22 de agosto de 2026
ELCIAN GRANADO

'Eles não estão ali por opção, mas sim pela maldade humana'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 7 min
Divulgação

Elcian Granado é daquelas pessoas que nós, certamente, podemos falar que têm um “coração gigante”, com um amor imenso. Ela é líder de um grupo de pessoas engajadas no acolhimento e cuidado com os felinos que vivem no Cemitério da Saudade, a GDC (Equipe dos Gatos do Cemitério da Saudade de Piracicaba).

Ela trabalha diariamente para dar uma melhor qualidade de vida aos bichinhos, com alimento, água e cuidados de higiene e de saúde, além de muito amor e carinho. Ela conta que o Cemitério da Saudade é ponto de abandono dos felinos há pelo menos 60 anos e pede que as pessoas, se não quiserem ajudar, pelo menos respeitem os animais. “Eles não estão ali por opção, mas sim pela maldade humana”, afirma.

“Os gatos são alimentados diariamente com 35 a 40 quilos de ração e 200 litros de água, distribuídos nos 230 pontos existentes no cemitério. Todos os gatos doentes, os filhotes abandonados, as gatas grávidas e as mãezinhas com filhotes são levados para o abrigo dos Gatos do Cemitério da Saudade, sendo que este local dispõe de espaço próprio para cada necessidade do gatinho”, explica.

Toda essa dedicação custa caro - R$ 9.000 por mês – e o valor vem de pessoas que, assim como eles, têm um bom coração. Elcian conta ainda que é muito difícil conseguir um lar para eles justamente por serem do cemitério e haver muito preconceito por conta disso. 

Apesar de todo esse trabalho, ela se sente realizada em ajudar esses bichinhos tão inofensivos. “Quando começamos a cuidar dos gatinhos do cemitério, muitas pessoas falavam que era um núcleo sem solução. Mas nós persistimos e estamos há 18 anos com eles”, finaliza. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista: 

Quando e por que a ONG foi criada? Qual o nome oficial e por que uma entidade específica para os gatos do cemitério da Saudade? Nós ainda não somos uma ONG, mas estamos trabalhando para sermos. Somos, por ora, a Equipe dos Gatos do Cemitério da Saudade de Piracicaba (GDC). Foi necessário a criação dessa equipe uma vez que, infelizmente, o Cemitério da Saudade de Piracicaba é ponto de abandono de gatos há cerca de 60 anos. Trata-se de uma prática cultural da cidade. Uma cultura do sofrimento, sendo um dos maiores núcleos urbanos de gatos do Brasil.

Quantos gatos têm hoje no cemitério e como funciona o trabalho de acolhimento dos animais de lá? Acreditamos que vivam hoje no cemitério da Saudade cerca de 700 a 900 felinos. É uma conta muito complicada de se fazer, já que a grande maioria desses gatos são ferais e simplesmente desaparecem quando ouvem a voz humana. Os gatos do Cemitério da Saudade são alimentados diariamente com 35 a 40 quilos de ração e 200 litros de água, distribuídos nos 230 pontos existentes no cemitério. Todos os gatos doentes, os filhotes abandonados, as gatas grávidas e as mãezinhas com filhotes são levados para o abrigo dos Gatos do Cemitério da Saudade, sendo que este local dispõe de espaço próprio para cada necessidade do gatinho. 

Quanto vocês gastam mensalmente para cuidar dos gatos? Nós nunca paramos para fazer esse cálculo, mas ele chega a mais R$ 9.000 por mês, lembrando que abatemos, aos poucos, os débitos com a Clínica Veterinária Bichos e Amigos. 

Quantas pessoas fazem parte da OnG e como é feito o atendimento aos gatos? Entre os voluntários fixos e os esporádicos, somos quase 20 voluntários. Tais voluntários se dividem de acordo com as tarefas que se identificam mais. Temos os voluntários da medicação diária dos doentinhos, da reciclagem, das capturas dos gatos no cemitério, da limpeza do abrigo, etc. 

Existem casos de maus tratos com os gatos do cemitério? Infelizmente, sim. Não só com os gatinhos, mas também com os saruês que vivem no cemitério. 

