25 de agosto de 2026
ARTIGO

Você herdou seus genes mas escreve seu futuro

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 2 min

Às vezes escuto alguém dizer: “Na minha família todo mundo vive muito. Minha avó passou dos 90, então acho que tenho uma genética boa”. E existe certo conforto nessa ideia. Como se, no momento em que nascemos, recebêssemos uma espécie de prazo de validade escondido dentro do DNA. 

Mas a longevidade é muito mais interessante do que isso. 

Um estudo intitulado “Estimates of the Heritability of Human Longevity Are Substantially Inflated due to Assortative Mating”, publicado no periódico científico Genetics, analisou uma quantidade impressionante de informações genealógicas: centenas de milhões de pessoas presentes em árvores familiares. Os pesquisadores queriam descobrir quanto da longevidade realmente poderia ser explicado pela herança genética. 

Estudos anteriores costumavam estimar essa participação em aproximadamente 15% a 30%. Quando os pesquisadores consideraram um detalhe chamado acasalamento assortativo, porém, a estimativa caiu para bem menos de 10%. 

Parece complicado, mas não é. 

Nós não escolhemos nossos parceiros completamente ao acaso. Pessoas que vivem em ambientes semelhantes, possuem condições socioeconômicas próximas, hábitos parecidos e inúmeras outras características acabam formando famílias. Assim, quando marido e mulher apresentam longevidade semelhante, não existem genes compartilhados entre eles que expliquem isso. Existe uma vida compartilhada. 

E esse detalhe fez os pesquisadores perceberem que parte daquilo que anteriormente parecia genética talvez estivesse sendo superestimada. 

Isso não significa que apenas 7%, 8% ou 10% da duração da nossa vida seja determinada pelos genes e que todo o restante dependa exclusivamente das nossas escolhas. A própria ciência continua discutindo esses números, e pesquisas mais recentes propõem uma influência genética maior. Longevidade é conversa muito mais complexa entre genética, ambiente, doenças, condições sociais, acaso e comportamento. 

Mas existe uma parte dessa conversa que me interessa particularmente: aquilo que podemos modificar. 

Você não escolheu os genes que recebeu dos seus pais. Mas escolhe, muitas vezes, o que fará com o corpo que recebeu. 

Pense em dois irmãos criados na mesma família. Aos 50 anos, um continua treinando, preserva músculos, controla a pressão, dorme bem e não fuma. O outro tornou-se sedentário, ganhou gordura abdominal, perdeu força e passa grande parte do dia sentado. A genética pode ser muito parecida. A trajetória biológica começa a deixar de ser. 

É justamente aí que exercício, alimentação, sono, controle da pressão arterial, ausência do tabagismo, relações sociais e acompanhamento médico deixam de parecer pequenos hábitos isolados. Repetidos durante vinte, trinta ou quarenta anos, eles passam a fazer parte da história do nosso envelhecimento. 

A melhor notícia sobre longevidade não seja descobrir quanto dela herdamos.É perceber que herança não significa sentença. 

Não podemos escolher todas as cartas que a vida colocou em nossas mãos. Algumas realmente vieram determinadas antes mesmo de nascermos. 

Mas ainda podemos decidir como jogar boa parte delas. 

E talvez envelhecer bem comece exatamente aí: quando paramos de perguntar apenas “quanto tempo minha genética permitirá que eu viva?” e começamos a perguntar “o que estou fazendo hoje com a vida que ela me deu?” 

Já pensou nisso meu caro leitor? Até a próxima.