07 de agosto de 2026
MARCELO CANÇADO

"Piracicaba não deve substituir seus pilares, mas sofisticá-los"

Por Nani Camargo |
| Tempo de leitura: 11 min
Arquivo
Cançado é administrador de empresas e pós-graduado em Marketing de Varejo pela Unimep

À frente de uma das maiores redes farmacêuticas do interior paulista e com uma trajetória marcada pela atuação empresarial em Piracicaba, Marcelo Delfini Cançado olha para o futuro da cidade a partir de uma combinação entre experiência, expansão e preservação de legados. Diretor administrativo da Rede Drogal, Cançado acompanha de perto os desafios do setor produtivo e defende uma aproximação cada vez maior entre empresas, universidades e poder público.
Fundada em 1935, em Piracicaba, a Rede Drogal consolidou-se como uma das principais redes farmacêuticas do país, com mais de 470 unidades distribuídas em 145 cidades, sobretudo no interior de São Paulo e no sul de Minas Gerais.
Nesta entrevista ao Jornal de Piracicaba, ele fala sobre o projeto de revitalização do antigo campus da Unimep, que dará origem ao Campus Drogal, os planos de expansão da rede, a formação de mão de obra, a disputa de Piracicaba por investimentos e o papel que a iniciativa privada deve assumir nos grandes debates sobre o futuro da cidade. Para ele, crescer sem perder valores e memória é um dos principais desafios — e também uma das maiores oportunidades.
Cançado é administrador de empresas e pós-graduado em Marketing de Varejo pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). Casado com Roberta Pierozzi Cançado, tem três filhos - Ramon, Gustavo e Rodrigo. E é um avô dedicado dos netos Marília e Daniel. 


1. A aquisição do antigo campus da Unimep foi vista por muitos como um gesto de preservação da memória de Piracicaba. Em que momento o senhor percebeu que aquele espaço poderia voltar a ser protagonista da cidade?
Me formei na Unimep e tive ótimos momentos lá. De aprendizado e com amizades, algumas mantidas até hoje. Eu percebi que o espaço poderia a voltar a ser protagonista em Piracicaba e toda a região no momento que fizemos a visita técnica, antes do leilão. Na primeira reunião que tivemos in loco, meu coração acelerou. Andar pelos corredores, passar pela cantina, laboratórios, teatro. Na capela, mesmo com a fisionomia de abandono, fui levado a uma reflexão interna que considerou as particularidades comerciais e, também, a importância de manter viva a memória de milhares de universitários. A partir desta visita, seguimos com os trâmites para participar do leilão e dar andamento ao projeto de ressignificação dos espaços. Ficou claro, naquela visita, que não estávamos diante apenas de um ativo imobiliário, mas de um território com capacidade real de voltar a exercer protagonismo corporativo, cultural, educacional e humano.

2. A Rede Drogal projeta chegar a mil lojas até 2030. Qual é o maior desafio para uma empresa crescer nesse ritmo em um cenário de juros elevados, mudanças no consumo e avanço do comércio digital?
O maior desafio, sem dúvida, são as pessoas. A Drogal, desde sua fundação, há mais de 90 anos, tem as pessoas no centro de suas estratégias. Tanto que nosso slogan é Feito por Pessoas, Feita com o Coração. Com meu pai, José Cançado, aprendi que cada cliente atendido no balcão é especial. E, também, que cada colaborador tem algo a oferecer durante sua jornada. Isso em todas as funções. Inúmeras vezes acompanhei meu pai ir até o cliente e acrescentar um comentário sobre a medicação ou cuidados com a saúde. No convívio com os colaboradores, conhecia muitos pelo nome, situação familiar e características.
Hoje, diante de um mundo veloz e conectado, o desafio se torna maior. A retenção de talentos e um verdadeiro “apagão” de mão de obra tornaram-se pauta permanente nas estratégias e tomada de decisões. A projeção do nosso crescimento considera, em todas as suas métricas, uma intensa dedicação no quadro de colaboradores, para que a expansão caminhe em sintonia com a valorização humana, e ferramentas que comprovem, no exercício da função, a importância de atuar com o coração. Junto ao desafio humano, seguimos atentos às tendências de mercado e mecanismos tributários. Nossa estrutura de comércio digital está vez mais robusta, indicando ao cliente a possibilidade de atendimento presencial ou online, ambos com excelência. O digital não substitui o físico, mas amplia possibilidades. Nosso modelo busca integrar esses canais com consistência, mantendo o padrão de atendimento como eixo central.

