dutra e Renato Wagner tendo praticado humor gráfico, de forma esporádica, a tradição de Piracicaba como sede do mais famoso Salão de Humor do mundo se iniciou com o desbravador Edson Rontani, criador do Nhô Quim, mascote do XV de Piracicaba, protagonista de charges antes e depois dos jogos do time, publicadas por décadas na imprensa local. Dou minha modesta contribuição a essa história no artigo "Quarenta anos de humor nos jornais de Piracicaba", na Revista do IHGP de 2026. No texto, falo de minha geração, artistas anteriores a ela e alguns atuais.

Quais são os seus projetos atuais? Muito trabalho? Trabalho não falta. Quando não vem ou não tem, a gente inventa. Sou editor do jornal de humor Capau, encarte mensal da Tribuna Piracicabana, que também tem as edições em PDF disponíveis no Instagram do projeto. O jornal tem um podcast, que retorna em setembro, com entrevistas feitas por mim. Os convidados serão Spacca, Baptistão, Jean Galvão, Attílio, Gilmar e Fernandes, entre outros. As gravações são realizadas nos estúdios da Younik, em São Paulo. Em breve também haverá a volta da série de vídeos Caricatura também é cultura, nas minhas redes sociais. E continuo criando a tirinha Dito, o bendito. Também faço caricaturas ao vivo em eventos diversos.

E o seu trabalho como palestrante. O que você gosta de abordar em seus seminários? Falo do ofício de artista gráfico, sob a minha ótica, abordando minhas vivências e experiências na área. Em 2023, estive na PUC Campinas, no evento Entrelinhas, falando para estudantes de Artes Visuais. Em 2025 e 2026, estive em Mairiporã, em escolas e na Câmara Municipal. Estudantes das quintas séries de escolas da cidade estudaram minhas tiras de Dito, o bendito. Segundo as professoras Alessandra Soares e Leire Alves, o contato com meus quadrinhos ajudou a melhorar o desempenho escolar dos estudantes. Ouvir isso é emocionante e gratificante, marca a vida de qualquer artista.

Você tem uma relação de anos com o Jornal de Piracicaba. Quais são os principais trabalhos que você fez aqui? Em 1990, mandei para o Jornalzinho as tirinhas do peixinho Leco, personagem já publicado por alguns meses de 1988 na página infantil do extinto O Diário. Em 1991, surgiu o convite para ser o ilustrador oficial do suplemento para crianças do JP. Desempenhei a função até 1996. Em 1997, alguns meses após deixar o JP, em outubro fui chamado a voltar a publicar a tirinha Dito, o bendito no caderno de cultura. Em 2003, retornei ao matutino para colaborar com quadrinhos para a nova página semanal Humor. Em 2010, terminou minha relação com o Jornal. Mas em todo esse período, fui chamado a ser o chargista substituto nas férias do titular. E sempre fui grato ao abre-alas que o JP me proporcionou na carreira.

Sobre o Salão de Humor, que está abrindo uma nova edição neste mês, você ainda está envolvido com esse projeto? E qual sua análise sobre esse evento? Fui artista selecionado 8 vezes na mostra principal competitiva do Salão, desde 2004. Fui jurado de seleção em 2008 e 2016. E fui curador de inúmeras mostras paralelas, como a recente Caipiras de Salão, apresentada em julho e agosto no Shopping Piracicaba. As homenagens do evento aos meus aniversários de carreira em mostras especiais se deram em 2011 (20 anos de carreira) e agora em 2026 (35 aos de carreira). O Salão de Humor de Piracicaba é um evento que projeta a cidade para o mundo há 50 anos. Não tem coisa melhor que ser reconhecido como artista de uma cidade sinônimo de bom humor.

Como o Salão Internacional de Humor de Piracicaba transforma a dinâmica cultural e econômica da cidade durante o período de sua realização? As cinco décadas do evento são a resposta para sua pergunta.

O Brasil é, historicamente, uma potência quando se fala de artista gráfico ou designer gráfico. Ainda hoje o Brasil é reconhecido como tal? E quais são os países de ponta nesta área ao lado do Brasil? O Salão de Humor ajudou nesse reconhecimento, certamente. A Argentina é um dos países com os melhores humoristas gráficos do mundo. Uma terra que produziu gênios como Quino e Sábat mora no coração de qualquer apreciador das artes.

Como você analisa o seu trabalho em plena era digital? É uma concorrência desleal? A era digital é uma aliada na difusão do nosso trabalho. Artistas como Carlos Ruas, jurado de premiação do Salão de Humor em 2026, nasceram na internet. Eu sou da era impressa, mas me adapto aos suportes existentes.

Qual é o seu posicionamento em relação ao uso de Inteligência Artificial na criação de artes e ilustrações humorísticas? A Inteligência Artificial não dá talento ou criatividade a ninguém. O componente humano ainda é essencial. Mas essa era de transição tecnológica desestabiliza profissionais formatados na era analógica. Com medo e com esperança, sigamos em frente.