Ao sermos indagados sobre nossa identidade, ou mesmo quando nos recolhemos no silêncio da própria alma para fazer esse questionamento, tendemos a apresentar os papéis sociais com os quais nos identificamos. Definimo-nos por nossas profissões, laços familiares, títulos acadêmicos ou posses materiais. Contudo, ao refletirmos com maior lucidez acerca de nossa realidade essencial, percebemos que essas definições são superficiais. Mais do que nos perguntar quem somos, cabe a reflexão sobre o que somos.
Quando nos perguntamos quem somos, está implícita a limitação de nossa condição biológica e social de seres humanos. Agora, se questionamos em profundidade o que somos, rompemos tais barreiras. Podemos, então, chegar a nos considerar consciências em constante processo de evolução. Sob essa óptica transcendental, somos seres espirituais transitoriamente pertencentes à condição humana e provisoriamente domiciliados na morada planetária que nos abriga. Essa mudança de perspectiva não apenas amplia de forma extraordinária a visão acerca de nós mesmos e dos demais como também abre novas e luminosas perspectivas à realização de nossos potenciais.
As referências a nosso respeito podem se dar tanto a partir do nosso próprio autoexame quanto do que os outros pensam e projetam de nós. Mesmo quando meditamos acerca de quem ou do que somos, essa avaliação pode se desdobrar a partir de diversas dimensões do nosso ser. Caso nossa percepção esteja limitada ao corpo físico, cometeremos o equívoco de nos identificar exclusivamente com a vestimenta material e perecível que habitamos. Se a nossa autoavaliação se dá a partir dos títulos que ostentamos e das relações humanas, estaremos apenas nos espelhando nas conquistas efêmeras do nosso ego.
No entanto, ao mergulharmos mais profundamente em nosso ser, o cenário se transforma. Se conseguimos reconhecer a centelha divina e a essência que verdadeiramente somos, nossa identidade assume uma dimensão completamente diversa. Essa autodescoberta transcende os aspectos materiais, emocionais e mentais que nos moldam no cotidiano. Nesse nível de profundidade torna-se possível — segundo o testemunho unânime daqueles que atingiram a autorrealização ao longo da história — o reconhecimento da nossa real natureza cósmica, bem como a dos demais seres que conosco compõem a maravilhosa teia da existência.
Essa verdade ressoa com clareza incomparável nos ensinamentos do Cristo. Quando Jesus afirmou categoricamente: “Vós sois o sal da terra”; “Vós sois a luz do mundo” e “Vós sois deuses”, o Mestre não estava proferindo meras metáforas poéticas. Ele estava, de fato, reconhecendo a nossa natureza essencialmente divina, ao mesmo tempo que ressaltava o infinito potencial humano de realização, de regeneração e de iluminação espiritual. Ele nos via não apenas como pecadores, mas sobretudo como sementes de luz destinadas à perfeição.