Certamente, uma das tolices que nos assaltam – em especial, quando se alonga a vida – é a de fazer comparações entre incomparáveis. Aquele “no meu tempo, era assim” apenas pode ter sentido ao se responder quando perguntado. Aos que contam histórias sem ninguém solicitar – como ocorre com este escrevinhador – que se nos dê, pelo menos, certa compreensão. Pois fazemo-lo ou por dever, por atrevimento, por falta de critério, ou apenas por fazer. Também, por imperiosa e irresistível necessidade pessoal, algo que se lhes torna parte da vida. Escrever ou definhar. Parece ser o caso em tela.
Seja lá, porém, o que for, não se escreve sem ler, sem estudar; sem observar, sem refletir. E, muito menos, sem permitir voos da imaginação e das querenças. Nas artes – em todas elas, até mesmo em brinquedos infantis – há o natural e hereditário desejo de criação. Até para fazer estragos, malfeitos e maldades somos criativos. E, na também tola convicção de estarmos sendo originais. Afinal de contas, se dizem sermos todos “filhos de Deus”, há que se admitir existam tantos de nós considerando-se, portanto, “deuses pequeninos”. Ou seja: “tal pai, tal filho”. Ou não?
Querer, portanto, comparar décadas passadas com as atuais seria, apenas, a fim de estabelecer diferenças, mudanças. Para, então, concluir como naturais os desencontros entre gerações surgidas de princípios e de valores diferentes, muitos deles, entre si. Lembremo-nos: Eva e Adão, segundo narrado, ter-se-iam envergonhado ao se verem nus. E cobriram as partes íntimas – “suas vergonhas” – com folhas de figueira, costuradas sabe-se lá como! Entre os humanos de nosso tempo – retomada já nos chamados “anos dourados” – a nudez, em especial a feminina, tornou-se especialíssimo tema publicitário. E desmoralizaram textos tornados clássicos, como “Toda Nudez será castigada” (Nelson Rodrigues), o “Homem Nu” (Fernando Sabino). Agora, o “nude é pop”.
Não há como esquecermos – aos daquela geração – do escândalo, da verdadeira bomba atômica no conservadorismo da época, quando a sedutora Leila Diniz, então grávida, desfilou de biquini pela praia de Ipanema. Leila exibiu seu barrigão com garbo e audácia inédita. Foi no longínquo 1970. E Leila foi incensada como “Musa de Ipanema”, tornando-se símbolo do que se chamava, no país, “libertação feminina e sexual”. Mas não foi bem assim... Ainda hoje, o universo feminino luta por seus direitos. Pelo menos, por reivindicações não atendidas. Parece, pois, escrito que, até o final dos tempos, sempre haverá algo mais a reivindicar-se. O imenso mundo não nos basta.
Ao mesmo tempo, porém, deixamos de atentar aos controles com que buscam aprisionar-nos a vontade e até a própria inteligência. Torna-se até cansativo repetirem-se advertências que almas generosas nos fazem constantemente. A massificação, a comunicação de massa, o despertar propagandístico criando necessidades absurdas, homogeneizando não apenas hábitos e costumes, mas, também, pensares e sentimentos. O pão e circo – “panem et circenses” dos romanos – eternizaram-se através de novos métodos e sistemas. O propagado e proclamado individualismo dos tempos nada mais é, na realidade, do que subordinação coletiva. Pensar como todos pensam, agir como todos agem, aceitar como todos aceitam.
A tragédia a que temos assistido está, talvez, no sequestro que se faz à juventude da paixão pelo idealismo, pelo novo, pela experiência indispensável a próximas ou futuras transformações. Aos jovens, oferecem-se jantares espirituais e econômicos com a condição, porém, de que os engulam sem mastigar nem saborear. Há-se que engolir tudo, que aceitar tudo. E não reagir.