29 de julho de 2026
ARTIGO

Socorro, senhor gerente do Banco do Brasil!

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 2 min

Há pedidos que chegam em forma de ofício. Este vem embrulhado em saudade, temperado com humor e assinado pela memória de Piracicaba.

Senhor gerente do Banco do Brasil, antes que alguma reforma apague um pedaço da história da cidade, permita que esta crônica lhe faça um apelo.

O Banco do Brasil não é apenas uma instituição financeira. É um símbolo nacional. Nasceu ainda no período colonial, atravessou impérios, repúblicas, mudanças de moeda, crises econômicas, planos mirabolantes, inflações e revoluções. Viu o Brasil crescer, tropeçar e recomeçar inúmeras vezes, sempre permanecendo como referência de solidez e confiança.

No coração de Piracicaba, diante da Praça José Bonifácio, sua agência também acompanhou essa caminhada. Mudaram fachadas, tecnologias e instalações. Mas há algo que pertence menos ao prédio do que ao coração da cidade.

Debaixo da marquise repousam quatro simples "banquinhos " de madeira. Pequenos no tamanho, enormes no significado.

Ali descansam trabalhadores, estudantes, aposentados, jornalistas, comerciantes, casais e sonhadores. Quem chega cansado encontra abrigo contra a chuva, contra o sereno e, muitas vezes, contra a solidão. Basta um "bom dia" para nascer uma conversa.

Foi desse encontro espontâneo que nasceu a famosa "Turma do Sereno".

É um clube diferente. Não tem estatuto, mensalidade, diretoria nem eleição. O único requisito para ser sócio é aparecer. As reuniões são noturnas e não tem hora para acabar. A ata é escrita na memória, e a presidência muda conforme quem começa a conversa.

Ali se encontram prefeitos, vereadores, deputados, secretários, empresários, profissionais liberais e gente do povo. Quando se sentam naqueles bancos, os cargos ficam de pé; quem permanece sentado são apenas pessoas.

Aquele canto transformou-se numa verdadeira tribuna popular. Ideias correm livres como as águas do rio Piracicaba. Entre uma brincadeira e outra, entre a descontração e a preocupação, discutem-se problemas, sonham-se soluções e, muitas vezes, nascem boas ideias para a cidade.

Por isso, senhor gerente, compreenda que uma decisão administrativa pode alcançar muito além das paredes da agência. Retirar aqueles quatro "banquinhos" será como arrancar um capítulo da memória afetiva de Piracicaba.

Sabemos que modernizar é necessário. Mas preservar também é uma forma de progresso.

Os quatro "banquinhos" não aparecem no balanço patrimonial, não rendem juros nem dividendos. Mesmo assim, produziram durante décadas um capital que dinheiro nenhum consegue comprar: amizade, convivência, respeito, escuta e cidadania.

Por isso fazemos este apelo: antes de autorizar qualquer retirada, faça um generoso empréstimo daquilo que nunca entra em inadimplência, a sabedoria.

Deixe que a "Turma do Sereno" continue encontrando seu porto seguro. Que os velhos frequentadores e os novos aprendam que uma cidade também se constrói nas conversas sem pressa.

Preservar aqueles quatro "banquinhos" será um pequeno gesto para o Banco do Brasil, mas um enorme crédito concedido à história, à cultura e ao coração de Piracicaba.