24 de julho de 2026
ARTIGO

O nome por trás dos escândalos

Por Álvaro de Carvalho |
| Tempo de leitura: 3 min

O Brasil tem um vício que o destrói por dentro: a paixão por personagens. Em vez de confiar em instituições, leis e memória histórica, o brasileiro se agarra a líderes como quem procura um santo de palanque. E continua acreditando em um. E quando a política vira devoção, a verdade perde para o carisma. É por isso que os maiores escândalos da Nova República acabam sempre girando em torno do mesmo universo de poder. Mudam os operadores, mudam os álibis, mudam os marqueteiros. O centro simbólico, porém, continua assustadoramente familiar: Lula. 

Foi assim no mensalão, o escândalo que rasgou a fantasia da pureza moral petista. Foi assim no petrolão, que transformou a Petrobras em monumento à promiscuidade entre poder político, empreiteiras e apetite por dinheiro público. Foi assim na Lava Jato, que revelou um país sequestrado por um sistema de corrupção e lavagem de dinheiro tão grande que já não parecia desvio, mas método de governo. Depois vieram as anulações processuais, os malabarismos jurídicos, a reescritura conveniente da história e o esforço militante para vender absolvição moral onde houve apenas reviravolta judicial. O roteiro mudou. O cheiro, não. 

E eis que, na última semana, o próprio Lula entregou de bandeja mais uma peça da sua hipocrisia ambulante. Depois de uma vida inteira sendo embalado como ícone da esquerda latino-americana, disse no G7 que “nunca foi esquerdista”. É uma frase tão reveladora quanto grotesca. Não porque surpreenda, mas porque confirma. Lula não é homem de convicções; é homem de conveniências. À militância, oferece o velho figurino da luta social. Ao mercado, vende moderação. Ao exterior, posa de pragmático. Ao eleitor apaixonado, entrega o personagem que for necessário e mente. Sua ideologia real nunca foi a esquerda. Foi o lulismo. E o lulismo é apenas o culto do próprio Lula. 
O mais trágico é que ainda há milhões de brasileiros emocionalmente sequestrados por esse teatro. Pessoas ditas "cultas", outras ditas "inteligentes", formadoras de opinião. Gente que não vota em projeto, vota em afeto. Ou afeto que recebe em forma de dinheiro no bolso como em alguns artistas. Gente que não examina fatos, terceiriza consciência. Gente que trata contradição como esperteza, escândalo como perseguição e oportunismo como virtude popular. O Brasil sofre não apenas com maus políticos. Sofre com a infantilização moral de uma parcela do eleitorado, que se ajoelha diante de um líder que muda de discurso com a naturalidade de quem troca de gravata. 
Nenhum país amadurece enquanto aceitar ser governado por uma mitologia ambulante. Nenhuma democracia se fortalece quando um nome se torna maior que os fatos. E nenhum povo prospera quando transforma contradição em carisma e escândalo em detalhe. O problema do Brasil não é só Lula. É a disposição nacional de continuar acreditando nele como se a realidade não tivesse falado alto o suficiente. 
Está mais do que na hora de o país abandonar a paixão pelo personagem e recuperar o respeito pela verdade. Porque povo que idolatra demais acaba pensando de menos. E na política, quando a razão se ajoelha, a conta sempre chega.