06 de julho de 2026
ARTIGO

O que parece, mas não é inveja

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

A inveja se distingue do ciúme, da cobiça ou ambição, da emulação ou competividade, da admiração. Todos esses sentimentos em alguma medida se aproximam da inveja, mas não se confundem com ela.

Ciúme é o medo mórbido de perder algo que já se possui; quando esse medo se transforma em ódio e em desejo de prejudicar a pessoa que se imagina estar a ameaçar a tranquila posse daquele bem, aproxima-se perigosamente da inveja. O ciumento teme, por insegurança, perder algo que já tem, enquanto o invejoso se atormenta porque não tem algo que vê outra pessoa ter. São ambos pusilânimes, o ciumento porque inseguro, o invejoso porque se sabe inferior e se atormenta com o reconhecimento dessa inferioridade.  O ciumento olha para o rival e procura nele aquilo que pode fazer dele superior a si próprio; já o invejoso tem bem claro, para si mesmo, no que o outro lhe é superior e o odeia precisamente por isso. Curiosamente, no convívio social o ciumento é mais compreendido e tolerado do que o invejoso. Crimes passionais motivados por ciúmes tendem a ser explicados por excesso de amor... enquanto crimes motivados claramente pela inveja parecem sempre aviltantes e indesculpáveis.

Cobiça é o desejo de ter alguma coisa que pertence a outro; só se transforma em inveja se, hipertrofiada, produz uma tristeza mortal pelo fato de não possuir aquilo e é acompanhada de um desejo intenso de privar o outro daquele bem, ainda que não seja possível beneficiar-se dele.

Chama-se emulação o desejo de igualar ou de superar outra pessoa. Pode, igualmente, ser bom e ordenado, por exemplo numa competição esportiva conduzida com fairplay, ou no âmbito de uma escola tradicional meritocrática, em que os alunos são estimulados a concorrerem entre si na disputa pelas melhores notas. Mas pode, igualmente, desviar-se e ensejar manifestações cruéis de inveja.

Admiração é o sentimento de quem se embevece e se maravilha por algo, ou por alguém; quando é desinteressado, é um dos mais nobres sentimentos de que é capaz o ser humano; é, mesmo, o antídoto da inveja; quem admira desinteressadamente de certa forma se beneficia e se torna como que partícipe da coisa ou da pessoa admirada; quando, porém, a admiração é acompanhada de egoístico desejo de apropriar-se a qualquer custo do objeto da admiração, pode transformar-se em cobiça e até mesmo em inveja.

A origem da inveja está na capacidade comparativa que tem o ser humano. Desde o despertar da razão, a todo momento exercemos a capacidade de comparar coisas diversas, distinguindo as maiores das menores, as boas das más, as belas das feias, as saborosas daquelas que são insípidas ou que têm gosto mau. É normal que um dos elementos da comparação seja o próprio indivíduo, que, à medida que vai crescendo e interagindo com outros indivíduos, se autoclassifica em função dos demais. Daí nasce a autoestima, que admite muitos graus: vai desde a megalomania e o narcisismo até o mais profundo dos chamados complexos de inferioridade, aquilo que no Brasil se designa como “complexo de vira-lata”. Entre esses dois extremos, o do excesso e o da falta, situa-se a faixa equilibrada e correta da virtude, ou seja, de quem sabe o que é e o que vale, que atribui a si próprio o real valor que tem.

Quando nos comparamos com outra pessoa e vemos nela superioridades em relação a nós, diversos sentimentos podem nos possuir. Podemos ter uma atitude admirativa e sinceramente desejarmos nos aproximar da outra pessoa com boas intenções, para mais de perto conhecê-la e admirá-la: essa a conduta de discípulos em relação a um mestre respeitado e querido. Podemos também ficar indiferentes, porque o título de superioridade do outro não nos importa: a um grande esportista, de fama mundial, sem talentos musicais, pouco lhe importa reconhecer que seu vizinho toca dois ou três instrumentos e ele não consegue sequer solfejar. Pode também despertar em nós tristeza o fato de reconhecermos nossa própria inferioridade, sobretudo quando esta é irremediável. Se for uma tristeza equilibrada e resignada, nenhuma consequência má terá, mas se for uma tristeza mórbida e avassaladora e não e combatermos a tempo, poderá transformar-se em inveja e em ódio.