Os gostam de viver lá no cemitério? Os gatos não gostam de viver no cemitério. O ser humano que tem essa crença de que os gatos são ligados à morte e, por isso, os abandonam no cemitério. O que acontece é que o gato, diferentemente do cachorro, caso abandonado em um local em que ele não conhece, ele tende a ficar em tal local. Ele só sai e procura outro local, caso ele conheça o território. 

Vocês fazem adoções desses gatos ou há certa resistência das pessoas pelo fato de eles morarem no cemitério? Fazemos doação desde gatinhos sim, tanto os filhotes, quanto os adultos e ainda há preconceito com relação a eles. A equipe GDC cuida desses gatinhos há 18 anos e vários gatinhos foram recusados e até devolvidos quando o adotante descobriu que o gato era do cemitério. Hoje o preconceito é bem menor, mas ainda presente.

Como funciona o processo de adoção? Quais cuidados são avaliados antes de um gato ser encaminhado para uma nova família? A pessoa que pretende adotar um gatinho da equipe GDC precisa preencher um formulário, passar por uma entrevista e ainda mandar fotos e demais dados para uma voluntária que é responsável pelas doações. Com o passar do tempo, a gente desenvolve uma intuição muito forte sobre quem seria ou não apto para adoção e isso nos ajuda muito.

Existe acompanhamento depois da adoção? A voluntária responsável pelas doações acompanha as doações e posta nos grupos o crescimento dos gatinhos doados.

Há casos de devolução do animal? Quais são os principais motivos que levam algumas pessoas a devolver o gato? São poucos, mas existem. Um dos principais motivos é que, quem adota, não ter paciência para esperar o gatinho se adaptar no novo lar. Alguns gatos são mais soltos e rapidinho já estão brincando. Outros precisam de mais tempo. Já tivemos casos de gatos devolvidos um ano depois por não caber na mudança da família. Algumas pessoas ainda os trata como objeto que pode ser descartado, mas, mesmo assim, a gente agradece quando a pessoa não abandono o gatinho e os devolve nas nossas mãos.

Qual é a importância da castração para controlar a população de gatos? A castração é um grande ato de amor. Infelizmente, não há lares para tantos gatos. Além disso, uma gatinha com 5 meses já está formada para ser mamãe. Com cerca de 63 dias os gatinhos nascem e antes mesmo de desmamarem a mãezinha já pode estar grávida de novo. O ciclo de nascimento dos gatinhos é muito rápido. Para cada ser humano, nascem 15 cães e 45 gatos. 

O que ainda precisa ser melhorado na conscientização sobre os direitos e cuidados com os animais? Ainda há muito a melhorar. Hoje, uma das maiores dificuldades da proteção animal não é apenas criar novas leis, mas fazer com que a população compreenda que cuidar animais envolve responsabilidade. O ser humano precisa entender, com urgência, que os animais sofrem até mais que a gente, já que eles não entendem por que estão sentindo dor, porque foram abandonados ou porque estão sendo maltratados. 

Qual é a história de algum gato do cemitério que mais marcou a equipe? Todos os gatos do Cemitério da Saudade são muito queridos por todo a equipe, mas o que mais nos chocou foram os maus-tratos que os gatinhos sofreram no ano de 2014, onde encontramos muitos filhotes mortos, com os crânios esmagados ou partidos ao meio. Nós nunca vamos nos esquecer disso. Tivemos também gatinhos como o Neymar, que sempre nos esperava no portão do cemitério, o Cesalpino, que hoje vive no abrigo, o Chocolate, o Tatá e tantos outros. Tem também as gatinhas Iara e Frida, que foram abandonadas cegas no Cemitério. Hoje elas vivem no abrigo com a gente.

Que mensagem vocês gostariam de deixar para as pessoas que vão ao cemitério e encontram os gatos? Que elas os respeitem. Eles não estão ali por opção, mas sim pela maldade humana. Que elas saibam que eles são diariamente cuidados pela equipe dos Gatos do Cemitério da Saudade e que eles não devem ser retirados do local sem o nosso conhecimento, já que, cada um que some, causa sofrimento e angústia muito grande nos membros da equipe dos Gatos do Cemitério da Saudade. Quando começamos a cuidar dos gatinhos do cemitério, muitas pessoas falavam que era um núcleo sem solução. Mas nós persistimos e estamos há 18 anos com eles.