3. Piracicaba sempre foi reconhecida pela força da indústria, do agronegócio e da educação. Na sua visão, qual será o principal motor da economia da cidade nos próximos dez anos?
A próxima década tende a consolidar um movimento de convergência entre vocações já estabelecidas e novas dinâmicas econômicas. Piracicaba não deve substituir seus pilares históricos, mas sofisticá-los. A indústria e o agronegócio continuarão relevantes, cada vez mais orientados por tecnologia, dados e eficiência produtiva, especialmente em áreas como bioenergia, agricultura de precisão, soluções sustentáveis e cadeia automotiva. Nesse contexto, o setor de serviços qualificados ganha protagonismo. Logística avançada, saúde, educação técnica e soluções digitais passam a ocupar um espaço estratégico, tanto pelo crescimento da demanda quanto pela capacidade de gerar valor agregado. Dados de instituições como IBGE e Fundação Seade mostram que o avanço dos serviços tem sido consistente nas economias regionais, acompanhando a transformação do perfil produtivo. Mais do que um único motor, o que se desenha é um ecossistema integrado, em que produção, conhecimento e inovação operam de forma interdependente. Cidades que conseguem articular bem esses elementos tendem a crescer de forma mais sustentável. Piracicaba reúne condições concretas para ocupar esse espaço, desde que mantenha investimentos em qualificação profissional, ambiente de negócios, conexão entre universidade e setor produtivo.

4. O Campus Drogal prevê, no futuro, um centro universitário. O senhor acredita que o setor privado precisará assumir um protagonismo maior na formação de mão de obra diante das mudanças no mercado de trabalho? Como imagina esse modelo?
As mudanças no mercado de trabalho trazem consigo um novo momento na formação profissional. Se antes, a graduação era um item de interesse pessoal inegociável, agora a demanda é inversa. O empregador é o maior interessado em obter uma mão de obra compatível com o seu setor de atuação, nem sempre disponível. O cenário é de escassez, o que deve provocar, com certeza, o envolvimento maior do setor privado no processo de capacitação. O modelo tende a ser bastante personalizado no sentido da formação dirigida para a função esperada. Exemplo: antes, o engenheiro civil cursava a graduação e, somente após a conclusão do curso, começava a ter uma noção de qual área atuaria. Agora, com a mudança do perfil estudantil, muitos grupos acadêmicos oferecem especializações específicas, já pensando na demanda não atendida por conta da falta de profissionais. Essa situação de repete na área da saúde, comércio, prestação de serviços e educação. Escolas estão tendo que buscar jovens que se interessem para a área educacional para acompanhar desde a graduação e poder preencher a grade de profissionais. 
O setor privado tende a assumir um papel mais ativo, não substituindo a academia, mas complementando-a com formação aplicada. O modelo mais eficaz deve ser híbrido: base teórica consistente, combinada com trilhas formativas direcionadas às necessidades específicas das empresas. Isso inclui programas de formação continuada, especializações modulares e integração direta com ambientes de trabalho. O objetivo não é apenas formar profissionais, mas reduzir o tempo de adaptação, aumentando a aderência entre conhecimento e prática.

5. O senhor presidiu a Acipi e continua acompanhando de perto o ambiente empresarial. Hoje, qual é a principal dificuldade enfrentada por quem quer investir e gerar empregos em Piracicaba?
A dificuldade mais recorrente, observada inclusive entre as associadas da Acipi, é a combinação entre escassez de mão de obra qualificada e ambiente de negócios ainda complexo. A retenção de profissionais tornou-se um desafio transversal, independentemente do porte da empresa. Ao mesmo tempo, questões estruturais como carga tributária, o alto cust do dinheiro, burocracia e custos operacionais impactam decisões de investimento. Dados de entidades como Sebrae e CNI reforçam esse diagnóstico em âmbito nacional. No plano local, há um ambiente favorável, mas que ainda demanda avanços em simplificação, infraestrutura e políticas de estímulo.

6. Piracicaba vive uma disputa crescente por investimentos com cidades como Campinas, Limeira, Americana e Sorocaba. O que precisa ser feito para que a cidade continue competitiva e atraindo grandes empreendimentos?
A competitividade regional exige atuação coordenada. Piracicaba tem ativos relevantes como localização estratégica, tradição industrial e qualidade de vida. Não basta. Precisa avançar em agendas estruturais. Isso passa por políticas fiscais mais atrativas, agilidade nos processos, infraestrutura adequada e fortalecimento das parcerias público-privadas. A disputa por investimentos é natural e saudável, mas exige consistência nas decisões. Não se trata apenas de atrair novos empreendimentos, mas de garantir condições para que empresas já instaladas ampliem suas operações. Competir por investimentos é algo genuíno e natural. Piracicaba sempre foi um polo sucroalcooleiro, trazendo consigo toda uma cadeia de empresas.  Permanecer ou sair deste protagonismo; ganhar ou perder investimentos passa por ações assertivas e esforços conjuntos com olhos para o desenvolvimento. 

