18 de agosto de 2026
ARTIGO

A direita entortando...A esquerda endireitando

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

A política anda parecendo oficina mecânica. A direita garante que a esquerda entortou o eixo do país. A esquerda responde que a direita desalinhou a direção da justiça social. Enquanto um acusa o outro de dirigir mal, o povo continua empurrando o carro, pagando a conta do combustível e torcendo para que alguém descubra onde fica, afinal, o freio e o volante. 

Direita e esquerda não nasceram brigando nas redes sociais. Vieram da Revolução Francesa, em 1789. Na Assembleia Nacional, os defensores da tradição sentavam-se à direita do presidente; os partidários das mudanças ocupavam os assentos da esquerda. A posição das cadeiras acabou atravessando os séculos e virou posição ideológica. 

Vieram então os pensadores. Adam Smith enxergou na liberdade econômica o motor da prosperidade. Edmund Burke aconselhava mudanças sem destruir as bases da sociedade. Karl Marx e Friedrich Engels colocaram o conflito entre capital e trabalho no centro do debate e defenderam uma sociedade sem classes. Desde então, surgiram liberais, conservadores, socialistas, social-democratas e tantas outras correntes que, muitas vezes, confundem até quem as defende. 

O mundo cresceu, a população explodiu, as cidades ficaram gigantes e os problemas mudaram de tamanho. A direita passou a defender mais liberdade econômica, empreendedorismo, propriedade privada e menor intervenção do Estado. A esquerda reforçou a defesa dos trabalhadores, das políticas sociais e da presença do Estado para diminuir desigualdades. 

Foi aí que nasceu uma disputa que parece não ter fim. A direita deseja mandar porque propõe o trabalho; a esquerda deseja mandar porque produz o trabalho. Cada uma acredita possuir a fórmula do progresso. Mas existe uma verdade difícil de esconder: o capital sem trabalho vira número; o trabalho sem capital vira esforço. Um depende do outro. São como dois braços tentando erguer a mesma carga. Se um cruzar os braços, o peso cairá sobre toda a sociedade. 

O capitalismo mostrou enorme capacidade para produzir riqueza, inovação e oportunidades, mas também concentrou renda em muitos momentos. O socialismo inspirou importantes conquistas sociais, porém, quando levado ao extremo em diversas experiências históricas, encontrou dificuldades econômicas e limitações às liberdades. Os dois sistemas colecionam virtudes e cicatrizes. 

Mesmo assim, a polarização continua fabricando mais inimigos do que soluções. As redes sociais transformaram o diálogo em campeonato de ofensas. Cada lado virou especialista em apontar os defeitos do adversário e um eterno aprendiz quando o assunto é reconhecer os próprios erros. Um vive dizendo que o outro entortou o país. O outro garante que está apenas tentando endireitá-lo. 

Será que essas duas linhas podem se encontrar? Podem, desde que deixem de caminhar olhando apenas para os próprios pés. O ponto de encontro chama-se interesse público. É ali que liberdade econômica e justiça social deixam de ser rivais para se tornarem parceiras. 

Mas esse encontro depende menos dos políticos e mais da sociedade. Cabe ao eleitor abandonar a torcida organizada, cobrar honestidade, responsabilidade fiscal, respeito às instituições, proteção aos mais vulneráveis e oportunidades para quem quer trabalhar. Democracia não é procuração eterna; é contrato com prazo de validade. 

Essa música terá um final feliz? Ninguém sabe. A história ensina que extremos costumam fazer muito barulho e pouco entendimento. Enquanto um entorta e o outro endireita, o maior cuidado é impedir que ambos acabem quebrando a espinha da própria democracia. Se um dia esse encontro acontecer, não haverá vencedores nem vencidos. Haverá apenas uma sociedade mais madura. E, se ainda demorar, permanece a crença de que esse velho paciente chamado democracia continuará suportando os desafios, aprendendo com os erros e seguindo firme na eterna busca por dias melhores.