Outro dia conversando com um aluno ele viu em seu relógio o tal do HRV. Não, não é o carro. PodepParece estranho, mas um coração saudável não bate como um relógio. Se sua frequência cardíaca está em 60 batimentos por minuto, isso não significa que exista exatamente um segundo entre cada batimento. Pode haver 0,92 segundo entre dois batimentos, depois 1,05, depois 0,97. Essa pequena dança entre um batimento e outro tem um nome: "variabilidade da frequência cardíaca", ou HRV, na sigla em inglês.
E quanto maior essa capacidade de variar, dentro do padrão de cada pessoa, melhor tende a ser a capacidade do organismo de se adaptar.
O HRV é medido em milissegundos e reflete principalmente a atuação do sistema nervoso autônomo, aquele que trabalha sem precisarmos pensar nele. De um lado está o sistema simpático, que acelera o organismo diante de um desafio. Do outro, o parassimpático, relacionado ao repouso e à recuperação. Um organismo saudável precisa dos dois. Precisa saber acelerar quando necessário e, principalmente, saber voltar para casa depois.
Um dos trabalhos clássicos sobre o assunto, “Heart Rate Variability: Standards of Measurement, Physiological Interpretation and Clinical Use”, publicado no periódico Circulation, mostrou justamente que o HRV permite observar essas oscilações do sistema nervoso autônomo e sua relação com diferentes condições de saúde.
Mas existe um estudo ainda mais interessante. “Heart Rate Variability and Lifetime Risk of Cardiovascular Disease: The Atherosclerosis Risk in Communities Study”, publicado no na revista cientifica Annals of Epidemiology e acompanhou 9.744 pessoas sem doença cardiovascular inicial. Ao longo de 192 mil pessoas por ano de acompanhamento, ocorreram 2.856 eventos cardiovasculares. Em mulheres, por exemplo, dependendo da medida de HRV analisada, aquelas no grupo de menor variabilidade chegaram a apresentar risco cardiovascular ao longo da vida próximo de 39%, contra aproximadamente 29% entre aquelas com valores mais altos. A conclusão foi simples: maior HRV esteve associada, modestamente, a menor risco cardiovascular ao longo da vida. Quando olhar seu relógio, agora entenderá melhor...
Só que aqui precisamos tomar cuidado com a tentação de transformar saúde em competição. Um HRV de 70 não significa necessariamente que você esteja mais saudável do que alguém com 40. Idade, genética, condicionamento, medicamentos e até o aparelho utilizado interferem nessa medida. O mais interessante é acompanhar você contra você mesmo. Ou ir no seu cardiologista amigo.
Imagine alguém que normalmente acorda com HRV próximo de 50 ms. Depois de uma noite mal dormida, uma semana estressante ou um treino muito intenso, ele aparece em 30. O relógio talvez esteja percebendo antes da própria pessoa que alguma coisa mudou. Em outro momento, após boas noites de sono e recuperação adequada, ele retorna aos seus valores habituais.
É por isso que tenho achado essa medida tão interessante para quem treina.No meu caso, corredores que treino.
A frequência cardíaca mostra quantas vezes seu coração bate. O HRV conta outra história: como seu organismo está lidando com aquilo que a vida está exigindo dele.
Dormir pouco pode diminuí-lo. Estresse prolongado pode diminuí-lo. Álcool, doença e excesso de treinamento também podem alterar essa resposta. Exercício regular e boa recuperação tendem, ao longo do tempo, a favorecer uma regulação autonômica mais eficiente. Por isso, mais importante do que perseguir um número é observar tendências.
Durante muito tempo imaginamos que saúde fosse sinônimo de estabilidade. O coração nos mostra exatamente o contrário.
Estar saudável também é conseguir variar.Acelerar quando a vida pede. Recuperar quando ela permite. Adaptar-se ao inesperado e encontrar novamente o equilíbrio.Seu coração nunca bate exatamente igual porque você também nunca está exatamente igual. Assim como a vida, talvez seja justamente essa capacidade de mudar que revele o quanto ainda estamos preparados para continuar vivendo. E da próxima vez que olhar seu relógio High Tech, não ache que tem um Honda no coração. Até a próxima.