11 de julho de 2026
CIDINHA MAHLE

'A música, quando bem-ensinada e praticada, nos faz felizes'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
''Não tenho mais muitos projetos, os atuais "Concertos Ao Cair da Tarde" me dão bastante satisfação e trabalho'

A história de vida da pianista Maria Apparecida Romera Pinto Mahle se confunde com a história da música em Piracicaba. Conhecida carinhosamente como dona Cidinha Mahle, a pianista fez uma linda trajetória na música erudita de Piracicaba ao lado de seu marido, o maestro Ernst Mahle, com influência também em nível nacional e internacional.

Dona Cidinha começou a estudar música (piano) com 6 anos de idade, com D. Dirce Camargo, discípula de Fabiano Lozano, maestro, e de Magda Tagliaferro, pianista. E, desde então, não parou mais de estudar. Fez a Escola Normal, hoje Sud Mennucci, onde se formei professora, aos 18 anos. 

Os livros, cadernos e partituras, aliás, são um dos segredos de Dona Cidinha para tanta vitalidade: “Sempre gostei muito de estudar”, conta ela, ainda mantém projetos na área da música, em especial, os “Concertos Ao Cair da Tarde”, que “me dão bastante satisfação e trabalho, com apresentações uma vez por mês e pretendo, se Deus quiser, seguir adiante, até quando Ele permitir”, revela.

A pianista e professora conta que a memória de Mahle vem sendo preservada, “pelo muito que ele escreveu para crianças, jovens e músicos amadores ou profissionais”. “Mahle sempre valorizou aqueles que não somente apreciavam ouvir e estudar música, mas ainda participavam com muito gosto em conjuntos de câmera, coros e orquestras, sendo que ele escrevia para eles e regia os mesmos”.

Ao longo da entrevista, ela ainda explica o que deve ser feito para preservar a boa música: “Aprendendo, desde criança a tocar músicas de repertório significativo de compositores não somente de hoje, mas de várias épocas: barroco, classicismo, romantismo e atuais, com bons conhecimentos e inspiração, por parte daqueles que se dedicam ou se dedicaram a compor”. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Conte para nós o segredo para tanta vitalidade, aos 95 anos? Sempre gostei muito de estudar, na escola primária e depois na Escola Normal, hoje Sud Mennucci, onde me formei professora, aos 18 anos. Aliás não tenho ainda os 95 anos que o Sr. falou – somente 94! Quando me formei tinha acabado de completar 18 anos.

Quais são os projetos que a senhora está desenvolvendo atualmente? E quais os projetos que vêm pela frente? Não tenho mais muitos projetos, os atuais “Concertos Ao Cair da Tarde” me dão bastante satisfação e trabalho, com apresentações uma vez por mês e pretendo, se Deus quiser, seguir adiante, até quando Ele permitir. Uma vez por mês, reunindo músicos e estudantes bons, com programas vários, cantores e instrumentistas, que gostam de estudar e mostrar suas atividades e talento, já representam bastante trabalho e satisfação.

Como a senhora trabalha para preservar a memória musical do maestro Mahle? A memória de Mahle vem sendo preservada, sendo acima de tudo pelo muito que ele escreveu para crianças, jovens e músicos amadores ou profissionais, que valorizam muito seu talento, sendo ainda que pessoalmente ele gostava muito de tocar e reger em público, também, com eficiência e gosto.

Como surgiu a ideia de fundar a Escola de Música de Piracicaba? A ideia de fundar uma escola de Música de Piracicaba surgiu por iniciativa de várias importantes personalidades locais e do compositor Koellreutter, inclusive por trazer músicos que lecionavam em São Paulo, incluindo o Mahle, que vinha guiando, trazendo além do professor K. e ele mesmo, Mahle, lecionando, com muito amor, para os interessados locais.

O maestro Ernst Mahle sempre valorizou a formação de novos músicos. Como era trabalhar ao lado dele? Mahle sempre valorizou aqueles que não somente apreciavam ouvir e estudar música, mas ainda participavam com muito gosto em conjuntos de câmera, coros e orquestras, sendo que ele escrevia para eles e regia os mesmos.

Muitos de seus ex-alunos seguiram carreira no Brasil e no exterior. Há alguma história que a senhora gostaria de compartilhar? Muitos seguiram carreira de músicos no Brasil e no exterior, alguns até já se aposentando. Entre eles, Caio Carneiro, falecido, violinista, e Paulo Arantes, oboé, ainda trabalhando, e vários outros, tocam ou tocaram no Brasil e no exterior.

Quais momentos da história da escola mais emocionam a senhora? A inauguração da Sala Mahle me emocionou muitíssimo com nossos professores e alunos apresentando um belo programa, a Orquestra acompanhando o nosso Coro Misto cantando o “Te Deum”, de Mahle. Fiquei muito feliz com essa apresentação.

Quais momentos da História da Escola mais emocionaram a senhora? Infelizmente foi a venda do Prédio da EMP, encerrando um período de grande progresso musical, não só pela Sala de Concertos, mas de todas as atividades musicais da Escola de Música de Piracicaba.

A EMPEM foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Piracicaba. Qual o significado desse reconhecimento para a senhora? Acho muito bonita essa frase. Mas se continuasse a ter um belo desenvolvimento seria outro o futuro. Reconhecida como “Patrimônio Imaterial de Piracicaba”, na certa é um belo título, mas na certa o funcionamento da EMPEM com suas aulas, conjuntos, tornava tudo completo, o que hoje não acontece.

O que tornou Piracicaba uma cidade tão importante para a música erudita no Brasil? O trabalho do Mahle, não somente por ser compositor erudito, mas saber escrever música que agradava a todos: crianças, jovens e adultos.

Qual foi a importância das orquestras e dos corais para a formação cultural dos piracicabanos? Nas orquestras todos aprendem muito e o estudo individual com boas obras, de qualidade, favorece muito todo os conjuntos.

Como a senhora acredita que a música transforma a vida de crianças e jovens? A música, quando bem-ensinada e praticada, nos faz felizes e somos então conquistados por seu belo som.

Existe alguma obra ou compositor que represente especialmente a identidade musical de Piracicaba? Especialmente são conhecidos Erotides de Campos e Fabiano Lozano, que muito trabalharam compondo, ensinando e formando conjuntos. Acrescente-se aí o nome do Mahle, com suas composições e arranjos.

Que conselho a senhora daria aos jovens que desejam estudar música clássica hoje? Conseguir bons professores e tocar em conjuntos com bons maestros, que escolhem repertórios significativos.

Como a senhora gostaria que as futuras gerações lembrassem da história da música erudita em Piracicaba? Aprendendo, desde criança a tocar músicas de repertório significativo de compositores não somente de hoje, mas de várias épocas: barroco, classicismo, romantismo e atuais, com bons conhecimentos e inspiração, por parte daqueles que se dedicam ou se dedicaram a compor.