Derramando os olhos na areia da história, encontrar-se-ão semelhanças entre os jogos do coliseu da Roma antiga e nos nossos também monumentais estádios de futebol. Nas arenas romanas, homens enfrentavam os animais sob explosões emocionais de plateias apaixonadas. Em nosso tempo, homens lutam entre si pelo domínio de uma bola. Vencedores recuperavam, nas disputas romanas, a própria vida, engalanando-se com coroas do louro, plantinha considerada emblema da glória. Dominadores da bola ganham aplausos, dinheiro e prestígio. Derrotados são esquecidos. Ou marginalizados. Conforme a lei da atualidade: “vencer ou vencer”. Embora, na realidade, viver também é perder.
Chegamos aos últimos dias do Campeonato Mundial de futebol. Foi como se o mundo tivesse parado. Pelo menos, grande parte dele diante da magia de jogos digamos que hipnotizantes. No entanto, e infelizmente para eles próprios, há, ainda, os que veem, no jogo, a realidade apenas negativa. No entanto, a própria vida é um jogo, essencial para cada vivente. Joga-se diariamente não tão somente para sobreviver como, também, para se divertir. Desde a Antiguidade, pensadores, filósofos entenderam o jogo como parte da natureza humana, atividade que se realiza sem outra finalidade que não a dela mesma. E a finalidade está no que, mesmo não o percebendo, o ser humano busca incessantemente: viver a alegria, estar feliz. Pode-se consegui-lo, pode-se fracassar. É o jogo.
Obviamente, o controle sobre tal naturalidade da condição humana veio estabelecer regras, normas e até mesmo leis que fazem, dessa realidade, veículos para interesses vários. São os jogos coletivos, criando concorrências e competições nas quais há perdedores e vencedores. A humanidade vive deles, em disputa permanente. O mínimo de paz acontece apenas durante a disputa, quando contendores respeitam, temem ou ainda desconhecem uns aos outros. É o empate, ainda que provisório. Pois, basta encontrar a fragilidade daquele, para este investir, buscando vencê-lo.
É o que ainda se vive nos estádios de México, Canadá, Estados Unidos, reunindo multidões que se enlouquecem com vitórias e derrotas, vivendo-as nas próprias almas. Disputas esportivas conseguem despertar paixões até mesmo ocultas. E o futebol, especial e universalmente. É algo de tal forma mobilizador que causa verdadeiros frenesis coletivos, inexplicáveis para quem ignora os sentimentos humanos. Logo, numa Copa Mundial de Futebol, o que imensidões de pessoas vivem e presenciam é a exibição pública daquilo que somos sem máscaras e artifícios. É o homem nu.
Nessa dimensão empolgante, ressalta, também, o comovente. É a luta, o esforço, o suor e lágrimas de jogadores que – além de um campeonato – sabem estar representando bilhões de pessoas. Numa guerra sem morticínios, eles revelam-se guerreiros de seus países. No mundo global, aqueles homens vivem um nacionalismo apaixonado. E, com o humilhante fracasso da Seleção Brasileira, o contraste para nós se torna vergonhoso. Basta-nos ver um e outro, ele e aquele. Ele, Messi. Aquele, Neymar.
Enquanto o argentino emocionava o mundo com sua arte, seus esforços, o sacrifício de um atleta de 39 anos, aquel´outro, o brasileiro, divertia-se numa mesa internacional de pôquer. Outros grandes astros do futebol, já aposentados, estavam lá, nas arquibancadas. Aquele, mal tirando a camisa da seleção, esbaldando-se como se nada lhe importasse a tristeza que permanece em milhões de brasileiros. Ave, Messi! Ao outro...