Poucas profissões foram tão marcadas por estereótipos quanto a de filósofo. Quando se pensa em filósofo, imediatamente vem ao nosso espírito a figura de um homem velho, sério, barbudo, vestido com uma túnica branca, com olhar concentrado em profunda meditação.
No meu modo de ver e julgar as coisas, entretanto, o pensamento filosófico se deve fazer naturalmente, com liberdade, sem estereótipos nem esquemas muito rígidos. Eu compreendo bem, por exemplo, um Aristóteles passeando peripateticamente pelas ruas das cidades gregas, rodeado de discípulos, conversando informalmente sobre temas da vida cotidiana; de repente, uma galinha ou uma cabra interrompe a conversa e passa pelo meio, de repente aparece algum curioso e faz uma pergunta, ou um mal-humorado que diz uns desaforos para aquele bando de desocupados e inúteis que em vez de trabalhar utilmente estavam perdendo tempo...
São Tomás de Aquino, na Idade Média, também costumava passear nos arredores de Paris, com seus alunos da Sorbonne, e tinham longas conversações amenas e instrutivas.
É assim que eu entendo a filosofia, como algo natural, que flui do nosso cérebro com naturalidade, sem teatralidade nem grandes dramas. O Pensador, a famosa estátua de Rodin, não exprime, a meu ver, adequadamente o filósofo. Rodin, influenciado pelo romantismo ainda atuante em seu tempo, romantizou a figura clássica do pensador, mas produziu algo mais fictício do que real.
Assisti recentemente a um documentário muito interessante da RAI (TV italiana) sobre a vida de Sócrates. Era muito interessante, ver Sócrates passeando com os discípulos, os assuntos metafísicos sendo tratados e, de repente, tudo era interrompido pela Xantipa, a mulher do filósofo, que fazia uma “cena” porque o marido tinha esquecido de cuidar da família. Na ótica de Xantipa, era muito questionável a utilidade do marido, que lhe parecia um nefelibata fora da realidade, que em vez de trabalhar e produzir algo de concreto, perdia seu tempo cercado de desocupados igualmente sem valor nem utilidade. Melhor teria sido, pode bem ter ela pensado muitas vezes, casar com algum rico dono de taberna do que com aquele sonhador.
Ainda hoje, muita gente há com o mesmo perfil da sra. Sócrates. Para muita gente, Filosofia é algo tão etéreo e tão vago que pouca importância tem. Tanto faz quanto tanto fez, com ela ou sem ela tudo fica na mesma. Na Itália, corre até um dito popular que bem exprime essa mentalidade: “Filosofia è quella scienza con la quale, e senza la quale, tutto rimane tale e quale.”
Na verdade, é imensa a utilidade da Filosofia. Como o próprio nome significa, útil é aquilo que pode servir ao uso, pode ser usado para algum fim. Numa época materialista, consumista, utilitarista no sentido próprio do termo, só se entende como útil aquilo que tem utilidade prática, concreta, econômica. E despreza-se como inútil tudo aquilo que atende aos outros anseios de alma da humanidade: a beleza, as artes, o mundo dos símbolos, as abstrações intelectivas que não resultam em aumentos sensíveis da conta bancária, as considerações de ordem espiritual.
Mas como o homem não é só matéria e tem espírito, há toda uma dimensão humana que não se sente plenamente atendida se não tiver também essas coisas que o materialista considera supérfluas.
Não me lembro quem foi que disse esta frase tão verdadeira: o supérfluo, essa coisa tão necessária! E atribui-se a Carlos Lacerda outra frase muito verdadeira: “Pelo necessário, o homem é capaz de matar; pelo supérfluo, é capaz de morrer.”
Os filósofos escolásticos distinguiam o ESSE, o ser, do BENE ESSE (o estar confortavelmente, adequadamente na existência). E para o BENE ESSE, são indispensáveis muitas coisas que para a mera existência são, em rigor, supérfluas.
Para o simples ESSE, filosofia e artes são coisas inúteis. Mas para nós, seres racionais, e sobretudo para nós enquanto pensadores, enquanto reflexivos, enquanto estudiosos em busca da Verdade, para o nosso BENE ESSE as artes, como também a Filosofia, são gêneros vitais de primeira necessidade.