O livro bíblico do Eclesiastes, cuja autoria é geralmente atribuída ao rei Salomão, transmite, já no início do seu capítulo 1, uma verdade muito profunda: “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.”
Segundo o velho dito popular, a vaidade é um vício feminino. Nada mais injusto! Na realidade, os homens são tão vaidosos quanto as mulheres; e às vezes, até mais do que elas. A vaidade masculina costuma se revestir de formas diferentes das femininas, mas o vício é o mesmo, sem tirar nem pôr.
De modo especial são propensos à vaidade os escritores e poetas, que facilmente se irritam diante das críticas, até mesmo daquelas bem intencionadas e construtivas. Talvez por isso é que os clássicos cunharam a expressão "genus irritabile vatum" (o gênio irritadiço dos poetas). Conheci quando ainda era jovem, há quase 40 anos, um poetastro muito medíocre, muito sem inspiração, que compunha quadrinhas de pé quebrado. Seu apelido era "Batatinha", porque línguas maldosas diziam que ele havia conquistado o amor de sua futura esposa com uma serenata, no meio da qual declamou o seguinte "poema" de sua lavra: “Batatinha quando nasce / Esparrama pelo chão / Quando estou pensando em você, querida / Bate forte meu coração"... Era um homem extremamente amável e atencioso com as pessoas, educadíssimo em tudo... salvo quando alguém ousava criticar algum dos seus "poemas". Aí virava uma fera!
Numa célebre passagem em que comentou Pôncio Pilatos, o Padre Antônio Vieira aludiu à vaidade dos homens de letras: Pilatos sabia que Jesus Cristo era inocente, mas consentiu na sua condenação apenas porque não teve coragem de resistir às pressões dos que exigiam a morte do Nazareno. O caráter fraco de Pilatos fica muito patente nos Evangelhos. Era medroso, inseguro e influenciável. No entanto, quando mandou colocar no alto da Cruz a tabuleta com a inscrição "I.N.R.I." (Jesus Nazareno, Rei dos Judeus) e alguns judeus protestaram, pedindo que fosse substituída por outra que significasse "Jesus Nazareno, que se diz Rei dos Judeus", Pilatos não se dobrou. Com energia surpreendente, exclamou: "O que escrevi está escrito!". E a tabuleta ficou como estava.
Por que um homem tão pusilânime conseguiu de repente tomar uma atitude tão firme? Essa a pergunta que faz o Padre Vieira, e logo em seguida responde espirituosamente: porque Pilatos era vaidoso como os homens de letras, e não podia tolerar que alguém ousasse corrigir o que escrevera.
A vaidade dos escritores obriga os críticos a fazer, por vezes, verdadeiros prodígios de diplomacia para não ferirem as susceptibilidades dos escrevinhadores, especialmente quanto altamente colocados.
Conta-se que Luís XIV teve certa vez a fraqueza de "perpetrar" alguns versinhos, e foi mostrá-los a Boileau, perguntando o que achava deles. A resposta do implacável crítico ficou célebre:
- Sire, nada é impossível para Vossa Majestade. Quis fazer maus versos e, como em tudo o que se digna fazer, foi muito bem sucedido.
Aqui no Brasil, também se contava que o Imperador D. Pedro II escreveu uns versos e foi mostrá-los a Carlos de Laet:
- Que acha dos meus versos, "seu" Laet?
- Bons, muito bons... Mas Vossa Majestade poderia fazer coisa melhor!
Mais galante - mas igualmente cruel - foi a resposta de Monteiro Lobato a uma jovenzinha que lhe declamava seus versos:
- Até versos ruins ficam bonitos quando você os declama!
Outro crítico, menos contundente que Boileau ou Laet, não encontrava o que elogiar no manuscrito que um pretensioso candidato à imortalidade lhe exibia, sôfrego por receber um elogio. Só encontrou uma saída:
- Que bonita letra é a sua!