Nasci, cresci, vivi, vivo em Piracicaba, cidade abençoada. Se a cegonha – que diziam ter-me trazido – aqui não pousasse, eu resistiria. Não teria aceitado. Até já tentei, mas não consegui viver em outro lugar. Parecia-me ficar acometido de uma paralisia de sentidos, de vazios punitivos, impressão de remorso. Sentia-me traidor, traindo, em especial, a mim mesmo. E desejos dolorosos no próprio corpo: querendo voltar, ansiando pelo rio, por ruas da minha cidade, por pessoas, lugares. E, até mesmo pelo cheiro do restilo que – àquela época – infestava-nos os ares. Um misto, pois, de nostalgia e da “saudade que punge e mata”.
Ao ver a luz pela primeira vez, nos idos 1940, Piracicaba contava cerca de 75 mil habitantes. A maioria da população residia na área rural, cujos horizontes pareciam não ter fim. Eram pequenos sítios, chácaras, lugares aprazíveis e, ao mesmo tempo, cultivados. A área urbana sempre foi encantadora, uma cidade bela com seus jardins, igrejas, escolas, os bondes, calçadas arborizadas. Nossas manhãs eram festas animadas pelas multidões de adolescentes, de jovens vestidos com seus uniformes estudantis, indo às e voltando de suas escolas. Chamavam-nos “cidade das escolas”. E estas – como o poeta cantara a dele – eram, sim, “risonhas e francas”. Também por isso, sempre foi a “Piracicaba que adoramos tanto/ cheia de flores, cheia de encanto”.
Na religiosidade caipiracicabana, há um misto de fé simples e, ao mesmo tempo, complicada. Aparentando ser una, tem sido diversificada apesar de suas origens católicas. Parece assemelhar-se a um catolicismo tornado habitual, mais do que impositivo. E, também, como resistência ao Metodismo de Martha Watts e outros. Em registros públicos ou pesquisas pedia-se a opção religiosa dos informantes. A grande maioria escrevia apenas “cat”, católico, quase que uma convenção. Pois, estava-se numa cidade de muitos santos nomeando ruas, lugares. E com sua multidão de pecadores...
Quando se fala ser, Piracicaba, cidade conservadora, parece referir-se a algo fixo, fechado em si mesmo. Conservar, porém, é, em especial, manter aquilo que pode deteriorar-se. Nesse sentido, Piracicaba é um conservatório, cidade onde, ainda, salvaguardam-se valores culturais, históricos. Nomes de ruas – em especial na área bancária – refletem as origens religiosas que nos chegam desde a povoação. Fosse aparentemente paradoxal, a realidade é que, desde o princípio, tornou-se uma das características da cidade: a religiosidade e o pioneirismo em amplos setores do desenvolvimento.
Já no início da povoação, o conflito para a definição do orago: Nossa Senhora dos Prazeres ou Santo Antônio tornou-se senão histórico, notadamente, vinculado ao folclore, à cultura popular impregnados de nossa realidade. Dedicaram-se, assim, a santos, ruas, logradouros, praças públicas, bairros ao longo destes mais de 250 anos. De tal forma que – se a Bahia é a “de todos os Santos” – Piracicaba pode considerar a cidade de muitos deles.
Temos bairros dedicados a santos: Santana, Santa Olímpia, Santa Terezinha, São Jorge, Santa Rita, Santa Rosa. Ainda, ouvimos falar em Largo da Santa Cruz, Largo da Catedral, Largo de São Benedito, Largo do Bom Jesus, Largo dos Frades e outros quejandos, tidos, também, como praças. E ruas: São José, Santo Antônio, Boa Morte, Rosário, São Francisco, Santa Cruz, além dos que fogem à memória.
Homenageamos, enfim, um universo de santos, de indígenas, de pagãos, de políticos e de pessoas. Como sempre conveio a interesses legítimos dos que os nomeiam. Em nome do povo, dizem ...