7. O Brasil entra em mais um período eleitoral. Independentemente de partidos ou candidatos, quais temas o empresariado espera ver no centro do debate político nos próximos meses?
Esse assunto está muito relacionado à pergunta anterior porque a atuação do empresariado pode ajudar demais no desenvolvimento de um país, dos estados e das cidades. Carga fiscal, incentivos econômicos e austeridade na proteção dos passivos nacionais são temas oportunos para o período eleitoral. Também há uma expectativa crescente em relação à qualificação profissional e à modernização das relações de trabalho. Esses pontos têm impacto direto na capacidade de investimento e geração de empregos. 

8. Em diversos momentos da sua trajetória, o senhor defendeu a aproximação entre universidade, empresas e inovação. A crise da Unimep mostrou o quanto essa relação pode ser frágil. Que lições ficam desse episódio?
Lições práticas de que a ausência do diálogo tem um imenso efeito escalonado e impactante. Se no momento oportuno, universidade, iniciativa privada e inovação tivessem sentado para falar de futuro, talvez o cenário fosse outro. A Universidade Metodista de Piracicaba ainda existe, só que em proporções infinitamente menores do que foi um dia.  Quando universidade, setor produtivo e ecossistema de inovação deixam de atuar de forma integrada, perdem-se oportunidades de antecipar problemas e construir soluções conjuntas. Não cabe aqui um diagnóstico sobre a instituição, mas fica evidente a necessidade de mecanismos permanentes de governança, transparência e visão de mercado. Experiências bem-sucedidas mostram que a aproximação entre esses atores fortalece todos os lados.

9. Depois de décadas à frente de uma empresa familiar que se tornou uma das maiores redes farmacêuticas do interior paulista, qual foi a decisão mais difícil da sua carreira e o que ela ensinou sobre liderança?
Liderança e decisões difíceis caminham bem pertinho. Uma sucessão familiar de sucesso começa no desejo de mudanças, de movimentação. Quando traçamos nosso plano de expansão, um ponto de atenção foi tratar como prioridade o legado deixado pelos fundadores sem perder competitividade e mercado. Nem sempre foi fácil porque o crescimento estratégico envolve muitos riscos. Nestes momentos, uma boa liderança faz toda a diferença. No nosso caso, a expansão exigiu equilibrar crescimento com preservação de valores construídos ao longo de décadas. Isso envolve riscos, ajustes e, muitas vezes, mudanças estruturais. A principal lição é que liderança não se resume a definir caminhos, mas a sustentar esses caminhos com coerência e responsabilidade. Em empresas familiares, esse desafio é ainda mais sensível, porque envolve legado, cultura e continuidade. Ao longo dos nossos 90 anos de história, tivemos lideranças de impacto em muitos setores, com atuação decisiva e que sustentaram uma sucessão familiar potente, nos colocando entre as principais redes de farmácias do país.

10. Quando o Campus Drogal estiver plenamente funcionando daqui a alguns anos, qual será o maior legado que o senhor gostaria que esse projeto deixasse para Piracicaba, além da geração de empregos?
O projeto de retrofit do Campus Drogal está todo sustentado no legado de trazer vida a um espaço que, por muitos anos, fez parte da vida de muitas pessoas. A revitalização dos espaços marca um novo capítulo da história daquele espaço, agora construída por outras mãos.  Mais do que ocupar uma área, o projeto busca devolver vitalidade a um território relevante para a cidade. A proposta de integrar atividades administrativas, logísticas, culturais e, futuramente, educacionais cria um ambiente de circulação de pessoas, conhecimento e oportunidades. Isso amplia o impacto para além da geração de empregos, contribuindo para o desenvolvimento urbano e para o fortalecimento da identidade local. No Taquaral, estamos levando o legado Feito por Pessoas, Feito com o coração de um modo muito especial. Lá na frente, quero acompanhar os resultados, confirmando que estava certo em ressignificar aquele espaço.

11. O senhor é frequentemente citado como uma das lideranças empresariais mais respeitadas de Piracicaba. Em um momento em que a sociedade cobra maior participação da iniciativa privada nos rumos da cidade, qual deve ser o papel do empresário: apenas investir e gerar empregos ou também influenciar os grandes debates públicos?
O agir político vai além dos debates públicos. Essa influência, além de saudável, é inevitável. Ao escolher apresentar pautas políticas estamos contribuindo para uma cidade melhor. Investir e colaborar com debates públicos são complementares e não excludentes. A contribuição para o debate público, quando feita com responsabilidade e foco no interesse coletivo, é legítima e necessária. A atuação empresarial pode colaborar com propostas, dados e experiências para ajudar a qualificar decisões. Trata-se de uma influência que deve ser exercida com equilíbrio, sempre orientada pelo desenvolvimento da sociedade.