Quem não é de Piracicaba quase sempre faz a mesma pergunta quando ouve o nome: "Mas por que Boa Morte?"
A resposta costuma decepcionar quem espera uma história de crime, assombração ou lenda. A origem é religiosa. Mas, convenhamos, o nome nunca precisou de explicação. Sempre bastou existir.
Nasci em Piracicaba e morei na Boa Morte. Não por tempo suficiente para me achar dono da rua, mas o bastante para entender que ela nunca foi apenas um endereço. Há lugares que acabam fazendo parte da formação da gente. A Boa Morte foi um deles.
Pouca gente sabe que ela já se chamou Rua da Matriz e Rua do Pátio, quando Piracicaba ainda dava seus primeiros passos. Mais tarde, herdou o nome da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, cuja primeira capela foi erguida no século XIX por Miguelzinho Dutra. Há quem diga, porém, que a origem também esteja no antigo caminho que levava ao cemitério da irmandade, instalado onde hoje fica o pátio do Colégio Dom Bosco Assunção. Gosto de pensar que as duas histórias podem ser verdadeiras. Afinal, cidades também são feitas de memórias, e as melhores delas quase nunca cabem em uma única versão.
Tem rua que nasce importante. A Boa Morte fez sua própria importância.
Ali passaram milhares de estudantes. O Colégio Piracicabano e a Escola do Comércio ajudaram a formar gerações de piracicabanos. Em determinados horários, a rua mudava de ritmo. As calçadas eram tomadas por uniformes, mochilas, bicicletas, pais esperando os filhos, professores atravessando de um lado para o outro e comerciantes que já sabiam a hora exata em que o movimento começaria. Era uma rotina que se repetia todos os dias e, justamente por isso, parecia que nunca teria fim.
A Boa Morte, porém, sempre foi muito mais do que um corredor de estudantes.
Durante décadas, ela foi um dos endereços mais movimentados de Piracicaba. Suas lojas atraíam consumidores de toda a cidade e da região, escritórios dividiam espaço com consultórios, pequenos negócios prosperavam ao lado de estabelecimentos tradicionais e as calçadas permaneciam cheias durante boa parte do dia. Quem precisava resolver alguma coisa no Centro, muito provavelmente passava pela Boa Morte. Era um lugar de encontros, de conversa, de trabalho e de uma vida urbana que acontecia ao ar livre.
Também foi palco de momentos que ajudaram a contar a história da cidade. O Carnaval já desfilou por ali, assim como os desfiles cívicos que reuniam estudantes, bandas e famílias inteiras. Antes disso, o bonde cruzava a rua com a tranquilidade de quem fazia parte da paisagem. Hoje parece distante imaginar os trilhos, mas durante muitos anos aquele era o som natural da Boa Morte.
É curioso como algumas ruas conseguem guardar muitas versões de uma mesma cidade. Basta conversar com pessoas de idades diferentes para perceber isso. Um vai lembrar do tempo da escola. Outro das compras. Outro do Carnaval. Outro do bonde. Cada lembrança parece contar uma rua diferente, mas todas falam da mesma Boa Morte.
Piracicaba costuma lembrar do rio, da Rua do Porto, da ESALQ. E faz muito bem. São símbolos que ajudaram a construir a história da cidade. Mas a Boa Morte merece ocupar esse mesmo álbum de lembranças. Não apenas pelos prédios que ainda resistem ou pelo nome que desperta curiosidade, mas pelo que representou na vida cotidiana de milhares de pessoas.
As cidades mudam. Ainda bem. O problema não é mudar. O problema é esquecer.
A Boa Morte continua ali, quase silenciosa, lembrando que uma cidade não é feita apenas de obras novas. É feita, principalmente, das ruas onde as pessoas estudaram, trabalharam, fizeram amigos, viveram a juventude e construíram suas histórias.
Talvez seja por isso que eu nunca tenha estranhado o nome.
Para quem conhece a Boa Morte, ela sempre foi sinônimo de vida.
Clovis Vaz é Empresário de Comunicação e Consultor Político.